O Demônio Amaldiçoado - Capítulo 202
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202: Você é muito crédulo 202: Você é muito crédulo Com o sol lançando sombras suaves pelos campos do castelo, Merina guiou Isola através dos corredores labirínticos do Castelo de Pedra Demoníaca. Os sussurros abafados dos servos ecoavam levemente à medida que passavam, os olhos curiosos e cautelosos deles fixos na figura encantadora de 6 pés de altura da Princesa Umbralfiend que seguia atrás da criada da consorte real.
Já haviam chegado até eles rumores de que a Princesa Umbralfiend tinha sido destituída de seu título e agora era a Emissária Umbralfiend, trabalhando para a consorte real, para sua surpresa e insatisfação. Por que um inimigo derrotado deveria desfrutar de um status mais alto que o deles?
— Por aqui, Emissária Isola — disse Merina, seu tom educado, pois sabia que esta mulher seria bastante importante para seu Mestre.
Isola seguiu silenciosamente, seus olhos curiosos examinando a cortina escura trabalhada e as estátuas imponentes que adornavam os corredores do castelo.
Ela estava longe de seu lar abissal, em um lugar repleto de visões estranhas e rostos desconhecidos, presa às vontades de um reino que havia aprisionado o seu povo.
Mas não podia deixar de se sentir olhando ao redor como um recém-nascido, tentando se familiarizar com esse ambiente estrangeiro e, ainda assim, interessante.
Finalmente, alcançaram as bordas exteriores do castelo, onde as imponentes paredes de pedra davam lugar a um oásis de tranquilidade: o Pavilhão Crepúsculo.
Aninhado no meio dos vastos jardins internos do castelo, o Pavilhão interno era um espetáculo a se ver.
Moonflowers e jasmins noturnos conferiam uma qualidade etérea ao ar, suas flores azuis e negras cintilando sob a luz suave do sol poente.
Uma grande poça, cheia de água cristalina, situava-se no coração do pavilhão, sua superfície refletindo as primeiras estrelas do céu noturno a partir do teto acima.
A atmosfera geral era de uma serena solidão, fornecendo um contraste marcante à grandeza e agitação do castelo.
— Estas serão suas dependências, Emissária Isola — anunciou Merina, gesticulando em direção ao Pavilhão.
Isola observou a área, seu olhar surpreso detendo-se na poça. Era muito distante das profundidades esmagadoras de seu lar, mas a visão da água trouxe um pequeno senso de familiaridade neste mundo alienígena.
Ela nem esperava um quarto, mas algum canto escuro e sujo para ser colocada. E por isso, ver tudo isso a deixou confusa.
— Confio que seja do seu agrado. Meu Mestre achou que este lugar seria melhor que os quartos usuais — continuou Merina, embora houvesse um vestígio de incerteza em sua voz.
Ela estava bem ciente do ressentimento borbulhando sob a fachada silenciosa de Isola. Mesmo sendo uma Emissária, isso não mudaria o fato de que ela e seu povo estavam acorrentados a este reino.
A resposta de Isola foi um aceno de cabeça firme, enquanto saía de seu devaneio. Suas sobrancelhas se contraíram, perguntando-se o que esse chamado ‘Mestre’ estava tentando alcançar sendo amável. Ele estaria planejando algo sinistro para mais tarde?
Ela não tinha planos de se deixar levar por esse cenário pitoresco, embora por dentro, sentia que talvez as coisas pudessem ter sido piores para ela.
Além disso, entendia a necessidade de diplomacia, pelo bem de seu povo. E assim, decidiu estar preparada para enfrentar quaisquer dificuldades, mesmo no coração do território inimigo.
Merina se dirigiu a ela, — Emissária Is—
Contudo, antes que ela pudesse terminar, Isola levantou a mão, sinalizando para ela parar,
— Não há necessidade de formalidades, Merina — interrompeu Isola, sua voz carregando um indício de autoridade apesar do tom gentil, — Apenas ‘Isola’ será suficiente.
Merina pareceu um pouco surpresa, mas rapidamente acenou com a cabeça e um leve sorriso. — Claro… Isola — gaguejou, o nome simples soando estranho em sua língua.
Isola fez uma pausa, seu olhar atento observando a criada lobisomem.
Ela havia ouvido histórias, contos imersos em lendas sobre a animosidade entre os lobisomens e o Reino Sangueardente. Era uma visão estranha ver um lobisomem ainda vivo em território inimigo, e isso despertou a curiosidade de Isola.
— Pode me dizer algo, Merina… — começou Isola, sua voz cuidadosamente neutra, — Como uma lobisomem como você veio a servir neste reino? Foi ele? Ele te forçou a servi-lo?
