O Demônio Amaldiçoado - Capítulo 793
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793: Mais Do Que Apenas Um Título 793: Mais Do Que Apenas Um Título Logo após a silhueta de Asher se desvanecer nos céus, sem que Rebecca soubesse, outra figura envolta em vermelho escuro estava de pé no topo de outro penhasco, observando a mesma figura desaparecendo no céu.
Ela abaixou o capuz e um rosto exalando graça e beleza cativante foi revelado. Seus olhos rubi estavam fixados na figura dele enquanto ela murmurava com uma expressão indecifrável, “Será que desta vez vai ser diferente…?”
—-
O ermo se estendia infinitamente diante dele, um cemitério de ruínas cinzentas e ossos enegrecidos. O céu, outrora preenchido com brasas de guerra, agora estava assustadoramente silencioso, os distantes grasnados de aves de rapina sendo os únicos sons que acompanhavam seus passos sem destino.
Asher caminhava, suas botas arrastando pelo chão rachado, o solo morto desmoronando sob seus passos como os remanescentes de um passado do qual ele nunca podia escapar.
Um passado que acabara de se repetir.
Sua mente era uma tempestade, pensamentos colidindo uns contra os outros em um maelstrom implacável de traição, raiva e tristeza.
Naída.
Ela era a última pessoa que ele pensou que lhe apunhalaria as costas. Ela era uma das poucas mulheres a quem ele havia dado sua confiança, aquelas que o faziam sentir-se menos monstro e mais homem que ainda tinha um coração.
E no entanto, ela tinha sido a pessoa.
Aquela que arrancou sua confiança com as próprias mãos e a entregou aos seus inimigos.
Seus dedos tiquenervos, uma aura verde escura cintilando ao redor deles enquanto sua raiva ameaçava transbordar.
Ele cerrava os punhos.
Ele já havia estado aqui antes.
O fantasma de Aira ainda assombrava sua alma, sua traição queimada em seu próprio ser. Ele a havia amado. Ele havia sangrado por ela, matado por ela, acreditado no futuro que poderiam ter juntos—apenas para vê-la destruir tudo e virar as costas para ele.
Aquela dor quase o consumiu uma vez.
E ainda assim, apesar de tudo… apesar de tudo o que sofreu, apesar de jurar que nunca se deixaria enganar novamente—
Naída ainda encontrou um jeito de quebrá-lo.
Ele soltou uma risada amarga e lenta, sua voz seca, oca.
“Acho que nunca aprendo mesmo, né?”
O vento uivou em resposta, sussurrando pelo deserto como fantasmas dos mortos.
Mas desta vez… desta vez, não era só sobre ele.
A dor da traição de Aira era uma coisa. Ela destruiu apenas seu coração, sua confiança, sua vida. Mas a traição de Naída?
Ela destruiu seu reino.
Seu povo.
Sua família.
Ela não o traiu somente. Ela traiu Rowena, Isola, Sabina, Silvia… todas as pessoas que ele amava.
Ela entregou a chave que poderia condenar o mundo deles.
Ela se tornou a sombra de Aira, mas de alguma forma—ainda pior.
Aira envenenou seu coração, mas Naída?
Ela fingiu amá-lo, enquanto vendia seu reino para a ruína por trás das costas dele.
E ainda assim, através da raiva, através do ódio ameaçando consumi-lo, havia algo muito mais doloroso correndo em sua alma—
A dúvida.
Por quê?
Por que ela fez isso?
Por que traí-lo deste jeito?
Não era por poder—ela já tinha influência. Não era por recursos—ela tinha mais do que jamais precisaria.
Então por quê?
Era ele a razão?
Ele fez algo? Ele falhou em ver algo? Ele falhou com ela?
Suas mãos tremiam enquanto memórias de seus sorrisos calorosos, da maneira como ela repousava a cabeça contra ele, da maneira como ela sussurrava seu nome com afeto passavam diante dos seus olhos.
Todos os momentos que ele passou naquele belo “lar” ilusório dela.
Tudo aquilo foi uma mentira?
Ele tinha sido tão facilmente enganado novamente?
A ideia era sufocante.
Sua respiração tornou-se áspera enquanto ele apertava o crânio, lutando contra a tempestade de emoções girando dentro dele.
E ainda assim, apesar de tudo isso, havia ainda uma diferença em relação ao passado.
