A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 507
Capítulo 507: Salve ELA
Hades
Minha vida passou diante dos meus olhos quando a explosão ecoou. Não houve som, mas ressoou na minha cabeça, abalando-me até o âmago. Meu corpo se moveu milhas antes da minha mente, e eu não esperei pelo resultado da explosão. Eu *não podia* esperar para ver se minha vida havia acabado. Covarde demais para sequer ousar.
Mas mesmo enquanto eu corria para a saída do centro de comando, o chão sob meus pés se transformou em areia movediça e me vi afundando, mesmo quando comecei a me mover. Não importava o quão rápido eu corresse, ainda era muito lento. Eu me sentia como um caracol, avançando, arrastado para trás pela minha própria mucosa.
Ao mesmo tempo, minha mente há muito começara a percorrer todas as memórias dela. De nós.
A dor, o ódio, a raiva, a lenta florada de algo mais do que inimizade. Meu peito estava prestes a explodir, o pulso não era mais um ritmo distante, era uma batida ensurdecedora contra meu crânio.
Um estalo cortou a cacofonia em que minha mente havia se tornado, e por um momento eu não tinha certeza de onde estava, mesmo quando o vento bateu no meu rosto, oficiais se movendo com munição e suprimentos. O acampamento parecia uma ilusão da minha imaginação. Na minha realidade, o mundo tinha explodido no momento em que aquela bomba detonou a poucos centímetros da minha esposa.
O estalo persistia, até que eu saí do meu pânico sufocante e apertei o comunicação.
“—repito, Luna está abatida! Luna está abatida! Precisamos—”
Meu sangue gelou.
“Status.” Minha voz não parecia minha. Muito plana. Muito fria. “Dê-me o status. *Agora*.”
Uma pausa. Estática. Então, a voz de Victoriana—tensa, mal controlada.
“Morrison está morto. Explosão bem-sucedida. Mas—” A voz dela falhou. “Eve e Gallinti foram pegos na explosão. Eles estão ambos críticos. Os Deltas estão—”
“Críticos.” A palavra parecia estranha na minha boca. Errada. “Defina críticos.”
“Trauma massivo. Perda de sangue. Eve está—” A respiração de Victoriana falhou. “As costas dela, Hades. O ferimento está—é ruim. Muito ruim. Os Deltas estão trabalhando nela agora, mas—”
“Estou indo.”
“Hades, você não pode—os frontes precisam—”
“Eu. Estou. Indo.”
Eu não esperei por uma resposta.
Eu me transformei no meio do passo—ossos estalando, asas irrompendo das minhas costas, a forma vampírica se rasgando em mim com uma violência que deveria ter doído, mas não doeu. Nada doía exceto o *gritar* no meu peito onde o laço estava.
Eu me lancei no ar.
O vento era brutal, rasgando meu rosto, minhas asas batendo com força suficiente para que meus ombros ardessem. Mas não era rápido o suficiente.
*Nada era rápido o suficiente.*
O vazio que me atormentava há horas se tornou um *uivo*—cru e agonizante, como se algo vital estivesse sendo esculpido de mim com uma lâmina cega.
O laço.
Eu ainda podia senti-lo. Fino. Desgastado.
Mal estava lá.
Mas *estava*.
Ela estava viva.
*Ela tinha que permanecer viva.*
Abaixo de mim, Alvorada surgiu à vista—um deserto marcado iluminado de vermelho pela Lua de Sangue. Fumaça ainda se erguia no centro da terra de ninguém, tingida de verde e tóxica. Corpos espalhados pelo chão. Soldados se moviam como fantasmas através do massacre.
E na borda do campo, a Tenda Delta brilhava com luz de cura.
Eu não me preocupei em pousar suavemente.
Eu caí do céu, asas se dobrando, voltando à forma de lobisomem antes que minhas botas tocassem o chão. O impacto enviou ondas de choque através das minhas pernas, mas eu já estava correndo.
“HADES!” Alguém gritou—um dos gammas, tentando me interceptar.
Eu passei por ele com um empurrão.
