Escravo das Sombras - Capítulo 157
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157: Vento de Mudança 157: Vento de Mudança Depois daquele dia, as coisas se moveram com uma velocidade que deixou Sunny desorientado. Era como se estivesse sendo puxado para frente por uma correnteza esmagadora, incapaz de desacelerar ou mudar de direção. Antes que ele pudesse reagir a uma mudança, outra aconteceria, fazendo-o sentir que estava perdendo o controle. Tudo estava acontecendo tão rápido que ele achava difícil se ajustar.
Era difícil não temer que, finalmente, ele seria simplesmente deixado para trás.
Depois daquela primeira caça em que a Nephis decidiu dar a maior parte dos despojos, ela os liderou em várias outras. Nem todas essas caças correram tão bem, mas eles conseguiram retornar vitoriosos, se um pouco abatidos. Toda vez, ela pagava a Effie sua parte da carne, pegava uma pequena quantidade para eles consumirem, e dava o resto para as pessoas do assentamento externo de graça.
Devido ao quão pequena era a própria parte deles, o grupo se viu forçado a caçar a cada dois dias ao invés de uma ou duas vezes por mês. Sunny realmente não entendia o porquê de estarem assumindo todo esse risco desnecessário.
Claro, ele mesmo não estava exposto a muitos riscos. Exceto por um par de batalhas curtas em que Neph e Caster acabaram precisando de algum reforço, ele passou a maior parte do seu tempo com Effie, servindo como seu batedor e lentamente aprendendo os pormenores da Cidade Escura com ela.
Com o poço de conhecimento que a caçadora indisciplinada possuía e sua sombra ágil, o grupo raramente encontrava algo para o qual não estivessem preparados. Isso lhes deu uma vantagem incrível sobre todos os outros grupos de caça do assentamento externo, e até mesmo alguns dos próprios de Gunlaug.
Logo, seu histórico impecável e intenso rendeu reputação e renome à coorte. Eles não eram mais vistos como recém-chegados. Ao contrário, as pessoas os consideravam nada menos do que os caçadores mais fortes da favela. Muitos até acreditavam que a Estrela Mutável e seu povo de maneira alguma eram inferiores aos Caçadores do Castelo Brilhante.
A própria Nephis era conhecida por ser uma combatente temível desde o seu dramático duelo com Andel. Effie tinha a reputação de ser uma das melhores do assentamento externo há muito tempo. O belo e capaz Caster rapidamente conquistou respeito e admiração graças à sua personalidade amigável, porte nobre e habilidade.
Os três eram considerados o núcleo do grupo, com Cassie e Sunny existindo em algum lugar na periferia. As pessoas amavam a Cassie porque Nephis havia confiado a ela a responsabilidade de distribuir a carne grátis… e também porque era praticamente impossível não amar esta doce, belíssima e trágica garota. Para a maior parte dos habitantes da favela, ela era o rosto acolhedor da coorte.
Sunny, por outro lado… ninguém realmente dava muita atenção a ele. Sem feitos valentes de matar monstros da Cidade Escura no seu currículo, a maioria o considerava apenas um membro de apoio do grupo. Inconsequente na melhor das hipóteses… um caso de caridade na pior.
Se eles sequer lembravam de sua existência.
Sunny estava simultaneamente feliz por viver na obscuridade e secretamente enfurecido por essa falta de reconhecimento. Era bom que ninguém suspeitasse do quão poderoso ele realmente era. E ainda assim… ao assistir todo mundo se curvando na presença de Caster enquanto ignoravam completamente a sua, fazia Sunny querer matar algo. Ou alguém.
Especialmente porque, devido à composição tática da coorte, Nephis passava a maior parte do tempo com o bonito Legado. Eles pareciam trabalhar especialmente bem juntos.
Quando essa frustração ameaçou sobrecarregá-lo, Sunny se afastava, encontrava um canto tranquilo e treinava seus katas até que cada músculo do seu corpo doesse. Geralmente, o som do Fragmento da Meia Noite cortando o ar era suficiente para acalmá-lo. Ele treinava sua esgrima dia após dia, encontrando um estranho conforto nisso. Pelo menos isso era algo que ele podia controlar.
…Claro, Sunny nunca estava totalmente relaxado. Na verdade, a cada dia, ele ficava mais e mais ansioso.
Porque outras coisas também estavam mudando.
Depois de cada caçada, a Estrela Mutável fornecia os habitantes da favela com comida grátis. No começo, eles a tratavam com desconfiança, depois com gratidão, e finalmente com algo parecido com reverência. A luz estranha que Sunny havia notado em seus olhos depois da primeira vez estava lentamente ficando mais e mais brilhante.
