Ligada a um Inimigo - Capítulo 655
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Capítulo 655: Uma Maneira Diferente de Comunicar
Myka respirou fundo e assentiu com um sorriso gentil.
Cada relacionamento era diferente.
Embora Myka também tivesse perdido seus pais, suas memórias deles já tinham sido há muito tempo manchadas pelos horrores do último ano que ele passou como experimento científico deles. Peter não tinha lembranças ruins de seus pais. Eles eram boas pessoas que ele ainda sentia falta até hoje.
Isso não era algo que Peter poderia compartilhar com Myka, mas era algo que ele poderia compartilhar com Sadie e, eventualmente, com Estefan.
Peter estava estendendo a mão para Sadie como seus pais o haviam ensinado a fazer através de suas ações.
Ele nunca seria um homem que facilmente diria para sua família ou amigos que os amava. Ele nunca pararia de se sentir tímido ao redor dos outros quando Myka demonstrasse sua afeição. Ele sempre mostraria sua preocupação através de críticas e comentários mordazes.
Mas ele também era o homem que queria curar todos ao seu redor. Ele atravessou os territórios para gritar com Myka porque pensou que algo pudesse ter acontecido com ele. O mesmo homem que arriscou sua vida para manter Sadie em segurança. Que disse a ela para correr e então se preparou para morrer, na esperança de que sua morte lhe desse tempo para escapar.
Peter tinha uma maneira diferente de comunicar seu amor e carinho pelas pessoas. Uma maneira de deixá-las saber o quanto eram importantes para ele.
Quando conversaram sobre a adoção com Sadie e Estefan, eles lhes disseram que nunca pressionariam nenhum dos dois a pensar em Peter e Myka como seus pais.
Peter quis deixar claro que nem ele nem Myka jamais esperariam ser chamados de pai, mas que sempre estariam lá para Sadie e Estefan.
Prometeram que, independentemente do que o futuro trouxesse, eles sempre teriam um lar e uma família com eles.
Mas lá estava ele, dizendo a Sadie que ela era neta de sua mãe.
‘Então o que isso faz de você, Peter, se não o pai dela…’ Myka riu para si mesmo.
Ele colocou o braço ao redor dos ombros de Sadie e a puxou para perto. Sadie se encostou nele, apoiando a cabeça em seu ombro. Ele beijou o topo de sua cabeça e então descansou o queixo ali.
Myka também tinha uma maneira diferente de se comunicar do que Peter, mas era um pouco mais direto.
“Eu sei que Peter e eu dissemos a você e a Estefan que não esperamos que nos vejam como seus pais,” ele sussurrou. “Mas espero que você não se importe que pensamos em você como nossa filha.”
Sadie ficou quieta, mas, após um momento, respirou fundo.
“Como eu poderia aceitar um presente assim se me importasse,” ela sussurrou.
Myka sorriu e fechou os olhos enquanto a apertava e beijava sua cabeça novamente.
“Boa garota,” ele sussurrou de volta.
Após alguns momentos silenciosos, outra voz se juntou à conversa.
“O que você pensa sobre mim?”
Myka olhou por sobre o ombro e viu Estefan parado a poucos passos de distância. O olhar em seu rosto e o modo como evitava encarar Myka deixavam claro que ele se sentia desconfortável e ansioso.
Myka se afastou de Sadie para poder virar-se e encarar Estefan.
“Você gostaria de se sentar conosco, Estefan?” ele perguntou.
Estefan engoliu seco e, com um rápido olhar, assentiu. Ele se moveu ao redor deles, sentando-se na terra ao lado da fogueira, olhando para ela em vez de para eles. Mas mesmo de lado, era evidente o bico em seu rosto.
Sadie e Myka se olharam com um sorriso de entendimento. Myka fez um gesto para que Sadie falasse com Estefan.
“Ei,” Sadie o chamou.
“O quê,” Estefan respondeu, recusando-se a virar e encará-la.
“Por que você está emburrado?” Sadie perguntou, inclinando-se para frente e cutucando o ombro dele.
Estefan balançou os ombros, tentando afastar a mão dela.
“Eu não estou emburrado,” ele resmungou.
“Parece emburrado para mim,” ela disse.
“Eu não estou!” ele resmungou novamente.
“Estefan,” Myka o chamou agora.
Estefan olhou, mas não virou-se para encará-lo.
“O que você quis dizer?” Myka perguntou. “Quando você perguntou o que eu pensava de você?”
Myka tinha certeza de que Estefan havia escutado a conversa entre ele e Sadie. Ele tinha ouvido Myka perguntar a ela se estava tudo bem para ele e Peter pensarem nela como sua filha. Será que Estefan queria saber quem ele era para eles?
