A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 521
Capítulo 521: Quatro Horas
04:01:43 (Quatro horas até o fim)
Acima da Muralha de Ferro
Minhas asas teceram pelo ar, cada movimento energizado me impulsionando mais perto do meu destino. Minha dor de cabeça havia diminuído, o alívio muito bem-vindo, mas ainda assim me peguei fazendo caretas enquanto minha mente me mostrava memórias que eu havia perdido, no meio do ar.
O sangue havia sido a resposta, e com tantos dispostos a dar o deles, a cura acelerou mais rápido do que os Deltas teorizaram.
No momento em que a pressão no meu crânio aliviou, tudo começou a voltar—primeiro em gotejamentos, e então a represa estourou, deixando-me inundado com imagens e conversas, eventos e cronologias.
Junto com minha memória de Eve e sua condição, nossa vida passada veio com o tumulto. Minha existência passada me atingiu com uma clareza que antes não possuía.
Nem sempre foi tão vívido. Foi como assistir através de um vidro embaçado, mas parece que o dano cerebral e a reparação subsequente refrescaram minha mente e trouxeram à tona os pedaços suprimidos.
Hades cerrou os dentes, abafando o instinto esmagador de voar de volta para Alvorada para ver Eve. Para implorar de joelhos por até ter ousado esquecê-la. Mas ele tinha certeza de que, se a visse, a seguraria e não a soltaria.
Com quatro horas até que a Lua de Sangue passasse, ele sabia que devia estar atento aos movimentos que Darius faria, já que ele não poderia mais usar a Lua de Sangue como arma.
E, pelo que ele havia sido informado, a Muralha de Ferro tinha sofrido grandes impactos e perdas subsequentes após dois dias de silêncio completo.
Isso foi por causa dos vampiros.
Minhas asas congelaram quando o odor se espalhou pelo ar como um cutelo através da carne. Enojante, podre e avassalador o suficiente para arder nos olhos, correndo como uma lâmina serrilhada por minhas narinas.
Eles foram numerosos, e minha mente chegou a uma estimativa. Cerca de sessenta haviam voado pela área em que eu agora me encontrava. Mas foi a única coisa que sobressaiu e fez minha mente percorrer memórias.
Reconheci o cheiro. O odor de cada vampiro. Desencadeado pelo cheiro, meu cérebro puxou nomes que eu nunca tinha ouvido antes—nomes que pareciam trancados atrás de uma porta que havia sido repentinamente aberta por causa da minha lesão cerebral.
O som de gritos rompeu a névoa, e minha cabeça se virou para baixo para me ver bem acima do acampamento da Divisão Muralha de Ferro.
Corpos espalhavam-se pelo espaço—pontos de onde eu agora flutuava. Preparei-me para pousar, inclinando e dobrando minhas asas para iniciar minha descida.
Desci o suficiente antes de deixar minhas asas se abrirem momentaneamente para suavizar o pouso em um arco menos que gracioso. Meu peso atingindo o chão fez o acampamento tremer.
—
Os Gammas se dispersaram—depois congelaram.
Armas erguidas. Olhos arregalados.
Por um momento, ninguém se mexeu.
Então—
“ALFA!”
Voss apareceu, mancando, ensanguentado, mas vivo. Alívio inundou seu rosto. “Você está aqui. Graças aos deuses, você está aqui.”
Hades voltou à forma humana, suas asas se dobrando e desaparecendo enquanto os ossos e músculos se reformavam. Ele se endireitou, absorvendo a devastação ao seu redor.
Corpos. Tantos corpos.
Lycan e vampiro, ambos, empilhados em montes, sendo arrastados para valas comuns.
O sangue manchava a neve em poças largas e escuras.
As cúpulas permaneciam intactas—mal. Marcas de queimadura manchavam suas superfícies. Marcas de garras cravavam profundamente.
Mas elas seguraram.
“Relatório,” disse Hades, sua voz áspera.
