Enredado ao Luar: Inalterado - Capítulo 202
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202: Lucas: Conselho (I) 202: Lucas: Conselho (I) Alfas discutindo com alfas não é nada além de perda de tempo.
Os resíduos do café gelado grudam na minha garganta enquanto coloco minha caneca na mesa com um baque. Droga, estou exausto. Minhas pálpebras parecem lixa contra meus olhos, e esfrego-os com a esperança inútil de aliviar o desconforto.
Quarenta e oito horas.
Dois malditos dias desde que vi o interior das minhas pálpebras por mais que um piscar de olhos.
Não tive a chance de trocar uma palavra sequer com Ava. Nem mesmo uma mensagem.
É impossível mantê-la em segredo para sempre, mas sem saber até que ponto posso confiar nesses outros alfas — trazê-la para este caos é um risco que me recuso a correr.
A última coisa que preciso é que o Conselho retome as negociações e exija que Ava seja devolvida ao Alfa Blackwood para evitar mais ataques de vampiros.
As preocupações de Jerico criaram raízes no meu ventre, cultivando uma floresta inteira de dúvidas e inquietações. Ele está certo. Ava não é razão suficiente para romper a paz que mantivemos por tanto tempo. Muito mais que qualquer uma de nossas vidas.
Tem algo mais ali. Algo que eu estava cego para ver. E precisamos agir.
Agora. Antes que outras tragédias aconteçam.
O cheiro de inquietação contamina o ar, me deixando com os dentes em alerta.
Lanço um olhar pela mesa de conferência, encontrando o olhar firme de Clayton. Ele tem sido o aliado do meu lado, me apoiando firmemente nas minhas preocupações.
Até mesmo o Alfa Xavier, nosso aliado mais forte no Conselho, não está convencido de que há motivo de preocupação para todo o território. Ah, ele acredita que há perigo — na porta da minha casa.
Ele pensa que é tão simples quanto reforçar nossas fronteiras em Blackwood e Westwood. Como enviar algumas tropas de lutadores para aumentar nossos números.
Mas tudo dentro de mim, dentro do meu lobo, grita que ele está errado.
Está vindo uma guerra para todos nós, e qualquer um que não estiver preparado será massacrado sem chance de revidar. Já testemunhamos quão facilmente eles podem invadir nossas terras e lutar quando estamos vulneráveis, pegos com as malditas calças arriadas.
Aqueles sanguessugas atravessando o território de Westwood, audaciosos como latão, são apenas o começo. Um primeiro ataque em uma guerra que pode nos trazer todos de joelhos.
Mas convencer o resto desses velhos teimosos? É como tocar gatos. Gatos desconfiados, orgulhosos e territoriais, que preferem enterrar suas cabeças na areia a reconhecer o perigo à espreita em nossos pescoços.
Xavier pigarreia, sua barítono ressonante cortando as conversas paralelas sussurradas.
“Vamos retomar essa reunião. Já discutimos o suficiente. Alfa Westwood, reitere sua solicitação e votaremos mais uma vez.”
Levanto-me, a cadeira rangendo pelo chão. Todos os olhares se voltam para mim.
Esse impasse precisa acabar.
“A invasão na terra de Westwood não é um incidente isolado. É calculado. Deliberado. Um teste de nossas defesas, de nossa capacidade de reação. São os primeiros passos da guerra. Todos nós corremos risco. Westwood é apenas o primeiro passo para qualquer objetivo que eles busquem.”
Um escárnio vindo da ponta da mesa — um partido neutro no Alfa Ezequiel Garra dos Pinheiros Sussurrantes. Ele era amigo tanto da matilha Pratargenta de Xavier quanto daquele bastardo Blackwood, com seu território entre ambos.
Ele é mais velho, completamente grisalho, com rugas e cicatrizes por todo o rosto. Mesmo assim, é um testemunho de seu poder que nenhum desafio de alfa o tenha destronado em todos esses anos.
Ele está mostrando suas verdadeiras cores ultimamente, apesar de ter ajudado Xavier durante meu ataque ao Blackwood. Claro, naquela época só tínhamos pedido para ele desviar o olhar. Aqui estamos pedindo ação.
Neutralidade sempre soa moral. Esperar para ouvir ambos os lados da história, recusar a tomar partido em uma batalha pessoal…
Mas neutralidade também é covardia.
Ele está esperando para ver o que mais beneficia sua matilha, ao invés de agir no melhor interesse de todos.
“Você está paranóico, Westwood,” ele diz preguiçosamente. “Alguns Não Registrados desobedecem e de repente é Armagedom? Lidamos com eles por séculos. Não é nada novo. Eles se enclausuraram em seus santuários há tanto tempo que estou surpreso por não terem todos virado pó. Com nossos números e força, poderíamos esmagá-los num instante.”
Aperto meus punhos, contendo o rosnado que cresce no meu peito. Tolos de visão curta.
“Desta vez é diferente,” Clayton intervém suavemente. “Eles podem se mover sem detecção, aparecer e desaparecer à vontade. Estão atacando sem aviso, e não temos como revidar. Não importa quão fortes sejamos, é como lutar contra fantasmas.”
O mesmo argumento que temos feito por dois malditos dias, caindo em ouvidos surdos.
“Seríamos sábios em não subestimar a ameaça,” concordo, entre dentes cerrados.
“Vocês estão apenas se repetindo. Alfa Westwood, qual é a sua proposta?” Fala a Alfa Cordilheira Crepúsculo, uma mulher mais velha de olhar perspicaz. Ela é tão velha que ninguém lembra seu nome de batismo, só a endereçando pelo título. Uma das poucas alfas mulheres do país.
Encaro-a olho no olho. “Precisamos reforçar nossas defesas. Coordenar nossos esforços. Apresentar uma frente unida antes que eles—”
“O que isso implica, Alfa Westwood? Não adianta discutir hipóteses. O que eu quero saber é o que você espera da Cordilheira Crepúsculo daqui para frente.”
Respiro fundo, lutando contra a vontade de socar a mesa de mogno. O lobo dentro de mim rosna, eriçando os pelos, pronto para a luta. Mas me forço a respirar através disso, a empurrar para baixo a raiva borbulhando em minhas veias. Perder a paciência aqui não adiantaria de nada. Só provaria que estou muito jovem, muito inexperiente para lidar com isso.
Eu já dei a todos essa resposta várias vezes nos últimos dois dias.
E dou novamente.
Com dentes cerrados.
Colando profissionalismo em minha face, mesmo enquanto meu lobo rosna na minha mente.