Enredado ao Luar: Inalterado - Capítulo 325
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325: Lisa: Missão de Compras (I) 325: Lisa: Missão de Compras (I) LISA
A matilha só tem alguns carros agora. Nada parecido com os SUVs que eles usavam na Matilha Westwood; estes são sedãs mais antigos e um par de caminhões.
O Grande Sábio senta-se em deleite na frente, enquanto Elverly cruza os braços e olha com carranca pela janela do seu lado do banco traseiro. Kellan parece levemente irritado por eu ter cedido o lugar ao lado do motorista ao Grande Sábio, mas talvez seja só coisa da minha cabeça.
Apesar de estar relativamente ok em me dar espaço, ele também é pegajoso. Eu sei, eu sei, estou me contradizendo. É só como as coisas parecem agora.
O suave ronco do carro me embala num estado sonolento enquanto observo a janela. É quase hipnótico, o modo como a paisagem desfila.
“Como é que este auto-mó-bil funciona sem cavalos?” o Grande Sábio pergunta pelo que parece ser a centésima vez. Seu entusiasmo pela tecnologia é cativante, ainda que um pouco cansativo.
Kellan, para seu crédito, responde pacientemente. “É um automóvel, senhor. E funciona com um motor de combustão interna.”
Abafando um bocejo, minhas pálpebras pesam. As constantes perguntas e explicações desvanecem em ruído de fundo enquanto deixo minha mente vaguear.
“Por que continuamos passando por essas cidades?” A voz azeda de Elverly corta minha névoa. “Nenhuma delas é adequada?”
Kellan olha pelo retrovisor. “Essas não são cidades, senhora. São pequenas vilas. Estamos evitando qualquer coisa muito próxima do refúgio para manter nosso disfarce.”
O velho gnomo resmunga. “Humanos e seu excesso. Chamando estas monstruosidades espalhafatosas de ‘vilas’.”
Eu viro no meu assento, encontrando o olhar desaprovador de Elverly. “Na verdade, estas são bem pequenas comparadas com cidades de verdade. Nas grandes cidades humanas, os edifícios tocam o céu.”
“Humanos não são tão capazes.”
“São maravilhas da engenharia,” eu explico, animando-me com o assunto. “Algumas têm mais de cem andares, com fundações que vão fundo na terra.”
O Grande Sábio gira no seu assento para olhar para mim, os olhos brilhando. “Fascinante! E como os humanos percorrem estas metrópoles verticais?”
“Elevadores,” eu digo, e me corrijo. “Hum, são como… salas móveis verticais? Elas transportam pessoas para cima e para baixo.”
Elverly balança a cabeça. “Escadas funcionam muito bem.”
Eu dou de ombros. “Cem andares de escadas é bastante coisa. Há elevadores por toda parte. Vocês entenderiam se os vissem. Temos que construir alto por causa da população das cidades; não há mais espaço para abrigá-los. Milhões de pessoas não podem compartilhar casas de um ou dois andares numa área tão pequena.”
“Milhões?” A voz de Elverly é quase um sussurro, seu rosto pálido. “Em uma cidade?”
Deve parecer opressivo para alguém que nunca o experienciou. “É, a cidade de Nova York tem mais de oito milhões de pessoas.”
“Oito milhões de almas, todas em um só lugar,” o Grande Sábio reflete. “O potencial mágico de tal aglomeração confunde a mente.”
Elverly funga. “Parece um pesadelo. Como eles não se asfixiam uns aos outros?”
Não posso evitar de rir. “Não é tão ruim. Há parques e espaços abertos. E a cidade tem seu próprio tipo de magia, sabe? A energia, a diversidade, o movimento constante…”
“Você parece gostar,” Kellan observa, seus olhos encontrando os meus no retrovisor.
“É, eu acho que gosto. Quer dizer, eu sempre quis que fosse meu lar. Virar uma garota da cidade assim.”
O Grande Sábio acena sabiamente. “Lar é onde o coração encontra paz, independentemente do que o rodeia. Há aqueles que prosperam numa atmosfera agitada.”
“Não é só a atmosfera. Conveniência, também. Ah, e a comida.”
“Comida?”
“Você pode conseguir o que quiser, a qualquer hora do dia ou da noite. Indiano, Chinês, Italiano, Etíope… E a melhor pizza do mundo, se você for para Nova York.”
“Pizza?” o Grande Sábio pergunta.
“Pô, vocês não viveram até terem comido pizza.” Eu sorrio. “É tipo… um pão achatado com molho de tomate e queijo derretido e coberturas. Parece simples, mas quando é feito direito, é divino.”
Kellan ri. “Você está me dando fome.”
“Desculpa,” eu digo, sem sentir de fato. “Mas sério, a comida na cidade é incrível. E então tem os museus, os teatros, a música…”
Eu me calo, percebendo que estou me empolgando. Mas os gnomos estão prestando atenção intensamente. O Grande Sábio, claro, está sempre interessado no que os humanos fazem, mas a Elverly não.
“Parece… vibrante,” Elverly admite a contragosto. “Embora eu ainda não consiga compreender tantas pessoas em um só lugar.”
O Grande Sábio bate palmas. “Maravilhoso! Devemos achar uma maneira de visitar uma dessas metrópoles humanas algum dia. Pense nas maravilhas tecnológicas que poderíamos estudar!”
Kellan tosse. “Isso pode ser um pouco complicado, senhor. Muitas delas foram atacadas.”
“Ah, sim.” Ele acaricia a barba com um suspiro. “O mundo mudou. Uma pena.”
Estes fatos são difíceis de conceber quando se pode olhar pela janela e ver o que parece ser vilas rurais intocadas à beira da autoestrada. Como se tudo tivesse acontecido em outro mundo.
Kellan olha novamente para o Grande Sábio. “Talvez possamos trazer um pouco dessa magia da cidade para o refúgio.”
Eu me animo com isso. “Ah! Nós poderíamos totalmente ter uma noite de pizza. Eu faço uma pizza caseira incrível.”
Elverly se vira para mim com uma carranca. “Você cozinha?”
“Quando preciso,” eu dou de ombros. “Não é tão boa quanto a pizza de Nova York, mas não é ruim.”
A conversa desvia para outros assuntos enquanto continuamos nossa viagem, mas eu me vejo ainda pensando em casa. Não em cidades chiques, mas na vida que deixei para trás. Meus pais, meus amigos, a faculdade…
Meu coração se aperta ao pensar na Mãe e no Pai. Eles provavelmente acham que estou morta. Eu quero vê-los, ouvir suas vozes novamente, sentir os braços da Mãe ao meu redor.
A voz do Grande Sábio interrompe meus devaneios. “Você está bem, minha querida?”
Eu pisquei, percebendo que estive olhando pela janela, perdida em pensamentos. “Hm? Ah, sim. Estou bem.”
Mas eu não estou, não realmente. Forço um sorriso, esperando que não pareça tão frágil quanto eu me sinto. A última coisa que quero é preocupar alguém.
“Estamos a cerca de dez milhas da cidade,” Kellan anuncia, seus olhos passando pelos meus no retrovisor.
Voltando-me para a janela, aproveito o movimento para discretamente secar os olhos.