Os olhos de Merina se arregalaram levemente, e suas mãos momentaneamente pararam de alisar o tecido.
Após um momento, ela respondeu com uma voz suave, mas firme, — Não, Isola. Sou uma refugiada que foi autorizada a servir a família real pelo falecido Rei Bloodburn. Escolhi servir aqui, pois não posso voltar. E meu Mestre é bondoso e permitiu-me viver uma vida melhor do que eu jamais poderia sonhar — os olhos de Merina aqueceram-se e suas bochechas coraram levemente enquanto ela acrescentava, — Sem ele, eu continuaria a viver sem um propósito próprio.
O murmúrio suave da admissão de Merina pairou no ar do pavilhão como um convidado indesejado, lançando ondas de perplexidade na expressão de Isola.
Ela preparou-se para ouvir pelo menos insinuações de compulsão ou coerção, mas as palavras gentis, quase carinhosas da criada, pintavam um quadro que ela não conseguia compreender.
Não havia sinal de ressentimento, nenhuma raiva oculta – apenas calor genuíno. Era um enigma que parecia desafiar tudo o que ela tinha vindo a acreditar sobre Asher.
Por que ela falaria de alguém como Asher dessa maneira? Estaria ela sob algum tipo de feitiço?
Contudo, ela decidiu sondar mais outro dia. Por enquanto, tinha muito a aprender e entender neste novo ambiente.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo rangido da porta do pavilhão. Uma rajada de vento frio invadiu a sala, trazendo consigo o aroma do frio da noite e o eco mais fraco da voz comandante de Asher.
— Merina, você pode sair agora.
A voz, tão distintamente a de Asher, era como uma pedra jogada em um lago tranquilo, quebrando a calma do momento. Merina, com os olhos arregalados de surpresa, rapidamente fez uma reverência em sinal de reconhecimento.
— S-sim, Mestre — gaguejou, recolhendo os tecidos em seus braços e recuando em direção à porta.
Isola estreitou os olhos quando a alta figura de Asher preencheu a entrada, bloqueando a luz pálida do céu da noite que pintava o pavilhão de silhuetas.
Ela instintivamente endireitou sua postura, seus olhos alertas e cautelosos. Sua repentina aparição era similar à de um predador entrando na toca de sua presa.
A tensão na sala se apertou como uma corda de arco tensionada, mas ela permaneceu resoluta, seu olhar nunca vacilante diante da figura dele.
“O que você quer agora?” Isola perguntou com um olhar duvidoso ao ver Asher andando lentamente em sua direção com um sorriso sutil.
O som da risada de Asher reverberou pelas paredes de pedra do pavilhão, ecoando na quietude do crepúsculo.
Seu rosto estava iluminado pela luz do sol poente atravessando a janela, dando-lhe um brilho quase sobrenatural.
“Não há necessidade de estar em guarda, princesa,” ele disse, um sorriso charmoso brincando em seus lábios, “Eu não vou morder.”
Suas palavras pairaram no ar entre eles, uma provocação disfarçada de garantia.
Isola o observou com ceticismo, seus braços cruzados defensivamente sobre o peito,
“Eu não preciso dos seus quartos luxuosos ou das suas palavras vazias,” ela retrucou, sua voz ecoando com desafio, “Não pense que você pode me enganar novamente. Eu sei que você pretende explorar meu povo para seu próprio benefício.”
Asher não se abalou com a acusação dela, em vez disso, simplesmente diminuiu a distância entre eles, sua figura imponente sobre ela.
Com ele parado tão perto, ela queria dar um passo para trás mas não queria fazer isso caso ele interpretasse como um sinal de fraqueza.
A voz de Asher era calma, quase reconfortante, enquanto ele contrapunha seu ceticismo, “Você deveria ser grata, Isola. Você e seu povo agora têm uma chance de sobreviver em vez de apodrecer na escuridão,” Seus olhos penetraram nos dela com uma intensidade que era difícil desviar o olhar, “Tudo o mais que eu te disse lá no ventre do Kraken era verdade, especialmente a parte em que seu povo não sobreviveria se continuasse lutando. Quanto à parte onde eu te enganei… por que eu revelaria minha identidade enquanto seu povo estava atacando meu reino? Algum inimigo em sã consciência faria isso?”
Isola apertou a boca em uma linha fina, abaixando o olhar diante das palavras dele.
Ela queria argumentar, refutar sua afirmação, mas uma parte dela não podia negar a lógica por trás do argumento dele.
Mesmo assim, ela não conseguia se livrar da amargura no peito que fora deixada pela decepção dele.
