Ligada a um Inimigo - Capítulo 715
Capítulo 715: Meias-Verdades e Desvio
Ashleigh estava chocada e confusa. Ela não tinha ideia de que Alice havia treinado lobos para interagir diretamente com humanos. Todo esse tempo, ela pensou que tinha sido a responsável por trazer Alice de volta, que sabia exatamente o que estava acontecendo, mas, na verdade, ela não tinha ideia.
“Você e Axel mentiram para mim,” Ashleigh disse baixinho.
Alice balançou a cabeça.
“Não,” ela disse. “Ele te disse que eu voltei ao trabalho, como você sugeriu. E eu voltei, só não da maneira que você sugeriu.”
Ashleigh revirou os olhos.
“Mais meias verdades e desvio de atenção,” ela suspirou.
“Meias verdades e desvio de atenção são tudo o que você sempre esperou de mim,” Alice sorriu. “Tudo que você esteve disposta a acreditar.”
Ashleigh olhou para Alice e viu o sorriso, mas também viu a leve decepção nele. Ela engoliu em seco e acenou.
“Ponto justo,” ela disse suavemente.
Ashleigh respirou fundo e se recostou no sofá. Ela havia aprendido muito mais do que esperava hoje.
“Talvez seja hora de recomeçar,” ela disse suavemente. “Uma folha em branco.”
“Uma folha em branco não existe,” Alice respondeu. “Quando as pessoas dizem que querem uma folha em branco, elas querem ser perdoadas por seus erros. Querem que sejam esquecidos. Mas isso não significa que elas tenham perdoado, esquecido ou mesmo aprendido.”
Ashleigh queria argumentar que Alice tinha recebido uma folha em branco por todos aqueles dispostos a deixá-la entrar em Inverno para estar ao lado de Axel. Mas ela sabia que isso não era verdade. Ninguém a aceitou imediatamente. Axel a havia abandonado exatamente por essa razão. Ambos enfrentaram a possibilidade de nunca estar juntos porque não havia garantia de que Alice algum dia seria aceita por sua família ou matilha.
Ela olhou para as vigas de madeira do teto e suspirou.
“Você está certa,” ela disse. “Uma folha em branco é… um pedido razoável.”
Ela se sentou e virou-se para Alice.
“Não vou te dizer que deixei completamente minhas pré-concepções ou que nunca mais vou assumir que você não tem motivos ocultos.”
“Eu não acreditaria em você, mesmo que dissesse,” Alice sorriu. “Ninguém pode prometer isso.”
Ashleigh acenou com um sorriso.
“Então, o que podemos fazer para ajudar a preencher essa lacuna?” Ashleigh perguntou.
Alice a considerou por um longo tempo.
“Você quer isso?” ela finalmente perguntou. “Construir uma ponte entre nós?”
Ashleigh acenou.
“Não é hora?” ela riu. “Você é a companheira do meu irmão. Você é a mãe dos meus sobrinhos e da minha sobrinha. E, mesmo que nunca concordemos em muitas coisas, eu respeito você.”
Alice engoliu em seco e desviou o olhar.
“Seu amigo é a companheira de um Alfa,” Alice disse. “Isso já é motivo de preocupação.”
Ashleigh se virou para olhar Alice. Ela franziu a testa em surpresa e confusão, tanto pela mudança de assunto quanto pelo conhecimento da conexão de Liam e Maeve.
“Como você sabia disso?” ela perguntou.
Alice sorriu.
“Deixa pra lá,” Ashleigh suspirou.
Ela sentia aquela mesma irritação que sempre sentia quando Alice provava que estava um passo à frente. Mas, ao mesmo tempo, ela sorriu. Se Alice sabia sobre Maeve antes de Ashleigh chegar e ainda a deixou perguntar, isso deve significar que ela estava pelo menos disposta a considerar a ideia.
“Você também é a companheira de um Alfa,” Ashleigh apontou.
“Eu ensino. Não trabalho mais em campo,” Alice sorriu.
“Mas você ainda está encarregada dos seus alunos. Você tem certeza de que sua lealdade a Axel não causa alguma inclinação de um lado ou do outro?” Ashleigh perguntou.
Alice ficou quieta por um momento e então olhou para Ashleigh.
“Meu coração e alma são leais a Axel. Além de nossos filhos, ele é a pessoa mais importante neste planeta para mim,” ela disse. “Eu nunca o machucaria, mas esse é o limite da minha lealdade quando se trata da missão.”
Ashleigh se inclinou para frente.
“O que isso significa?”
“Significa,” Alice disse. “Que Axel e eu já nos encontramos em lados opostos de um debate diplomático ou dois.”
Ashleigh franziu a testa e ofegou quando se lembrou do que Alice disse não muito tempo atrás.
“…E ocasionalmente, eles são solicitados a remover uma ameaça que não pode ser tratada diplomaticamente.”
