A Noiva Contratada do Alfa Noturno - Capítulo 343
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Capítulo 343: Chapter 343: Simbolismo Não Sustenta Portais
O gramado sul deveria ter cheiro de grama cortada e sol. Em vez disso, cheirava a fumaça, suor e muitos corpos comprimidos em muito pouco espaço.
Ana contornou o perímetro de qualquer forma, sua capa trocada por uma jaqueta simples e sua coroa deixada para trás. Era apenas ela, botas na terra, e um pequeno círculo de guardas sombreados em seus passos. O palácio erguia-se atrás deles, sua pedra brilhante no clarão do meio-dia. À frente dela havia uma massa de barracas e fogueiras, vozes de crianças cortando alto através do murmúrio baixo de adultos enquanto corriam entre as barracas.
Adam tinha ido embora.
Ele tinha partido antes do amanhecer, a Lua Negra já se movendo em comboio, lobos alternando entre pelo e pele enquanto puxavam carros, suprimentos, armas em uma linha que seguia os poucos caminhões que ele permitiu escoltá-los. Quanto menos atenção chamassem, melhor. Pelo menos com carros ainda havia a possibilidade de serem agricultores na estrada.
Ele não queria ir, não com tudo ainda tão recente, mas ele foi. Porque ela ordenou. Porque as pessoas deles precisavam de muralhas e de um terreno que não estivesse a três dias de distância se o Rei Lycan decidisse testar suas defesas.
Ela não assistiu ele partir. Não conseguia.
Agora era apenas ela.
Um grupo de trabalhadores aguardava perto do contorno esquelético da nova fundação… trincheiras semi-cavadas, pilhas de blocos de pedra, os inícios de barreiras rabiscadas em giz. O local onde o prédio do portal seria construído. Ana caminhou na direção deles e viu que Coral já estava lá, prancheta na mão, cabelo preso tão firmemente que lhe dava um ar de autoridade rigorosa.
“Majestade,” um dos pedreiros disse, fazendo uma rápida reverência. Suas mãos estavam brancas de poeira de giz. “Tivemos… alguns problemas.”
“Problemas,” Ana repetiu, cruzando os braços.
“Sim. O solo aqui não é estável o suficiente para uma estrutura de ancoragem completa sem reforço. Vamos precisar de fundações mais profundas. E mais pedra. O dobro.”
Coral não levantou os olhos de suas anotações.
“Que atualmente não temos.”
Ana beliscou a ponte do nariz.
“Então vamos ver essas opções…” ela murmurou pensativamente enquanto pensava rapidamente em possíveis soluções, “Se a pedra é escassa, use aço reforçado e coloque as barreiras nele. Não estamos construindo um templo. Só precisa se manter firme.”
O pedreiro engoliu em seco e assentiu.
Coral rabiscou freneticamente.
“Vou solicitar o aço, mas se canibalizarmos as vigas dos quartéis do leste…”
“Não os quartéis,” Ana disse em tom afiado. “Nossos soldados dormem lá. Encontre outra opção.”
A voz de Eva veio de trás dela, fria e direta como sempre.
“Podemos desmontar o antigo celeiro. Ninguém está usando agora. Mas o simbolismo…”
“O celeiro serve,” Ana interrompeu. “Simbolismo não sustenta portais.”
Uma brisa trouxe o som de vozes elevadas do acampamento mais próximo, não era briga… ainda não. Mas uma discussão acalorada mesmo assim.
Os ombros de Ana se enrijeceram.
“Jesus… E agora?” ela murmurou mais para si mesma do que qualquer outra coisa.
“Refugiados,” Coral disse sombriamente. “Eles querem saber se esta terra pertence a eles, ou se são invasores até que os expulsemos.”
“Alguém disse o contrário?”
“Alguns guardas podem ter… dito coisas de forma inadequada.”
Ana exalou pelos dentes. Claro.
Ela deixou a equipe de construção com Coral, guardas se dispersando ao redor dela enquanto ela se dirigia para as barracas. O barulho se intensificou à medida que ela se aproximava: a voz de uma mulher ecoando, frágil de medo.
“…fugimos do fogo para isso? Para sermos cercados e movidos de novo quando convém?”
Um homem respondeu, mais irritado. “Eles nunca nos deixarão ficar. Não com Lycans farejando as fronteiras. Não somos melhores do que peões, como antes.”
Cabeças se voltaram quando a viram. O silêncio caiu como uma queda de pressão.
Ana parou perto o suficiente para fazê-los se esticarem mas não recuarem.
“Esta terra,” ela disse, sua voz ecoando, “não é um curral. Não é um terreno emprestado. É seu. Se você veio aqui para paz, você a mantém. Ninguém te joga de volta ao fogo.”
O queixo da mulher tremeu. “E quando os homens do Rei Lycan vierem? Quando disserem que pertencemos a eles?”
