O Demônio Amaldiçoado - Capítulo 781
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781: Abandonado Pelo Rei? 781: Abandonado Pelo Rei? O êxodo dos sobreviventes do Reino Sangueardente os tinha levado até os imponentes portões de obsidiana do Reino Nightshade, suas outrora orgulhosas bandeiras agora rasgadas e esfiapadas, seus corpos exaustos movendo-se como fantasmas pela paisagem desolada.
Rei Lakhur, o governante de Nightshade, tinha concedido a eles asilo, reconhecendo a amarga situação de um reino que outrora se erguia como um farol de poder e agora estava reduzido a nada além de cinzas.
O Reino Nightshade, uma terra envolta em um crepúsculo perpétuo, era uma fortaleza por direito próprio, seu terreno montanhoso e florestas enegrecidas tornando-o um alvo desagradável para as já fatigadas e debilitadas forças Draconianas.
Os caminhos que levavam ao reino eram traiçoeiros, estreitas bordas que mal podiam sustentar o avanço de um exército sem sérias baixas. Os draconianos, recém-saídos de sua conquista, pensariam duas vezes antes de tentar sitiar outro reduto formidável.
Por agora, os sobreviventes do Reino Sangueardente podiam respirar.
Mas respirar não significava viver.
Os sobreviventes se agrupavam em acampamentos improvisados dentro do frio abraço da capital de Nightshade, as sinistras torres de pedra oferecendo pouco consolo aos corações pesados de luto. O ar estava denso de tristeza, a própria atmosfera um eco da perda que não podia ser ignorada.
Aqui, nas sombras de terras desconhecidas, mães seguravam seus filhos, sussurrando preces pelos mortos, pelos que nunca mais veriam. Pais se sentavam em silêncio, seus olhares vazios, tentando dar sentido às ruínas de suas vidas.
Os gritos dos enlutados perfuravam a noite – uma mãe chorando pelo marido que tinha visto pela última vez lutando nas ruas incendiadas de sua outrora gloriosa capital. Uma jovem segurando um amuleto quebrado, sussurrando o nome de seu irmão tombado. Velhos guerreiros olhando para suas mãos trêmulas, mãos que uma vez empunharam espadas a serviço de seu reino, mas que agora não podiam mais salvar aqueles que amavam.
Entre eles, o descontentamento e o medo fermentavam. Os sussurros começaram a espalhar-se como veneno, entrelaçados com uma questão que cresciam mais pesada a cada momento.
“Onde está nosso Rei?”
“Ele nos abandonou?”
“Por que ele não veio por nós?”
“Ele está morto?”
A esperança deles começava a fraturar, desmoronando sob o peso da incerteza.
Asher não havia vindo mesmo após seu reino ter caído.
–
A atmosfera no Castelo Nightshade estava espessa de inquietação. Os outrora orgulhosos nobres do Reino Sangueardente que buscaram refúgio aqui levavam o peso do desespero em seus corações.
Os grandiosos salões, geralmente banhados em um brilho crepuscular fantasmagórico, agora pareciam sombrios, cheios de sussurros dos quebrados, os gritos dos perdidos.
Silvia e Sabina já tinham visto a guerra antes, tinham visto sangue derramado, mas nada poderia prepará-las para o que estavam presenciando agora.
Um grupo de enfermeiras apressava-se pelos portões do castelo, carregando duas figuras inconscientes e ensanguentadas – uma com cabelos negros como corvos emaranhados de sangue, a outra com mechas prateadas que haviam perdido seu brilho.
Ambas estavam inconscientes e gravemente feridas.
Silvia e Sabina que estavam do lado de fora do castelo as viram sendo carregadas para dentro.
Silvia sentiu seu coração afundar no estômago. “N-Não… a rainha está…” sua voz tremia enquanto suas mãos apertavam seu pulso.
Sabina estava mortalmente silenciosa, seus olhos vermelhos afiados fixados na forma esfarrapada da Rowena e Isola sendo carregadas para dentro, suas figuras reais reduzidas a corpos quebrados.
