A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 519
Capítulo 519: Volte logo
Presa de Gelo
O sorriso de Silas morreu em seus lábios, seu corpo inteiro enrijecendo como se tivesse sido atingido por um tiro.
Hades ergueu uma sobrancelha, perplexo, ainda gemendo contra a pressão que pesava em seu crânio. Ele soltou um silvo quando a aba da tenda se abriu, revelando alguém que, pelo uniforme, ele podia inferir que era um Delta.
O Delta instantaneamente ficou de um tom alarmante de branco enquanto gaguejava. “Alfa, você não deveria estar acordado agora. É muito cedo.”
“Estou bem,” ele mentiu e falhou. Sua careta revelou tudo o que precisavam saber. “Estou com dor de cabeça, no entanto,” ele admitiu.
“É muito pior do que isso,” Silas murmurou, ainda imóvel onde estava, olhando para Hades com olhos arregalados. “Você nunca esqueceria Eve.”
A cabeça do Delta virou em direção a Silas. “Ele esqueceu a esposa?”
A perplexidade de Hades rapidamente se transformou em horror e agitação. “Que tipo de piadas vocês estão fazendo comigo? Não é—” Ele gemeu novamente enquanto outro Delta abria a aba da tenda. “Não é nem um pouco engraçado.” Ele rosnou contra a onda de agonia que dilacerou seu crânio.
Os três se entreolharam—os Deltas e Silas. “Você pode consertar isso?” Silas perguntou.
Mas Hades estava longe de terminar. Ele se levantou em toda sua altura, pairando sobre todos eles, parecendo prestes a rasgar alguém em pedaços. “Eu não sei em que mundo você vive, mas eu nunca vou ter ninguém além de Danielle.” Ele rosnou para baixo, para os homens.
Silas suspirou profundamente. “Você teve. E ela está grávida dos seus filhotes.”
O mundo sob os pés de Hades desabou, a chama em seu peito atiçada pela total absurdidade das palavras do conselheiro. “Espero que você ainda respeite sua posição e pare de falar besteiras.” Ele arrastou as palavras, seus olhos escurecendo com promessa enquanto encarava o homem mais velho.
Silas apenas piscou e se voltou para os Deltas. “Você tem que fazer algo.” Sua voz estava urgente. “Ele tem que lembrar.”
Os Deltas balançaram as cabeças. “Reconstruímos seu cérebro da melhor maneira possível. O resto depende ultimamente do corpo dele.”
“Você se lembra que estou aqui?” Sua voz era baixa e ameaçadora. Silas girou para olhá-lo, encarando apreensivamente como se ele fosse um estranho armado com uma faca. “Você regrediu.”
Hades recuou, seu lábio se arqueando em um rosnado. “O que diabos isso significa?”
Mas tudo que Silas fez foi assentir, como se a reação dele tivesse provado que estava certo. “Você não age mais assim. Mas as memórias de Eve que você perdeu retrocederam o relógio em seu desenvolvimento. Sua personalidade regrediu como resultado. Isso é ruim.”
Hades foi dominado pelo desejo avassalador de torcer o pescoço do homem. “Nunca haverá mais ninguém além de Danielle.” De alguma forma, ele se conteve do instinto. Hades olhou para si mesmo, confuso.
Silas percebeu isso também. “Você nunca se contém—pelo menos no passado. Sua mente pode ter esquecido, mas seu corpo não.”
O Delta se moveu cuidadosamente perto dele. “O que mais você está sentindo além da dor de cabeça?” Ele olhou cautelosamente para as presas alongadas de Hades.
“Estou com sede,” ele admitiu. “Muita sede.”
Os olhos do Delta se estreitaram. “Por sangue.”
“É tão óbvio assim?” Hades perguntou, um tanto surpreso.
“Seus olhos têm percorrido em direção aos pulsos—o pescoço, os pulsos, o peito. Sempre que meu ritmo cardíaco acelera, seus olhos instintivamente se fixam em meu peito, onde meu coração está. Seus impulsos vampíricos estão aguçados por causa da energia que você esgotou para lutar e se manter vivo. Você precisa de sangue para continuar, e tenho um bom pressentimento de que o sangue fará bem à sua memória. Sua companheira precisa de você.”
Os Deltas compartilharam uma conversa sem palavras antes de pegar agulhas e seringas.
“Precisaremos de voluntários,” um disse baixinho. “Sangue suficiente para terminar a cura corretamente.”
Silas não hesitou. “Eu vou primeiro.”
“Não.” O Delta o deteve. “Você é muito velho. A tensão—”
“Então chame os gammas,” Silas disse firmemente. Ele acionou seu comunicador. “Todos os gammas disponíveis para a tenda médica. O Alfa precisa de sangue. Apenas doadores dispostos.”