Asher observou a expressão de Isola sutilmente mudar, sua desafiança momentaneamente cintilando em incerteza. Sentindo a leve mudança em seu comportamento, ele se encostou na pedra fria da parede e falou, sua voz carregada de sinceridade.
“Eu também quis dizer o que falei no ventre do Kraken, Isola,” ele começou, seu olhar firme nela, “Sua vida… ela vale mais do que apenas um sacrifício,” Asher então acrescentou em sua mente, ‘Valiosa o suficiente para ser uma poderosa peça em minhas mãos.’
O olhar de Isola caiu para o chão, uma súbita confusão invadindo seus olhos. Mas ela rapidamente a mascarou com um olhar endurecido, encontrando seu olhar mais uma vez.
“E por que,” ela perguntou, sua voz mal acima de um sussurro, “por que você acreditaria nisso?”
Asher deu um movimento de cabeça desdenhoso, “Não importa o motivo, mas porque você sobreviveu, você não conseguiu salvar também a vida do seu povo, como eu disse?”
“Isso é…” Isola não pôde exatamente refutar isso também, mesmo que sua vida tivesse sido usada como uma ferramenta para fazer seu povo se render. No entanto, havia uma dúvida persistente sobre se a profecia teria se concretizado se Asher não a tivesse enganado, “Você não poderia ter certeza…” Ela acrescentou suavemente com um olhar distante.
Asher deu um olhar direto enquanto dizia com uma mandíbula tensa, “Sério? Eu não consigo entender como você e seu povo poderiam ser tão cegos por uma profecia… apenas palavras, Isola, que vocês jogariam suas vidas fora por isso. Você também é ingênua demais para permitir que seu próprio povo a transforme em mera oferta sacrificial,” Sua voz continha um indício de sua própria raiva enquanto ele se lembrava de certas pessoas em sua vida anterior.
Os olhos de Isola se inflamaram com suas palavras, “Não desrespeite meu povo e a profecia do meu deus dizendo isso,” ela disse com um tom ofendido, sua expressão contorcida, “É a nossa luz guia, o farol que guiou nossos ancestrais pela escuridão por milênios. Foi a única coisa que motivou meu povo todo esse tempo a sobreviver. E meu povo não estava me forçando a isso. Eles acreditavam em mim, e eu acreditava na profecia.”
Asher simplesmente zombou em resposta, uma risada amarga escapando de seus lábios, “Sua assim chamada profecia teria te levado diretamente à morte. Vocês todos teriam morrido se agarrando a essa profecia se eu não tivesse intervido.”
Ele se desencostou da parede, parando em frente a ela mais uma vez. Seu rosto era sério, seus olhos intensos.
“Deixe isso. Eu não quero mais discutir sobre isso,” ele disse firmemente, “Mas acredite ou não, tenho a intenção de forjar uma aliança com seu povo. Uma aliança forte e amigável. Temos um objetivo em comum – fazer o mundo humano se submeter a nós. Mas se essa aliança vai tomar forma… isso está em suas mãos.”
Suas palavras, audaciosas como eram, mexeram com algo dentro dela, um turbilhão de sentimentos que ela ainda não estava pronta para confrontar. Sua mente era um campo de batalha de emoções conflitantes, um embate entre a raiva que sentia pela decepção de Asher e a inegável verdade em suas palavras.
Dessa vez ela não pôde se impedir de sentir que talvez ele estivesse dizendo a verdade sobre isso.
Caso contrário, coisas piores poderiam ter acontecido a ela e ao seu povo. Ela nem ousava imaginar o que teria acontecido com ela se tivesse acabado como prisioneira nas mãos de outra pessoa.
Ela tinha notado os olhares sujos dos homens neste castelo e no campo de batalha, especialmente dos nobres, que deveriam ter mais decência e modos. Foi a primeira vez que ela se sentiu tão enojada já que durante toda a sua vida, ninguém a olhou daquela forma.
Ainda assim, ela não sabia o motivo de Asher estar tão motivado para derrubar os humanos.
A maioria deles mal pode ter o luxo de se preocupar com suas próprias vidas, quanto mais se preocupar com o futuro de todo o reino.
No entanto, isso a fez sentir-se um pouco aliviada e esperançosa de que seu povo provavelmente não seria tratado duramente.
Enquanto Isola se encontrava perdida em um redemoinho de pensamentos, os olhos de Asher de repente vacilaram e caíram, seu rosto pálido notavelmente.
Antes que ele pudesse sequer perceber o que estava acontecendo, seus joelhos dobraram, seu corpo balançando perigosamente antes de colapsar sobre uma distraída Isola.
“Você!” Pega de surpresa, Isola ofegou, sua estrutura esguia rígida enquanto a cabeça dele caía sobre o ombro liso dela e seu corpo ficava inerte contra o dela.