Algumas pessoas até começaram a chamá-la de “Santa Nephis” em tom de brincadeira, como se ela fosse algum tipo de anjo. No entanto, ele sentiu que essas palavras estranhamente continham humor cada vez menor a cada dia.
Isso era realmente muito assustador, para não mencionar perigoso. Quanto mais as pessoas olhavam para Neph como se ela fosse a sua salvadora pessoal, mais ele temia qual seria a reação drástica de Gunlaug. Se a história mostrou algo, é que os reis nunca pegam leve com messias intrometidos.
E durante tudo isso, a mesma pergunta continuou a atormentar Sunny.
Isso tudo era um acidente, ou Nephis tinha feito isso de propósito?
Com o passar do tempo, cada vez mais pessoas aleatórias se juntaram ao seu grupo. Eles não eram caçadores, apenas jovens aflitos do assentamento externo que queriam ajudar. Eles cuidavam das peles de monstro que a coorte trazia das caçadas, mantinham várias ferramentas e equipamentos que precisavam ser usados, auxiliavam Cassie a distribuir a comida, e faziam outros tipos de coisas pequenas mas úteis.
Em breve, a pousada improvisada estava cheia deles. Sunny nem mesmo conhecia todos os seus nomes. Parecia que a cada dia, alguém novo apareceria, agindo como se sempre tivesse feito parte do grupo. O que é pior, nem todos pareciam saber quem ele era, também. Mais de uma vez, alguém sorriu para ele e perguntou em um tom amigável:
“Você é novo?”
…Claro, esses bastardos nunca diziam a mesma coisa para Caster.
Sunny se sentia como se estivesse lentamente se tornando um estranho em sua própria casa. A sensação era bastante desagradável, sem mencionar que se encaixava perfeitamente em todas as suas inseguranças.
Pior ainda, essas novas pessoas realmente o deixavam desconfortável. Ele não tinha certeza se elas eram ajudantes da Estrela Mutável, ou se eram seus seguidores.
Eles eram leais, ou… devotos?
…Uma noite, depois de algumas semanas disso, ele foi subitamente acordado por Cassie puxando sua manga. A menina cega estava sussurrando:
“Sunny! Acorde!”
Um momento depois, ele já estava de pé, pronto para convocar o Fragmento da Meia-noite. Uma luz vinda do outro quarto lhe dizia que Nephis também estava acordada.
‘Gunlaug? Alguém nos traiu?’
“O que está errado?”
Cassie cobriu a vela que estava segurando em sua mão e respondeu com uma voz preocupada:
“Algo… algo está vindo da estrada. Eu sonhei com isso.”
‘Uma Criatura do Pesadelo…’
Sabendo o que precisava ser feito, Sunny simplesmente concordou, apertou o ombro dela para tranquilizá-la, e foi se encontrar com Nephis.
Como a pousada deles ficava na borda da favela, bem em frente à entrada da antiga estrada, eles não tinham outra escolha senão lutar.
Naquela noite, os três – Estrela Mutável, Sunny e Caster – lutaram contra um diabo que havia subido a colina e o afastaram antes que pudesse alcançar o assentamento externo.
Quando a manhã chegou, pessoas aterrorizadas saíram de seus casebres em pernas trêmulas e viram as marcas horríveis deixadas nas pedras brancas pelas garras da fera, bem como poças de sangue, tanto humano quanto de monstro, evaporando no frio da manhã.
Eles também viram a Estrela Mutável se apoiando cansada na sua espada de prata.
Sunny, que estava sentado com as costas encostadas na parede da pousada e respirando pesadamente, também estava olhando para ela.
…Quando ele estava descrevendo para Nephis por que Gunlaug nunca poderia ser derrotado, ele havia dito a ela que cada aspecto da vida aqui estava sob seu controle: comida, segurança, esperança, medo, até mesmo o poder em si.
Agora, a Estrela Mutável havia dado a estas pessoas comida. Ao proteger o assentamento externo, ela lhes deu segurança. Ela até lhes deu esperança.
Havia também o medo que os habitantes do castelo sentiam depois que Nephis havia facilmente decapitado um dos seus Desbravadores.
Tudo o que restava era poder.
Finalmente, a pergunta que pesava muito em sua mente tinha uma resposta.
Não, nada disso era uma coincidência. Tudo o que havia acontecido, desde a escolha do prédio mais externo da favela como base deles até a insistência em dar a comida de graça, fazia parte do estranho mas metódico plano da Estrela Mutável. Ela sabia o que estava fazendo o tempo todo.
Mas por que ela estava fazendo tudo isso? Qual era o seu objetivo final?
Inquieto, Sunny olhou para Nephis e se perguntou sobre o futuro.