A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 535
Capítulo 535: Cães de Guarda
Além da Terra de Ninguém
“Isso não pode estar acontecendo!” James rosnou, seu coração batendo descontrolado. Malrik não poderia ser derrotado. Ele estava operando há séculos. Por que tinha que ser nesta guerra em particular, enquanto ele lutava ao seu lado, que o destino decidiu intervir e deixá-lo cair? James não conseguia entender a mudança nos eventos. Um segundo, eles estavam perto, finalmente dominando os gammas de Obsidian, e então—
Ele ousou olhar para trás, esperando que fosse tudo uma cruel alucinação e não a realidade decidindo arruinar planos cuidadosamente elaborados. Ele tinha sacrificado tudo para ser o braço direito de Malrik. Seu amor, sua família, sua moralidade, apenas para estar do lado que perde.
“Pare de olhar para trás!” Felícia rosnou, puxando-o de volta para o momento justo quando eles alcançaram um bosque de árvores. “Continue correndo. Eles não podem pôr as mãos em nós. Crie a maior distância possível para que eles não possam nos rastrear.”
A primeira pergunta que surgiu em sua mente foi, “E depois o quê?” Ele olhou à frente, para a terra logo após a fronteira que estavam atravessando. Será que eles entrariam em Silverpine novamente e se tornariam fugitivos? Será que iriam fugir da captura pelo resto de suas vidas arruinadas? E o luxo e poder que lhe tinham prometido, as prostitutas que lhe deviam, o portal para os outros mundos ao qual ele havia sido exposto, a dominação dos outros mundos que ele foi informado que lideraria? Os outros reinos que exploraria e possuiria?
Ele balançou a cabeça, como se pudesse sacudir a verdade sobre o que seu destino havia se tornado. Mas a verdade não estava indo embora. Ela o encarava bem na cara e ria de si.
“James!” A voz de Felícia cortou seu espiral. Ela tinha parado de correr, seu peito arfando, suor e sangue se misturando na pele. “Tire sua cabeça da sua bunda. Precisamos de um plano.”
“Um plano?” Ele riu. Amargo. Afiado. “Que plano? Malrik está morto. A compulsão se quebrou. Cada lobo que marcamos está livre e todos eles conhecem nossos rostos.” Ele gesticulou furiosamente em direção à Alvorada. “Estamos ferrados, Felícia. Completamente, totalmente ferrados.”
“Não estamos ferrados se chegarmos a Silverpine primeiro.” Seus olhos eram duros, calculadores. Já ultrapassando a perda, já tentando salvar algo dos destroços. “Chegamos ao palácio. Garantimos os recursos que pudermos. Os cofres, os arsenais de armas, os—”
“Os o quê?” James a interrompeu. “O império que não existe mais? Os lobos que eram leais apenas por causa da compulsão? Eles estão livres agora, Felícia. Livres. E eles vão lembrar de cada ordem que demos, de cada punição que aplicamos, de cada—”
Um som o interrompeu.
Passos. Pesados. Vários conjuntos. Vindo da direção de Alvorada.
Ambos ficaram imóveis.
“Mexa-se,” Felícia sussurrou, já recuando mais fundo nas árvores. “Agora.”
Eles correram novamente. Galhos chicoteavam seus rostos, raízes ameaçavam derrubá-los, mas eles não diminuíram a velocidade. Não podiam diminuir a velocidade. Atrás deles, os passos ficavam mais altos. Mais próximos.
Não perseguição. Caça.
O lobo de James avançou, exigindo ser liberado, mas ele o reprimiu. Transformar-se os tornaria mais fáceis de rastrear, mais fáceis de identificar. Eles precisavam permanecer humanos, precisavam—
Uma figura surgiu atrás de uma árvore diretamente em seu caminho.
Eles derraparam para parar.
Era um gamma de Silverpine. Jovem. Talvez vinte e cinco anos. Seu pescoço ainda carregava a marca desbotada da compulsão, a pele ali crua e vermelha onde a magia havia queimado. Ele os olhou com olhos que não continham raiva, nem fúria. Apenas reconhecimento frio e vazio.
“Vocês,” ele disse calmamente. “Vocês estavam lá. Quando Malrik me marcou. Vocês me seguraram.”
James deu um passo para trás. “Ouça, nós estávamos apenas seguindo ordens. Não tínhamos escolha. Malrik controlava—”
“Mentiroso.” A palavra era plana. Final. “Eu me lembro. Eu me lembro de tudo. Cada ordem que você deu. Cada vez que você sorria enquanto fazia isso.” As mãos da gamma se fecharam em punhos. “Eu me lembro de que você gostou.”