Ana encontrou seu olhar.
“Então eles respondem a mim antes mesmo de chegarem perto de qualquer um de vocês.”
Declaração ousada, Rainha, Maeve zombou. “É melhor você rezar para que seus lutadores possam cobrir os cheques que sua boca está assinando quando eles vierem bater nas nossas muralhas.”
O tom do murmúrio mudou ligeiramente… a dúvida deles se transformando em outra coisa. Não confiança. Ainda não. Mas era menos volátil do que antes.
Um garoto saiu de trás da mãe, rosto sujo, voz fina. “E quanto à comida?”
Ana se agachou para que ele não tivesse que inclinar a cabeça para trás. “Vamos racionar mais apertado. Não será fácil, mas você não passará fome.” Ela olhou para os guardas. “Dobrem as entregas esta noite. E certifiquem-se de que seja compartilhado de maneira justa. Sem favoritos.”
“Sim, Minha Rainha,,” um disse prontamente.
O menino a estudou como se quisesse acreditar. Então ele assentiu e recuou, agarrando a saia da mãe.
Ana se levantou. “Vocês não são peões. Não aqui. Vocês constroem conosco, lutam conosco, comem conosco. Esta terra pertence a todos nós, ou não pertence a ninguém.”
O silêncio se estendeu. Então algumas cabeças se inclinaram. Isso era o suficiente por enquanto.
Ela se virou de volta em direção ao canteiro de obras, seu pulso um pouco rápido demais.
“Bom discurso,” Maeve disse. Quase acreditei. Pena que você está vivendo com três horas de sono e chá frio o suficiente para chorar.”
“Agora não,” Ana murmurou.
Coral caiu no passo ao lado dela, olhos brilhando por trás do evidente cansaço.
“Foi bom. Eles precisavam ouvir isso.”
“Eles precisarão ouvir de novo amanhã,” Ana disse. “E no dia seguinte. Até acreditarem.”
Eva se juntou a eles perto do andaime, braços cruzados, seu silêncio pesado.
“Crença não vai derramar fundações. Precisamos dessa pedra. Precisamos de mãos fortes. Metade dessas pessoas quer abrigo, não trabalho.”
“Eles vão trabalhar,” Ana disse, mais aguda do que pretendia.
A sobrancelha de Eva arqueou.
“Você tem certeza? O medo nem sempre torna as pessoas úteis. Às vezes as torna egoístas.”
“Então vou lembrá-los do que acontece quando o egoísmo governa um reino,” Ana retrucou. “Todos nós vimos isso. Nenhum de nós sobreviveu a isso apenas para repeti-lo.”
Isso calou até mesmo Eva.
Os pedreiros se mexeram desajeitadamente, então se inclinaram de volta para suas linhas de giz. Coral fez outra anotação, maxilar apertado.
Ana olhou para os contornos desenhados no giz, para o espaço vazio que seria o edifício do portal. Um lugar para ancorar resgates. Para abrir portas. Para arrastar Lexi de volta se Brarthroroz a encontrasse. Ou seu corpo.
Suas costelas doíam de tanto que continuava respirando.
Adam deveria estar aqui, seu peso constante ao seu lado, rosnando para qualquer um que duvidasse dela. Em vez disso, ela tinha giz, pedras, sussurros e exaustão como um peso de chumbo puxando sua espinha.
“E eu,” Maeve ronronou. “Não se esqueça da voz útil na sua cabeça lembrando que esta coroa não significa nada quando o desastre acontece.”
“Cale-se,” Ana sussurrou.
Ninguém notou. Coral estava discutindo com o pedreiro sobre sustentação de carga, Eva rabiscando números como se pudesse equilibrar a realidade.
Ana se virou uma vez, observando as tendas dos refugiados ondulando na brisa. Eles não eram peões. Não mais.
O pensamento pousou pesado e estranho. Isso não era mais apenas sobrevivência. Era outra coisa.
Sua garganta apertou, mas ela forçou para baixo. Ela não podia quebrar, não agora.
Não com Adam ausente. Não com Brarthroroz caçando sombras. Não com o sangue de Lexi em um pedaço de pano queimado.
Ela se endireitou, a voz alcançando Coral e Eva sem olhar.
“Faça funcionar. Seja o que for preciso.”
Ambas assentiram, eficientes como sempre.
Ana olhou uma vez mais para os acampamentos, o palácio, o edifício inacabado. Tudo frágil. Tudo esperando para quebrar.
Ela exalou, baixo e uniforme.
“Certo,” ela murmurou. “Se o mundo quiser se destruir, pode fazer isso ao meu redor. Não através de mim.”
Aí está ela, Maeve sussurrou, quase satisfeita. Rainha dos abandonados. E eles estão começando a acreditar nisso.
Ana não respondeu. Ela apenas continuou andando pelas linhas até que o crepúsculo sangrou no horizonte, o dia cedendo à noite.