A resposta foi imediata.
“Estamos a caminho.”
“Já estamos indo.”
“Pelo Alfa.”
Em minutos, eles chegaram.
Dezenas deles. Fortes. Leais. Prontos.
Uma gamma—uma jovem mulher com tranças escuras—deu um passo à frente primeiro. “Quanto você precisa?”
O Delta a avaliou, então assentiu. “Um litro. Não mais.”
Ela arregaçou a manga sem hesitação.
O Delta inseriu a agulha, coletou o sangue, entregou a bolsa para seu colega.
Outro gamma deu um passo à frente. Depois outro.
Eles se alinharam.
Sem ordens. Sem comandos.
Apenas dispostos.
Hades observou, ainda desorientado, ainda lutando contra a fome que o atormentava.
“Por quê?” ele perguntou roucamente.
A gamma com as tranças encontrou seus olhos. “Porque você é nosso Alfa. E porque Luna Eve precisa de você inteiro.”
O olho restante de Hades ardia.
Ele não sabia quem era Eve.
Mas seu bando sabia.
E eles a amavam o suficiente para sangrar por ele.
—
05:32:56
Égide
Um tiro foi suficiente para fazer toda a matilha tremer. Isso fez o mundo inteiro tremer em seu eixo.
Cain não precisava ser informado de que não era tiro. Isso era uma bomba. Silverpine estava trazendo as armas pesadas.
Ele entrou em ação, o som da explosão ainda ecoava pelo território. Tentou não olhar para Ellen e a forma brilhante de laranja e vermelho que ela havia se tornado.
Ellen Valmont não estava mais responsiva.
Ele suprimiu o desejo de tentar sacudi-la novamente, mesmo que ela tivesse queimado sua pele da última vez. Ele sabia que não havia esperança ali. Antes, ela reagia a tiros. Agora ela não se mexia com o som de uma bomba.
Ele falou no rádio. “Freddie, relatório.”
Estática. Então a voz de Freddie surgiu—tensa, ofegante, urgente.
“Comandante, eles estão vindo com tudo. Isso não é mais uma batalha—eles estão mirando diretamente nas residências civis. Bombas. Grandes. Eles estão tentando matar todos em suas casas.
O sangue de Cain gelou. “Baixas?”
“Doze mortos até agora. Mais de trinta feridos. Estamos evacuando, mas eles continuam vindo. Precisamos de reforços. Precisamos—” Uma explosão rugiu ao fundo. Freddie xingou. “Precisamos de você, Comandante.”
Cain olhou para Ellen.
Seus olhos estavam fechados. Seu corpo brilhava—claro, queimando, quase doloroso de se olhar.
Ela não estava se movendo.
Não estava respondendo.
Ela estava morrendo.
E não havia nada que ele pudesse fazer.
“Estou indo,” Cain disse no rádio. “Segure a linha. Cinco minutos.”
“Entendido.”
Cain pegou seu rifle, conferiu suas munições, vestiu seu colete.
Suas mãos se moviam no piloto automático.
Mas seus olhos continuavam voltando para Ellen.
Não posso deixá-la.
Mas não posso ficar.
Ele se forçou a se virar. Deu um passo em direção à porta da tenda.
Então—
“Cain.”
Ele congelou.
A voz dela era tão fraca que ele quase não ouviu.
Ele se virou.
Os olhos de Ellen estavam abertos—mal. Brilhando levemente. Seus lábios se moveram.
“Volte logo,” ela sussurrou. “Para que você possa terminar sua história.”
A garganta de Cain se fechou.
Ele cruzou de volta para ela em três passos, caiu de joelhos ao lado dela.
“Eu vou,” ele disse, sua voz rouca. “Estarei de volta antes que você perceba. Prometo.”
Os lábios de Ellen se curvaram no mais leve dos sorrisos. “Mentiroso.”
“Não sou—”
“Está tudo bem.” A mão dela se mexeu. Ele a segurou—ignorou o calor que queimou sua palma. “Eu vou esperar.”
Cain apertou a mão dela. “É melhor esperar.”
Ela não respondeu.
Seus olhos fecharam novamente.
E o brilho se intensificou.
Cain se levantou, o peito apertado, as mãos tremendo.
Então ele se virou.
E correu.
—
Duas bombas mais detonaram enquanto ele corria para as linhas de frente.
O chão tremeu.
O fogo floresceu à distância.
Gritos ecoaram.
Cain cerrou o maxilar.
Segure firme, Ellen.
Aguente firme.