A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 524
Capítulo 524: Reconhecimento
Hades não respondeu.
Porque Orion estava certo.
Ele vinha usando o uivo por mais de duas horas — quebrando a compulsão sobre os vampiros, salvando os gammas, mantendo suas forças vivas.
Mas isso estava matando ele.
Cada uivo drenava mais energia do que o anterior. Deixava-o mais lento. Mais fraco. Mais vulnerável.
E Orion vinha acertando mais golpes por causa disso.
As marcas de garras nas costas de Hades. A mordida em seu ombro. Os cortes em suas costelas.
Tudo porque ele estava muito lento. Muito exaurido.
Mas os gammas estão vivos.
Os domos estão intactos.
Muralha de Ferro ainda permanece.
Hades encontrou o olhar de Orion.
“Então termine,” Hades disse calmamente.
As asas de Orion se abriram.
E ele avançou.
Dessa vez—
Hades não se esquivou.
“Orion.”
Sua voz era terna, carregada de exaustão.
Orion parou no ar — asas travadas, garras estendidas, a apenas centímetros da garganta de Hades.
Seus olhos se arregalaram, mesmo em seu estado transformado. Era a expressão mais visível, além do desprezo, que ele ousou demonstrar.
Era a voz.
Suave. Arenosa. Tingida de exasperação.
Do jeito que Vassir costumava falar.
Se Hades percebeu o choque ondulando pelo vampiro, ele não demonstrou. Apenas continuou a falar naquele tom agonizantemente familiar que assombrava Orion por séculos.
“Você não pode continuar com isso. Você já perdeu tanto. Sua lealdade. Sua honra. Sua liberdade. E agora você perderá a si mesmo, apenas para se curvar a ele mais uma vez.” O olho restante de Hades fixou-se em Orion. “O que você espera ganhar? O que Ezequiel esperava ganhar? Lisandra? Rielle? Tadeu? Roiben?” Sua voz suavizou. “Quando você vai aprender?”
A cada nome que Hades pronunciava naquela entonação que não deveria ser possível, o estômago de Orion se contorcia um pouco mais forte. Um pouco mais dolorosamente.
Ele piscou lentamente, como se tudo fosse um sonho.
Então a raiva começou a ferver novamente.
Quanto mais ele encarava o impostor que não apenas tomou o rosto de seu irmão, mas sua voz — que havia vasculhado suas memórias de seu clã, seus irmãos, aqueles que haviam caído, aqueles que ainda iriam cair —
O corpo de Orion convulsionou por dentro.
Seus órgãos estavam em chamas. Sua mente em ruínas. A raiva corria por ele, deixando apenas desolação em seu rastro.
Desta vez, quando a mandíbula de Orion se abriu, não foi nem um rugido, nem um rosnado, nem um grunhido que escapou.
Foi um grito.
Penetrante. Afiado o suficiente para fragmentar ossos em pó.
Os vampiros congelaram em seu ataque, batendo suas asas contra suas orelhas. Os gammas fizeram o mesmo, garras pressionadas contra os crânios, olhos apertados.
O céu poderia ter caído pelo som que rompeu o ar.
Mas não teve efeito sobre Hades.
Ele apenas olhou, lendo seu irmão de outra vida através do vínculo antigo que ainda os conectava — assim como era antes, todos aqueles séculos atrás.
Hades não era estranho à traição de irmãos nesta vida. Talvez fosse a razão pela qual ele podia ver completamente através da raiva que Orion se cobria. Porque ele podia reconciliar as memórias do irmão adorável que Orion tinha sido em sua vida passada com essa casca quebrada de um escravo que aprendeu tarde demais que havia mordido mais do que podia mastigar.
E ainda estava pagando por seu pecado—décadas e mais décadas, muito mais do que muitos viveram.
A voz de Hades cortou o grito, suave mas inflexível.
“Você quer liberdade, Orion?” Hades perguntou calmamente. “Então deixe-me dar isso a você.”
O grito de Orion se interrompeu.
Ele encarou Hades—asas tremendo, corpo tremendo, um olho inchado fechado, o outro ardendo com séculos de raiva, pesar e culpa.
“Ele… ele não… Você mente. Você é um mentiroso. Você…”
“Você sabe que nenhum ser vivo deveria ser capaz de absorver a essência do Príncipe Vampiro sem perecer. Sem que a essência os corroesse completamente por dentro. É por isso que ninguém podia vestir seu Chalyx, seu chifre.” Hades disse firmemente. “Nem você conseguiu. Você só podia extrair poder dele, um pouco de cada vez. Mas eu consegui—porque era destino que chegasse até mim novamente como a reencarnação de seu antigo dono. É destino que eu destruirei o descendente do homem que me acabou séculos atrás.”
Hades inclinou a cabeça, quase pensativo, apesar da carnificina que manchava sua pessoa. “Você viveu por tempo demais para acreditar em coincidências.”
Por um momento, silêncio.
Então—
As asas de Orion se dobraram.
Seu corpo cedeu.
E ele pousou.
Não atacando.
Apenas—pousando.
Em frente a Hades.
Os outros vampiros observavam, abandonando seus oponentes no campo de batalha, asas batendo lentamente, pairando, escutando.
Seu príncipe havia retornado.
E Orion—
Orion, que o havia traído—
Estava ajoelhado diante dele.
“Vassir,” Orion sussurrou, sua voz se partindo.
“Não,” Hades disse gentilmente. “Não mais. Mas eu o carrego. E eu lembro.” Ele fez uma pausa. “Eu lembro de você, Orion. Antes da traição. Antes da escravidão. Quando você era meu irmão. Você ainda é meu irmão.”
O olho restante de Orion transbordou.
“Eu… eu não quis dizer… Eu pensei…”
“Você pensou que eu estava nos destruindo,” Hades disse calmamente. “Amando um lobisomem, amando Elysia. Misturando nosso sangue. Você pensou que estava salvando nosso povo.”
Orion assentiu em silêncio, lágrimas escorrendo.
“Mas você não estava,” Hades continuou, sua voz suave mas firme. “Você estava condenando eles. E a si mesmo.”
“Eu sei,” Orion sussurrou. “Eu sei. E eu paguei. Por séculos. Eu paguei.”
Hades olhou para seu irmão de outra vida, a culpa e o pesar que ele sufocou por tantas décadas emanando dele. Hades olhou a carnificina ao redor. Os gammas mortos que nunca veriam suas famílias e seu próprio pesar se espalhando sobre ele.
Orion percebeu, mordendo os lábios, “Eu não posso pagar o suficiente pelo que fiz. Não é possível?”
E Hades se inclinou a concordar e seu silêncio súbito deixou isso claro.
“Posso ajudá-lo a evitar…mais disso…” ele murmurou.
Os outros vampiros ofegaram, embora não estivessem mais atacando, eles também não estavam recuando. “Orion, o juramento de sangue—” A que Hades reconheceu como Lisandra falou.
Mas Orion apenas olhou para o céu, e depois para o grupo deles ainda lá. “Vocês precisarão partir. Se querem sobreviver, só há dez minutos até que a lua de sangue passe. O sol virá—”
Eles compartilharam olhares cautelosos, cheios de incerteza.
Orion se levantou, ainda cedendo contra seu próprio peso e tristeza. “Eu disse SAIR!” ele berrou. “AGORA!”
Um por um, eles obedeceram, alçando aos céus—mas não antes de olharem para Hades com cautela.
Quando o último desapareceu na luz vermelha desvanecida, Hades se voltou para Orion.
“Diga-me como acabar com isso,” Hades disse.