Quando Aira o deixou, ele não tinha ninguém, acordando num mundo que não era dele.
Ele estava sozinho. Destruído. Um homem sem nada a perder.
Mas agora… agora ele tinha Rowena, Isola, Sabina, Silvia, e todos que realmente se importavam com ele esperando por ele.
Eles ainda estavam aqui.
Ele não havia perdido tudo.
Ainda não.
Mas se ele deixasse essa dor, essa raiva, essa traição consumi-lo—
Se ele se tornasse o monstro que Naída queria que ele fosse—
Ele também os perderia.
E isso?
Isso era a única coisa que ele não poderia suportar.
Asher exalou forte, seus olhos ardentes fixos no horizonte desolado.
A dor ainda estava lá. A raiva ainda fervia em seu sangue. A traição ainda latejava dentro dele como uma ferida não curada.
Mas desta vez, ele não deixaria isso definir quem ele era.
Ele cometeu esse erro uma vez.
Nunca mais.
Nunca mais porra.
Com uma luz determinada e ainda assim dolorida em seus olhos, ele decidiu voltar para onde Erradicadora e Lori estavam.
—
As luzes tremeluzentes na tenda lançavam sombras alongadas pelo tecido áspero, seu brilho fraco mal alcançando as bordas do espaço confinado. Asher entrou pela abertura, seus olhos pousando sobre a figura imponente em guarda perto da forma em repouso de Lori.
Erradicadora.
Um cadáver vivo revestido com armadura escura e dentada que absorvia a luz em vez de refleti-la. Um espectro silencioso, sempre atento, sempre diligente. Sua presença, apesar de sua natureza sinistra, era estranhamente reconfortante.
Ela imediatamente se aprumou ao vê-lo, a momentânea quietude seguida por uma inclinação profunda e disciplinada.
Mas Asher apenas ergueu uma mão cansada, com a palma para cima, “Você não precisa se curvar diante de mim mais.”
Asher se sentia culpado por fazer a irmã mais velha de Rowena se curvar para ele, especialmente depois de como ele havia errado com Rowena. Mesmo que Erradicadora talvez não tenha uma alma, ele ainda não podia descartar sua verdadeira identidade de sua mente e se sentiu mal pelo que ela se tornou assim.
Ela ainda era sua cunhada.
Erradicadora permaneceu imóvel, sua postura inabalável.
Asher exalou, esfregando a têmpora, “Talvez seja melhor você saber—eu não sou mais um rei. Não só porque meu reino se foi, mas porque Rowena me baniu. E com razão. Alguém como eu nunca mereceu ser rei.”
Sua voz não carregava raiva, nem ressentimento. Apenas um vazio.
Erradicadora, como sempre, permaneceu em silêncio como se o estudasse.
Então, após uma pausa, ela perguntou com uma voz estoica e medida, “Como devo me dirigir a você daqui para frente?”
Um riso suave escapou dos lábios de Asher, o som seco e quase amargo. De todas as coisas que ele acabava de dizer, era isso que ela pensava em perguntar? Claro… ela provavelmente não se importaria com isso.
“Apenas me chame de Asher. Não me importo se você é uma morta-viva. Você ainda é família para mim agora que sei quem você é.”
Erradicadora deu um aceno lento e deliberado.
Havia algo desconcertante e ainda assim estranhamente reconfortante em sua presença. Sabendo que a irmã mais velha desconhecida de Rowena havia observado ele por décadas em silêncio.
Ele voltou sua atenção para Lori, sua expressão escurecendo. Sua respiração era fraca, sua presença usualmente ardente reduzida a uma brasa oscilante. Gotas de suor cobriam sua cabeça serpentina, sua forma anormalmente imóvel.
Asher apertou a mandíbula, “Ela está se recuperando devagar demais. Com suas poderosas habilidades regenerativas, ela já deveria estar acordada. Quando ela vai ficar bem?”
Erradicadora lançou um breve olhar para Lori antes de responder, “A corrupção de seu circuito de mana é severa. Não acredito que ela consiga se recuperar totalmente sozinha.”
Os dedos de Asher se fecharam em punhos, a frustração apertando seu peito, “Não, ela tem que se recuperar. Você disse que seu mestre ajudou a curar a mãe dela, certo? Então ele pode salvar Lori também.”
O olhar de Erradicadora pousou nele por alguns segundos antes dela finalmente dizer, “Não sei se meu mestre ajudará, mas pedirei a ele por você.”