Outro soldado se posicionou na minha frente. “Alfa, os Deltas disseram—”
“*Saia do caminho.*”
Algo na minha voz o fez recuar. Ele saiu do caminho.
Eu alcancei a tenda e rasguei a aba da entrada para o lado.
A cena dentro me paralisou.
Eve estava deitada em um catre—ainda em forma de lobo, ferida demais para se transformar de volta. Seu enorme corpo negro estava coberto de sangue, seiva e cinzas. Deltas se amontoavam ao redor dela, mãos brilhando, vozes urgentes e sobrepostas.
Mas foi nas suas *costas* que minha visão se fixou.
Um ferimento aberto se estendia dos ombros à coluna—profundo o suficiente para que eu pudesse ver *osso*. Costelas. A borda de um pulmão se movendo sob o músculo rasgado.
“—a pressão sanguínea está caindo—”
“—precisamos de mais mãos aqui, ela não está estabilizando—”
“—mantenham a cura focada nos grandes vasos, se ela sangrar até a morte—”
Uma das Deltas—Kerra, reconheci vagamente—olhou para cima e me viu.
Seu rosto empalideceu.
“Alfa—”
“Quão ruim.” Minha voz era um sussurro rouco.
Kerra hesitou. “Ruim. O ferimento é—um dos piores que já vi. Estamos fazendo tudo o que podemos, mas—” Ela parou, os olhos se voltando para Eve. “Estamos curando soldados há horas. Nossas reservas de energia estão baixas. Mais Deltas estão vindo de outras frentes, mas—”
“Mas o quê.”
O maxilar de Kerra se apertou. “O tempo não está a nosso favor.”
Minhas pernas quase cederam.
Eu me movi para frente, passando pelos Deltas, e caí de joelhos ao lado da cabeça de Eve.
Cuidadosamente—muito cuidadosamente—levantei seu enorme crânio de lobo e coloquei-o no meu colo. Sua pele estava empapada de sangue. Sua respiração era superficial, difícil.
“Continuem trabalhando,” eu disse aos Deltas, minha voz áspera. “Não estou no caminho de vocês.”
Kerra assentiu e voltou-se para o ferimento, suas mãos brilhando mais enquanto despejava energia de cura na carne rasgada.
Passei minha mão sobre a cabeça de Eve, entre suas orelhas, sentindo o calor irradiando de seu corpo. Febre. Choque. Sua loba estava lutando, mas—
Algo *mudou* em meu peito.
Uma sensação de puxão. Como se algo estivesse sendo lentamente *drenado* de mim.
A Corrente de Fenrir.
O laço que nos unia—vida a vida, alma a alma.
Eu já tinha sentido isso antes, em momentos de perigo. Um puxão. Um aviso.
Mas isso—
Isso era *diferente*.
Não estava puxando. Estava *drenando*.
Minha força. Minha vitalidade. Fluindo para fora de mim e dentro de—
*Ela*.
O vínculo estava tentando mantê-la viva. Usando *mim* como reservatório.
Minha visão estava turva nas bordas. Meus membros estavam mais pesados.
“Alfa?” Um dos Deltas—um homem mais jovem que eu não reconhecia—estava me encarando. “Você está—”
“Estou bem,” eu disse. “Concentre-se nela.”
Mas eu não estava bem.
Eu podia *sentir* isso. Quanto mais ela se desvanecia, mais o vínculo puxava de mim. Tentando compensar. Tentando mantê-la ligada a este mundo.
Se ela morresse—
Se ela *morresse*—
O vínculo me levaria com ela.
Eu não me importava.
Que me levasse. Que me esgotasse completamente. Enquanto ela vivesse.
“Alfa.” A voz de Kerra estava tensa. “Tem algo mais.”
Eu olhei para cima.
A expressão dela estava angustiada.
“O que,” eu disse friamente.
Kerra olhou para os outros Deltas, depois de volta para mim. “Quando estávamos verificando os sinais vitais dela, encontramos—” Ela parou. Começou de novo. “Ela está grávida.”
O mundo parou.
“O quê.”