Voss engoliu em seco. “Dois ataques completos. Vampiros. Centenas deles. Eles estavam soltando selvagens a princípio—nos testando. Então desceram eles mesmos. Alimentaram-se de nossos feridos para reabastecer no meio da batalha.”
A mandíbula de Hades se apertou. “Baixas?”
“Setenta e três mortos. Mais de noventa feridos. Estamos com quarenta por cento da força.” A voz de Voss fraquejou. “Mantivemos as cúpulas. Mas mal.”
As mãos de Hades se cerraram em punhos.
Setenta e três.
Mais do que Presa de Gelo. Mais do que Alvorada.
A Muralha de Ferro sangrou mais.
“Onde está Kael?” Hades perguntou.
“Tenda médica. Ele—” Voss parou. “Ele matou o vampiro líder. Mas ele levou uma mordida no pescoço. Os Deltas estão trabalhando nele agora.”
Os olhos de Hades se aguçaram. “Uma mordida?”
“Ele sobreviveu. O sangue dele—” A expressão de Voss transmutou-se em algo semelhante a admiração. “Foi envenenado. Prata. Thea o estava injetando há meses. Construiu tolerância. Tornou seu sangue tóxico para vampiros.”
Hades encarou. “Ele se envenenou?”
“Sim. E funcionou. O vampiro que o mordeu—a boca dele queimou. Os outros viram. Eles recuaram. Estão com medo agora. Paranoicos. Não sabem quem mais pode estar envenenado.”
Por um momento, Hades não disse nada.
Então—
“Brilhante.” Sua voz era suave, mas ferozmente orgulhosa. “Absolutamente brilhante.”
Ele começou a caminhar em direção à tenda médica, com Voss o seguindo.
Ao redor deles, os sobreviventes da Muralha de Ferro se moviam como fantasmas—exaustos, com olhares vazios, mas ainda se movendo. Ainda mantendo suas posições.
Estas são minhas pessoas, pensou Hades. E elas já sangraram o suficiente.
Ele empurrou a aba da tenda médica.
—
Kael estava deitado em uma maca, despido até a cintura, bandagens envoltas em seu pescoço e peito. Sua pele estava pálida, sua respiração superficial.
Um Delta trabalhava sobre ele, mãos brilhando fracamente.
Os olhos de Kael se abriram quando Hades entrou. Eles focaram—mal.
“Alfa,” Kael murmurou. “Você está—” Ele parou, fazendo uma careta. “Você deveria estar morto.”
“Você também,” Hades disse, se movendo para o lado dele. “No entanto, aqui estamos.”
Kael conseguiu um sorriso fraco. “Desgraçados teimosos.”
“Do melhor tipo.” Hades olhou para o Delta. “Como ele está?”
“Estável,” disse o Delta. “A mordida foi profunda, mas limpa. Sem veneno. O prata em seu sangue o salvou—queimou o vampiro de dentro antes que pudesse injetar qualquer coisa. Ele vai viver.”
“Bom.” Hades olhou de volta para Kael. “Você fez bem. A Muralha de Ferro resistiu por sua causa.”
O maxilar de Kael se apertou. “Perdemos setenta e três.”
“Eu sei.” A voz de Hades estava pesada. “E sinto muito. Mas você resistiu. As cúpulas estão intactas. Os civis estão seguros. Isso é o que importa.”
“É mesmo?” A voz de Kael estava amarga. “Setenta e três mortos. Noventa feridos. Para quê? Para segurar uma linha por mais algumas horas?”
“Sim,” Hades disse com firmeza. “Porque em quatro horas, isso termina. A Lua de Sangue passa. Darius perde sua vantagem. E nós vencemos.”
Kael o encarou. “Você tem certeza?”
“Tenho certeza.” O olho restante de Hades queimava com convicção. “Sangramos. Perdemos. Mas ainda estamos aqui. E Darius—” Sua voz se escureceu. “Darius está ficando sem tempo. Sem movimentos. Ele está desesperado. E inimigos desesperados cometem erros.”