Mais figuras emergiram das árvores. Cinco. Dez. Vinte. Todos de Silverpine. Todos libertados. Todos com as mesmas marcas cruas no pescoço.
Todos olhando para James e Felícia com o mesmo reconhecimento frio.
A mão de Felícia foi para sua arma, mas um dos lobos—uma fêmea mais velha, com o rosto marcado—balançou a cabeça lentamente.
“Não.” A voz dela era quase gentil. “Você só vai piorar as coisas.”
A boca de James ficou seca. Seu coração, que vinha batendo com esforço, agora martelava de puro terror. “Espere. Espere, nós podemos—nós podemos explicar. Podemos consertar isso. Temos informações, sabemos coisas sobre Malrik’s—”
“Não queremos informações,” disse o jovem gamma, dando um passo à frente. Depois outro. O círculo de lobos libertados se apertou. “Queremos justiça.”
Felícia se moveu. Rápido. Desesperado. Sua forma de lobo explodiu e ela avançou para a brecha entre dois lobos, tentando passar, tentando—
Três lobos a atacaram no ar. Ela caiu no chão com força, rosnando e mordendo, mas eles a seguraram. A imobilizaram.
James tentou correr.
Deu três passos antes que suas pernas fossem varridas debaixo dele. Ele caiu de cara no chão, provou sangue e então mãos—tantas mãos—o agarraram, seguraram, forçando-o de joelhos.
O jovem gamma se agachou na frente dele, estudando seu rosto com curiosidade desapegada. “Sabe qual foi a pior parte?” ele perguntou de forma casual. “Não foi a dor da marca. Não foi nem mesmo perder o controle do meu corpo.” Ele se inclinou mais perto. “Foi saber o que eu estava fazendo. Assistir a mim mesmo matar pessoas de quem eu me importava. E não poder parar.”
James abriu a boca. Para se desculpar. Para implorar. Para oferecer algo, qualquer coisa que pudesse fazer isso parar.
O gamma não o deixou falar.
“Eu tinha uma irmã,” ele disse calmamente. “Compulsão me fez matá-la. Me fez arrancar sua garganta enquanto ela implorava para que eu parasse.” Seus olhos nunca deixaram o rosto de James. “Você assistiu isso acontecer. Você riu.”
“Eu não—eu não estava—”
“Você riu.” O gamma se levantou. Olhou para os outros lobos libertados. “O que fazemos com eles?”
A fêmea marcada falou primeiro. “Obsidian vai querer interrogá-los. Eles eram tenentes de Malrik. Eles podem ter informações sobre—”
“Dane-se Obsidian.” Outra voz. Masculina. Áspera com raiva mal contida. “Eles são nossos. Fomos nós os escravizados. Nós decidimos.”
Murmúrios de concordância ondularam pelo grupo.
A bexiga de James se soltou. O calor se espalhou por suas pernas, encharcando suas calças, e ele nem se importou. Não podia se importar. Porque agora entendia, com clareza cristalina, exatamente como isso ia acabar.
Felícia ainda estava lutando, ainda rosnando, se recusando a aceitar o que estava por vir. Mas James já tinha desistido. Já tinha aceitado isso.
Isso era justiça.
E eles haviam merecido cada segundo disso.
O jovem gamma olhou para ele uma última vez. “Alguma última palavra?”
James pensou em todas as coisas que poderia dizer. Desculpas que não significariam nada. Explicações que não mudariam nada. Súplicas que não salvariam nada.
No final, ele não disse nada.
Apenas fechou os olhos.
E esperou que tudo acabasse.
—
“Acorde, droga!” O tapa atingiu seu rosto, quente e ardente enquanto seus olhos se abriram.
Seus olhos vasculharam o espaço, apenas para não ver ninguém além de Felícia. Nenhum gamma de Silverpine, ninguém mais além dela, olhando para ele com nojo tão visceral que poluía o ar do esconderijo deles. Ele nem sequer lembrava quando chegaram ali.
“Se controle, já estamos ferrados o suficiente. Se você fizer xixi nas calças como seu velho, eu vou te deixar aqui para morrer.”
James a encarou.
A única pessoa que ele tinha.
Sua mente trabalhou rápido. Desesperada. Obsidian estaria caçando-os. Os lobos libertados de Silverpine queriam sangue. Não havia para onde correr, ninguém para procurar, nenhum recurso restante para barganhar.