Ela estava guardando rancor de Rowena por não ter lhes contado onde Asher estava. No entanto, vendo-a tão perto da morte depois de tentar protegê-los, fez seu coração se apertar. Ela sempre pareceu tão forte e indomável. E vê-la assim não era uma visão que ela poderia processar. No final, ela perdeu mais.
Merina seguia aqueles que carregavam Rowena e Isola, seu rosto torcido de profunda preocupação, caminhando com passos apressados.
No entanto, ao avistar Sabina e Silvia, voltou-se para elas, seus olhos azuis escuros cheios de preocupação,
“Sua Alteza, por favor, me sigam,” Ela as instou.
Silvia e Sabina não hesitaram e a seguiram para dentro.
O castelo estava efervescente de movimento, servos e guerreiros apressando-se em um pânico organizado.
No centro de tudo estava Kayla, a princesa de Nightshade, esperando para recebê-las, sua expressão carregava de preocupação.
No momento em que viu os corpos golpeados de Rowena e Isola, uma expressão de tristeza e choque genuínos cruzou seu rosto.
“Rápido, levem-nas ao nosso médico real,” Kayla ordenou, sua voz geralmente suave agora firme e inabalável. “Meu pai irá supervisionar pessoalmente a recuperação delas.”
Enquanto os servos e curandeiros corriam para levar as mulheres caídas embora, Kayla virou-se para Merina, sua voz baixando para um tom mais gentil.
“Você devia descansar. Sua rainha e Consorte Isola estão em mãos seguras agora.”
Merina inclinou a cabeça respeitosamente, seus olhos pesados de exaustão, mas cheios de gratidão.
“Obrigada pela sua gentileza, Sua Alteza. Se não fosse por você e a graça de seu pai, nós não teríamos um lugar seguro para onde ir.”
Kayla ofereceu um sorriso suave e triste, balançando a cabeça, “É natural que aliados cuidem uns dos outros. Faremos tudo o que pudermos para ajudar todos que buscaram refúgio aqui.”
Merina suspirou, aliviada mas ainda sobrecarregada, “Obrigada, Sua Alteza. Não vou perturbá-la mais.” Ela se perguntou se devia contar para Sabina e Silvia que a rainha estava grávida. Mas então sentiu que não era seu lugar para dizer e que elas logo saberiam, assim que a rainha se recuperasse.
Com isso, Merina se afastou, seus pensamentos agora correndo para outra preocupação – Ceti.
Ela não a tinha visto desde a queda de seu reino, embora tivesse visto Luna, aquela que estava dormindo dentro de Ceti.
E ainda assim, por que não conseguia se livrar desta inquietude em seu coração? O fato de seu Mestre ainda não ter retornado só mais pesava em seu coração. Ela também se perguntava se ele sabia que a rainha estava grávida de seu filho.
Enquanto Merina desaparecia pelo corredor, Kayla virou-se para Silvia, sua amiga próxima, seus olhos cheios de tristeza.
“Sinto tanto,” disse Kayla suavemente. “Pelo seu povo… pelo seu reino… por tudo. Eu queria ter ajudado mais cedo, mas fomos impedidos pelos Draconianos que tentavam nos impedir de intervir. Tivemos que lutar contra essas criaturas malignas enquanto protegíamos os refugiados que vinham para cá… Sinto como se tivesse falhado com você.”
Silvia olhou para Kayla, seus olhos transbordando de emoção antes de repentinamente puxá-la para um abraço apertado.
“Você não deveria se desculpar,” Silvia sussurrou através de soluços abafados, seu corpo tremendo enquanto enterrava seu rosto no ombro de Kayla, “Silvia é grata… que você estava aqui para nos dar um lugar seguro. Se não fosse por você, não teríamos para onde ir.”
Kayla assentiu suavemente, apertando o abraço em volta de Silvia, deixando-a chorar sua dor.
Ela entendia.
Ela não saberia o que fazer se tivesse perdido seu lar.
Quando Silvia finalmente se afastou, limpando as lágrimas dos olhos, Kayla hesitou antes de falar.
“Mas… onde está seu Rei?” ela perguntou, preocupação pesando em seu tom. “Acho estranho que ele ainda não tenha voltado. Nada poderia ser mais importante do que proteger seu reino. Receio que algo esteja errado.”