Kael exalou lentamente. “Então terminamos isso.”
“Sim.” Hades endireitou-se. “Terminamos isso.”
Ele se virou para o Delta. “Quantos outros feridos podem lutar?”
“Talvez vinte. O resto precisa de mais tempo.”
“Então arme esses vinte e prepare-os. E diga a todos os outros para se prepararem.” A voz de Hades era fria, comandando. “Darius jogará tudo o que lhe resta contra nós nas próximas quatro horas. Vampiros, ferais, o que mais ele estiver escondendo. Nós resistimos até a Lua de Sangue acabar. Entendeu?”
“Sim, Alfa,” disse o Delta, saindo apressado.
Hades olhou de volta para Kael. “Descanse. Você merece.”
“E você?” Kael perguntou. “Você acabou de ter metade do seu crânio reconstruído. Você deveria estar descansando também.”
O maxilar de Hades se firmou. “Vou descansar quando Darius estiver morto.”
Ele se virou e saiu da tenda.
—
Lá fora, o campo já estava se mobilizando.
Gammas verificando armas. Deltas cuidando dos feridos. Suprimentos sendo racionados.
Hades estava no centro de tudo, seu olhar varrendo os sobreviventes.
Eles estavam espancados. Quebrados. Exaustos.
Mal se aguentando.
“MURALHA DE FERRO!” A voz de Hades ecoou, cortando o barulho.
Todos pararam. Viraram.
Olharam para seu Primus.
Hades viu nos olhos deles—o cansaço. O luto. O medo.
Eles haviam perdido tantos.
E sabiam que mais morreriam.
“Quatro horas,” Hades disse calmamente. Sua voz carregava, mas não havia triunfo nela. Apenas—verdade. “Quatro horas até a Lua de Sangue acabar. Até Darius perder sua vantagem.”
Ele fez uma pausa, com o maxilar tenso.
“Não vou ficar aqui e dizer que acabou. Não acabou. Darius jogará tudo o que lhe resta contra nós nessas horas finais. Vampiros. Selvagens. O que mais ele está guardando. Vai ser brutal.”
Silêncio.
“Alguns de nós não vão conseguir,” continuou Hades, sua voz áspera. “Já perdemos muitos. Bons soldados. Amigos. Família.” Seu olho restante varreu por eles. “E eu não posso prometer que vocês sobreviverão nas próximas quatro horas.”
Ele parou.
Deixe isso afundar.
“Mas eu posso prometer isso a vocês,” Hades disse, sua voz agora mais firme. “Se resistirmos—se aguentarmos até o amanhecer—então cada gota de sangue derramada, cada vida perdida, significará algo. Darius cairá. A Lua de Sangue terminará. E Obsidian se manterá.”
Ele encontrou os olhos deles, um por um.
“Não estou pedindo para morrerem por mim,” Hades disse calmamente. “Estou pedindo para sobreviverem. Por mais quatro horas. Segurem essa linha. Protejam as cúpulas. E quando o sol nascer—” Sua voz quebrou, ligeiramente. “Vamos enterrar nossos mortos. Vamos lamentar. E vamos reconstruir.”
Por um momento, ninguém falou.
Então—
Uma única gamma levantou o punho. “Por Obsidian.”
Outro se juntou. “Pelos caídos.”
Então mais. “Pela Muralha de Ferro.”
Não uma comemoração.
Um voto.
Hades assentiu lentamente. “Quatro horas. É tudo que precisamos.”
Ele se virou, abriu as asas e lançou-se ao ar.
Seu peito estava apertado.
Sua cabeça ainda doía.
E em algum lugar—milhas longe—Eve estava esperando.
Eu a esqueci, ele pensou, a culpa uma faca em seu peito. Por quatro horas, eu nem sabia seu nome.
Ele apertou o maxilar, forçando o pensamento para baixo.
Primeiro sobreviver. Depois lamentar.
Ele tinha três outras divisões para verificar.
E três horas para garantir que Darius não tirasse mais nada deles.