Asher soltou um suspiro de alívio, embora fosse breve. Ainda havia muitas incertezas.
“Obrigado, Erradi—” Ele se interrompeu no meio da frase, seus olhos estreitando levemente enquanto a estudava.
“Parece estranho chamá-la de Erradicadora.”
Ela permaneceu imóvel, sem oferecer protesto.
“Qual é o seu nome verdadeiro?”
Ela piscou uma vez, e então disse simplesmente, “Erradicadora é meu nome. É o único nome que me foi concedido.”
Asher riu suavemente, balançando a cabeça. “Heh, não acredito que seu mestre não lhe deu um nome melhor. Alguém tão bonita e leal como você merece mais do que apenas um título.”
“Não é necessário,” ela disse com o mesmo tom equilibrado. “Um nome não passa de um meio para endereçar alguém.”
Asher inclinou a cabeça, sua expressão amolecendo. “Você pode não precisar de um nome, mas eu acho que você é mais do que apenas um título. Você merece ser lembrada. É por isso… vou lhe dar o nome de Valeria. Valeria Drake.”
Pela primeira vez, houve um lampejo quase imperceptível de algo em seu olhar carmesim. Era fugaz, quase imperceptível.
“Valeria…” O nome saiu de sua boca silenciosamente, como se ela estivesse testando seu peso em sua boca pela primeira vez.
“Meowww….”
Um miado satisfeito ecoou na tenda enquanto Crepúsculo, o felino pequeno de duas caudas sempre escondido sob sua capa, ronronou aprovadoramente, esfregando seu pequeno corpo contra o ombro da armadura dela.
Os lábios de Asher se curvaram levemente, “Veja? Até o seu gato aprova.”
Valeria simplesmente acenou com a cabeça, como se fixasse o nome na memória.
Então, tão rapidamente quanto seus olhos carmesins se fixaram nele novamente.
“O que você deseja fazer agora, Asher?”
Ele suspirou, passando a mão pelo seu cabelo úmido de cor de lua, “Devemos ir ao encontro do seu mestre, mas antes, preciso que você faça um recipiente que possa proteger Lori do mana amaldiçoado nas ruínas.”
Valeria acenou sem hesitação, “Entendido.”
Asher lançou novamente um olhar para Lori antes de olhar de volta para Valeria, “Além disso… você não precisa usar esse capacete sufocante quando estivermos sozinhos. Você não tem mais nada a esconder de mim.”
Não houve hesitação enquanto ela estendia a mão, seus dedos enluvados desfazendo as travas do capacete.
À medida que a armadura escura se desprendia, cabelos compridos e negros caíam pelas costas em ondas, salpicados com as mesmas chamas verdes escuras que bruxuleavam fracamente nas extremidades.
E então, seu rosto—uma fusão assustadora de beleza e decomposição, como se tivesse sido esculpida simultaneamente da vida e da morte.
Sua pele cinza e rachada tinha manchas de suavidade fantasmagórica, quase perfeitas, mas anormalmente frias. O brilho carmesim profundo em seus olhos não mais filtrado por um visor, e apesar de ver seu rosto pela segunda vez, ele não pôde deixar de pensar,
Ela era aterrorizante.
Ela era majestosa.
E ela era sangue de Rowena.
Asher exalou suavemente, balançando a cabeça. “Você realmente é irmã dela…”
Valeria inclinou a cabeça levemente. “Você gostaria que eu colocasse de volta?”
Asher balançou a cabeça com um sorriso suave, “Não. Deixe assim. Você fica muito melhor assim.”
Ela simplesmente acenou com a cabeça.
Finalmente, Asher se virou e se abaixou no chão em uma postura meditativa, seus olhos brilhando com um tipo diferente de luz.
“Antes de irmos para as ruínas, preciso fazer uma viagem rápida à Terra… Preciso falar com o meu culto.”
Valeria observou enquanto sua consciência se afastava, seu olhar carmesim inabalável.
A tenda ficou silenciosa, exceto pelo ritmo estável da respiração de Lori e o ronronar ocasional de Crepúsculo, aconchegado contentemente contra a armadura de Valeria.
Pela primeira vez, ela tinha um nome.
Um nome dado a ela por ele.
Valeria.
E embora ela não tenha alma, nem um coração vivo para medir emoções—ela se lembraria disso.