Estefan manteve os olhos na fogueira. Ele não respondeu à pergunta de Myka.
“O que é isso?” Estefan perguntou, acenando com a mão em direção ao diário.
“Foi um presente de Peter,” Sadie sorriu. “Um diário que pertencia à mãe dele.”
“Ah,” Estefan disse.
“Na verdade,” Sadie continuou. “Eu acho que originalmente pode ter pertencido à avó dele. No início do diário, há uma caligrafia diferente. E algumas das notas mais recentes mencionam que ‘mãe estava certa’ ao falar sobre algumas das plantas revisitadas.”
Myka sorriu e assentiu.
“Faz sentido,” ele disse. “Nômades tendem a passar diários, mapas, coisas assim para seus filhos quando seguem caminhos separados. A família de Peter vinha de uma longa linhagem de nômades.”
Sadie olhou para o diário em suas mãos e sorriu novamente. Estefan viu essa ação. Ele virou-se e engoliu em seco antes de olhar de volta para Myka.
“E sobre sua família?” Estefan perguntou.
Myka lambeu os lábios e sorriu.
“Sou o primeiro nômade na minha família,” ele disse.
“Então, sem mapas ou diários para passar adiante, hein?” Estefan suspirou, arranhando a bota na terra ao seus pés.
A observação não parecia carregar nenhum sentimento particular de Estefan. Mas algo nela fez Myka sentir que precisava explicar. Como se precisasse garantir a Estefan e Sadie que não era que ele não quisesse compartilhar seu passado com eles, mas que não era uma história feliz.
Myka respirou fundo.
“Eu não tenho nada para dar a nenhum de vocês dos meus pais,” Myka disse com um suspiro pesado. “Mesmo se eu tivesse algo deles, eu não teria guardado. E não gostaria que nenhum de vocês tivesse nada deles ou os conhecessem. Eles eram… Pessoas ruins.”
Um silêncio pesado passou entre todos eles. Estefan foi o primeiro a quebrá-lo.
“Eles machucaram você?” ele perguntou baixinho.
Myka assentiu.
“Como Holden me machucou?” Sadie perguntou, a voz quase em um sussurro.
Myka fechou os olhos e engoliu em seco.
“Eu te disse antes que também estive no laboratório,” ele disse suavemente.
Sadie assentiu.
“Foram meus pais que me levaram e me mantiveram lá,” ele disse.
Os olhos de Sadie se arregalaram, e ela então olhou para outro lado.
“Sinto muito,” ela sussurrou.
Myka abaixou os olhos e deu um sorriso suave. “Está tudo bem.”
“Não, não está,” Estefan disse firmemente.
Myka ergueu os olhos para o garoto sentado à sua frente. Estefan olhou de volta para ele com uma expressão séria e firme.
“Não está tudo bem,” Estefan repetiu. “Pais deveriam amar e proteger seus filhos. Sempre.”
Myka engoliu em seco. Ele sentiu um peso no estômago.
“Como meu pai fez no Recife, minha mãe… quando ela nos tirou de lá,” Estefan continuou. “E minha irmã…”
Sua voz falhou ao mencionar sua irmã. Estefan desviou o olhar, mas continuou a falar.
“Não está tudo bem o que seus pais fizeram com você,” ele disse. “Família deveria proteger você, assim como você e Peter protegeram Sadie.”
O peso no estômago de Myka estava crescendo para seu peito. Ele não sabia o que era ou como se livrar disso. Mas sabia que estava relacionado a Estefan e ao olhar sério em seus olhos.
“Estefan…” Myka sussurrou. Ele engoliu em seco, tentando pensar no que poderia dizer para acalmar a mente de Estefan. “Eu só quis dizer… que tudo bem porque Alice me salvou… ela me tirou de lá, e no final ficou tudo bem.”
“Claro que ela salvou,” Estefan respondeu com um aceno. Então, após um momento, ele acrescentou: “Eu também teria feito isso.”
Estefan olhou para o livro que Peter tinha dado a Sadie, depois para Sadie e Myka.
“Eu protegeria todos vocês,” ele disse suavemente.
Estefan encontrou os olhos de Myka por apenas um momento antes de virar novamente para a fogueira sem dizer mais nada.
‘Entendo…’ Myka pensou consigo mesmo. O peso no estômago e peito, o olhar sério nos olhos de Estefan… agora faziam sentido. ‘Então, é assim que você se comunica….’
Myka olhou para suas mãos e sorriu. Ele desejava que Peter pudesse estar ali para aquele momento.
Levaria tempo para conquistar um lugar no coração de Estefan. Mas ao menos Myka sabia agora que havia espaço para eles nele.