Exceto um.
Felícia era procurada tanto por crimes de guerra quanto por traição.
Felícia era valiosa.
Ele poderia entregá-la. Trocá-la por imunidade. Por leniência. Por uma chance—qualquer chance—de sobrevivência.
O pensamento cristalizou-se em decisão em menos de um segundo.
James avançou.
Seu punho a atingiu no maxilar antes que ela pudesse reagir. A cabeça dela virou para o lado, sangue espirrando dos lábios cortados, e ela caiu pesadamente. Ele estava sobre ela antes que ela pudesse se recuperar, suas mãos envolvendo sua garganta, seu peso a prendendo.
“Sua vadia!” ele gritou em seu rosto, cuspe voando. “Sua vadia patética e traiçoeira!”
Os olhos de Felícia se arregalaram. Choque. Confusão. Então raiva. Ela se debateu debaixo dele, tentando empurrá-lo, suas mãos arranhando seus pulsos. Mas ele era maior. Mais forte. Um homem com a vantagem do peso e o elemento surpresa.
Ele apertou mais forte.
“Você traiu sua alcateia!” Sua voz se quebrou, alta com histeria. “Obsidian era SUA alcateia! Você os traiu por poder e veja onde isso te levou! Veja onde nos levou!” Ele riu. Selvagem. Maníaco. O som de uma mente que finalmente havia se quebrado. “O que vai, volta, Felícia! O que vai—”
O joelho dela subiu, atingindo sua virilha. Não forte o suficiente para fazê-lo soltar, mas suficiente para afrouxar seu aperto. Ela arfou uma respiração, seu rosto roxo, veias saltando na testa.
“James—seu covarde—”
“Covarde?” Ele apertou novamente, observando o rosto dela escurecer. “Eu sou um sobrevivente! Vou te entregar! Vou marchar direto para o território de Obsidian e entregá-la! Contar tudo! Cada ordem que você deu, cada lobo que você marcou, cada—” Sua risada se tornou um soluço. “Eles vão me dar imunidade. Leniência. Eles vão me deixar viver se eu entregar você!”
As lutas de Felícia estavam enfraquecendo. Seus olhos começando a revirar. Suas mãos perdendo força.
James se inclinou mais perto, suas lágrimas pingando no rosto dela. “Sinto muito,” ele sussurrou, e foi sincero. “Sinto muito, mas eu quero viver—”
Algo o agarrou por cima.
Não mãos. Garras. Afiadas e frias e incrivelmente fortes, fechando-se em seus ombros e erguendo-o. Suas mãos foram arrancadas do pescoço de Felícia enquanto ele era puxado para o ar, seus pés deixando o chão, e por um momento tudo o que ele conseguia processar era a estranheza do ângulo, a força impossível necessária para levantar um homem adulto como se ele não pesasse nada.
Ele olhou para cima.
E congelou.
O vampiro que o segurava tinha olhos vermelhos que brilhavam na luz fraca do esconderijo deles. Pele pálida. Cabelo escuro. Traços que James reconheceu mesmo através da névoa de pânico porque ele já os tinha visto antes—em briefings, em relatórios, nos discursos furiosos de Malrik sobre o único Alfa que se recusou a se alinhar.
Hades.
O Alfa da alcateia Obsidian.
“Não,” James sussurrou. “Não, não, não—”
Hades olhou para ele com olhos que não continham calor, nem misericórdia, nem humanidade. Apenas uma avaliação fria. A maneira como um cientista poderia olhar para um inseto particularmente interessante antes de prendê-lo a um quadro.
Então aqueles olhos se voltaram para Felícia, que ainda estava no chão, ofegante e tossindo, uma mão em sua garganta machucada.
A outra mão de Hades—aquela que não segurava James—desceu e agarrou Felícia pela nuca. Levantou-a com a mesma facilidade. Sustentou os dois balançando no ar como crianças pegas fazendo travessuras.
“Encontrei vocês,” Alguém acima disse, alguém montado no Alfa Vampiro. “Vamos voltar.”
A bexiga de James se soltou de verdade desta vez. O calor se espalhou por suas pernas, encharcando suas calças já imundas, e ele nem sequer tinha capacidade de sentir vergonha por isso. Porque agora ele entendia. Entendia com perfeita, cristalina clareza.
O pesadelo não tinha sido uma visão do futuro.
Tinha sido uma prévia.
E a coisa real seria muito pior.