“Grávida,” Kerra repetiu, a voz mal acima de um sussurro. “No início. Talvez três, quatro semanas. Mas—” Ela hesitou. “Não é apenas um.”
Minha respiração parou.
“*Gêmeos*,” Kerra disse. “Ela está esperando gêmeos.”
Por um momento, eu não consegui falar.
Não conseguia *pensar*.
Eve estava—
Nós estávamos—
*Gêmeos.*
“Alfa.” A voz de Kerra cortou através da neblina. “Você precisa entender. O trauma que ela sofreu—a perda de sangue, a exposição ao Verdantin, o choque—o corpo dela está tentando se curar *e* sustentar dois filhotes em desenvolvimento. É—” Ela parou, as mãos tremendo. “É demais.”
“O que você está dizendo.”
Os olhos de Kerra estavam vidrados com lágrimas não derramadas. “Não somos fortes o suficiente. Não agora. Estamos curando soldados a noite toda—nossas reservas estão quase esgotadas. Mais Deltas estão a caminho, mas não chegarão por mais trinta minutos. Talvez mais.”
“Então você espera,” eu disse. “Você a estabiliza até que cheguem aqui.”
“Não podemos.” A voz de Kerra rachou. “Ela está desaparecendo rápido demais. Se esperarmos, perderemos todos os três.”
As palavras me atingiram como uma lâmina.
“Temos que escolher,” Kerra sussurrou. “Podemos salvá-la. Focar toda nossa energia restante em fechar o ferimento, estabilizar seus sinais vitais. Mas—” Ela parou, engolindo em seco. “Mas os filhotes não vão sobreviver. A pressão sobre o corpo dela—teríamos que priorizar a *cura* dela sobre a deles.”
O silêncio caiu.
Eu a encarei.
“Ou,” Kerra continuou, a voz tremendo, “tentamos salvar os filhotes. Mantê-los vivos tempo suficiente para que os reforços cheguem. Mas isso significa—” Ela parou. “Isso significa desviar energia do ferimento dela. E se os reforços não chegarem a tempo—”
“Ela morre,” eu terminei, minha voz oca.
Kerra assentiu, lágrimas escorrendo pelo rosto. “Sinto muito. Sinto muito, Alfa. Mas você tem que escolher. Ela—ou eles.”
A tenda estava silenciosa, exceto pelo som áspero da respiração de Eve.
Olhei para baixo, para ela.
Para minha esposa.
Sua forma lupina gigantesca, quebrada e sangrando em meu colo. Lutando tanto para se manter viva.
Carregando nossos filhos.
*Gêmeos.*
Duas vidas que nem sabiam que existiam ainda.
Duas vidas que eu nunca conheci. Nunca segurei. Nunca *soube*.
E ela.
Eve.
A mulher que lutou ao meu lado. Me desafiou. Me *mudou*.
A mulher que eu—
Fechei meus olhos.
Abri-os.
“Salvem minha esposa,” eu disse.
O fôlego de Kerra falhou. “Alfa—”
“*Salvem minha esposa*.” Minha voz estava firme. Definitiva. “Não me importa o que seja necessário. Foquem tudo o que têm *nela*. Vocês me entendem?”
“Os filhotes—”
“Eu sei.” Minha garganta estava apertada. “Eu *sei*. Mas se a perdermos, perderemos tudo. Os filhotes—” Eu parei, minha mão se apertando no pelo de Eve. “Os filhotes não têm chance sem ela. Então salvem *ela*. E esperamos—” Minha voz falhou. “Esperamos que seja suficiente.”
Kerra me encarou por um longo momento.
Então ela assentiu.
“Todos,” ela disse, a voz tremendo mas firme. “Foquem na Luna. Grandes vasos primeiro, depois reparo de órgãos, depois o ferimento. Vamos estabilizar *ela*. Entendido?”
Os Deltas se moveram como um só, suas mãos brilhando mais intensamente enquanto despejavam tudo o que tinham no corpo quebrado de Eve.
Eu fiquei ali sentado, a cabeça de Eve em meu colo, sentindo o vínculo me drenar.
Sentindo a vida dela tremeluzir como uma vela ao vento.