“Não posso entrar em detalhes. Trabalhei bastante para manter isso em segredo,” Alice continuou. “Mas vamos apenas dizer que havia aqueles que acreditavam que os humanos não precisavam ser protegidos e que alguns dos experimentos que Primavera conduziu não eram tão ruins e, talvez, valeria a pena explorar.”
Os olhos de Ashleigh se arregalaram.
“Alguém quer reiniciar os experimentos humanos?” ela perguntou em um sussurro horrorizado.
Suas memórias retornaram ao momento em que ela viu as crianças no laboratório, à aldeia em Primavera… Não havia nada sobre esses experimentos que tivesse qualquer valor. Nada que valesse o preço.
“Queria,” Alice corrigiu. “Houve uma votação, e o problema foi tratado… discretamente.”
Ashleigh respirou fundo. Ela entendeu o que Alice quis dizer agora. Axel era um líder forte e firme, mas tinha um profundo senso de justiça. Ele teria votado para manter os lobos vivos e julgá-los e sentenciá-los diante da sua matilha.
Mas, mencionar os horrores de Primavera não era tão simples quanto falar de eventos passados como se estivessem concluídos. Essas crianças eram pessoas reais que ainda viviam entre os lobos. A própria Alice foi uma vítima de Primavera.
Também havia o risco de espalhar a informação para outros com mentalidades semelhantes… de inspirá-los.
Lidar com o problema discretamente foi a escolha certa, mesmo que colocasse Alice e Axel em lados opostos da decisão.
Ashleigh respirou fundo e focou no tópico original.
“Maeve ainda não aceitou Liam,” ela disse. “Ela não tem certeza se vai aceitar.”
Alice sorriu.
“Se ela não o quisesse, ela já o teria rejeitado,” ela disse. “Eu sei os motivos pelos quais ela duvida dele. Sua hesitação é sobre decepção e dúvida própria, mais do que qualquer desagrado ou falta de interesse pelo homem em si.”
Ashleigh suspirou. Alice tinha uma resposta para tudo.
Alice lambeu os lábios e olhou para Ashleigh cuidadosamente.
“Se você realmente deseja seguir em frente,” ela começou, “vou ser franca com você.”
Ashleigh se sentou, engoliu em seco e acenou.
“Minhas maiores preocupações sobre Maeve não são com Liam,” Alice disse. “Posso contornar esse problema do meu jeito.”
“Ok,” Ashleigh disse, inclinando-se para frente. “Então, qual é a maior preocupação?”
“Você,” Alice respondeu.
Ela não estava surpresa. Alice já havia insinuado isso fortemente. O problema era que Ashleigh não sabia como aliviar a mente de Alice.
“Você tem um charme natural,” Alice continuou. “E você vê potencial nos outros. Você os ajuda a sentir que podem ser mais. Dessa forma, você se torna especial para eles. Uma amiga, uma salvadora. Alguém a quem eles devem tudo.”
“Eu entendo de onde você está vindo,” Ashleigh disse. “Mas, eu—”
“Por favor,” Alice interrompeu, levantando a mão para silenciar Ashleigh, “não me diga que você nunca tiraria vantagem disso ou pediria qualquer coisa a Maeve que pudesse colocá-la em desacordo com a missão.”
Ashleigh engoliu em seco.
“Nunca é intencional,” Alice disse. “Nem com você, nem com qualquer outra pessoa que empunha essa lealdade e poder.”
Ashleigh suspirou e olhou para outro lado. Não havia nada que ela pudesse fazer. Alice tinha um ponto muito válido, e por mais que Ashleigh quisesse acreditar que não havia risco, ela também sabia mais do que ninguém que a ameaça estava sempre presente.
“Eu entendo,” ela disse suavemente, levantando-se do sofá. “Obrigada por considerar isso. Vou encontrar outra maneira de ajudar Maeve.”
Ashleigh dirigiu-se à porta. Quando ela alcançou a maçaneta, Alice chamou.
“Uma ponte não pode ser construída com mentiras e enganos,” Alice continuou. “De agora em diante, se você me fizer uma pergunta direta, eu responderei honestamente. Se eu não puder te contar, falarei abertamente.”
Ashleigh virou-se com um olhar questionador. Alice não estava olhando para ela, mas para baixo, em direção às suas mãos. Ela estava massageando suas palmas, quase como se estivesse nervosa, algo que Ashleigh nunca tinha testemunhado antes.
“Tudo bem…”
“Uma ponte vai em ambas as direções, Ashleigh,” Alice disse calmamente, “para que isso funcione, ambas precisamos ser honestas. Sem segredos, sem meias verdades, sem desvio de atenção.”
“Eu entendo,” Ashleigh acenou.
Alice olhou para cima, seus olhos se encontraram, e Ashleigh viu uma vulnerabilidade estranha em Alice que parecia errada.
“Eu estou confiando em você, Ashleigh… você entende o quão significativo isso é, não entende?”