“Hmph, você não é a única a pensar isso,” Sabina murmurou, cruzando os braços. Sua expressão era amarga, frustrada.
Ela apertou os punhos, suas unhas cavando em suas palmas, “Ele é o homem que eu escolhi como meu. Então eu sei que ele nunca nos abandonaria, mesmo que nosso povo tenha todos os motivos para acreditar nisso. Eu ainda acredito que nossa rainha está de alguma forma envolvida nisso… mas agora ela está inconsciente, eu nem posso perguntar a ela. E também não tenho como chegar até ele. Que frustração!”
Kayla estudou a determinação feroz de Sabina, um sorriso compreensivo aparecendo.
“Tenho certeza que deve haver um bom motivo,” ela a confortou gentilmente, “Do pouco contato que tive com ele, ele não me pareceu do tipo que abandonaria vocês todos.”
“Claro… Deve haver um bom motivo… Ele é nosso marido afinal…” Silvia murmurou, sua voz rachando, os olhos cheios de esperança desesperada.
—
Esther mal tinha se recuperado de seus ferimentos, mas já estava de pé, supervisionando a recuperação de seu povo.
Seus olhos aguçados vasculhavam o terreno do castelo, notando a inquietação dos sobreviventes, as posturas derrotadas dos ex-guerreiros, as expressões perdidas dos deslocados.
Seu povo precisava dela.
Mas seus olhos se estreitaram ao avistar Rebecca se afastando.
“Rebecca. Espere.”
Rebecca congelou, virando-se com uma expressão de frustração, “O quê? Já fiz o suficiente aqui, como você queria que eu fizesse. Eu preciso ir.”
Esther se aproximou, voz calma, porém firme, “Ir aonde? Se está preocupada com Oberon, pode trazê-lo para cá. Ele estará seguro conosco.”
O olhar de Rebecca vacilou, desviando-se, “Não, é… não é só isso. Tenho outra coisa para fazer.”
Os olhos de Esther se estreitaram,. “Outra coisa? Você está… indo procurá-lo? Acha que pode encontrá-lo quando ele ainda não voltou para nós?”
Rebecca resmungou frustrada, braços cruzando sobre o peito, “Como diabos eu deveria saber? Não me interprete mal — não me importo se ele apodrecer lá fora depois de nos abandonar assim e me enganar. Mas ugh…” ela suspirou, rolando os ombros doloridamente, “Você já deve saber que eu sou a… escrava dele. Eu tenho que procurá-lo mesmo que não queira. Preciso que ele se livre deste vínculo para que eu finalmente possa ser livre dele, hmph!”
Os olhos incisivos de Esther a estudaram de perto, enxergando além das palavras de Rebecca.
“Rebecca,” ela disse, com um tom mais suave desta vez, “Ainda acredito que ele não nos abandonou, mas algo deve ter acontecido com ele. Eu gostaria de ajudar você a encontrá-lo. Mas… eu não posso sair. Meu povo precisa de mim aqui.”
Ela hesitou e acrescentou, “Se você encontrá-lo… diga a ele para voltar. Mesmo que seja tarde demais.”
Rebecca bufou, os olhos se estreitando. “Por que você está tão incomumente preocupada com aquele desprezível rei nosso? Não me diga que você realmente—”
As palavras de Rebecca ficaram suspensas enquanto ela via Esther desviar o olhar de maneira muito pouco característica de alguém tão distante como ela.
“Você deveria ir agora,” disse Esther em voz baixa antes de se virar para caminhar para longe.
O queixo de Rebecca caiu um pouco, seus olhos se arregalando.
“Você não pode estar falando sério,” ela murmurou sob a respiração, a compreensão surgindo, “Aquele bastardo… Ele nem mesmo poupou minha irmã?”
Suas mãos se fecharam em punhos, uma expressão indecifrável passando pelo seu rosto.
Com um último resmungo, ela virou-se sobre os calcanhares e disparou para o céu, deixando o reino para trás.
Ela tinha um rei pervertido para encontrar.