A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 504
Capítulo 504: Atlas
63:06:45
Égide
Os relatórios chegaram a Caín enquanto ele observava a linha da cidade do telhado. As ruas estavam silenciosas e desprovidas de qualquer movimento, finalmente, depois que ele fez seus homens hackearem todos os sinais de televisão para transmitir o estado das coisas e ordenou que as famílias e indivíduos estocassem comida e recursos necessários para as próximas setenta e duas horas, se não mais.
Houve pouca resistência por parte do povo. Eles simplesmente prezavam suas vidas o suficiente para obedecer. Caín estudou os relatórios, absorvendo tudo e armazenando-os em algum lugar para serem recuperados mais tarde.
O vento no telhado era mínimo, o ar apenas levemente frio. Não seria um problema para Ellen segurar-se.
Ele se virou e olhou para ela. Ela tinha os olhos abertos—olhos turquesa como sua irmã gêmea mais velha. Sua palidez não era grande, nem o olhar quase perdido em seu olhar.
Os braços dela estavam levantados, pressionados contra a antena parabólica como um maldito sacrifício. Caín cerrou os dentes, incapaz de engolir além do nó na garganta. Um sacrifício ela era—isso era tudo que ele conseguia ver.
Uma garota usada por um monstro para perpetuar alguns dos crimes mais atrozes, apenas para tentar usar seu corpo para proteger o resto das pessoas que seriam vítimas das tramas daquele monstro.
O nariz dela começou a sangrar novamente.
Caín cerrou a mão em um punho enquanto se dirigia a ela.
Esse seria o sexto sangramento nasal desde que tudo começou apenas dez horas atrás. Um dia ainda não havia passado.
O olhar dela se concentrou enquanto ele se aproximava, o olhar distante desaparecendo enquanto ele alcançava e limpava seu nariz e boca com um pano limpo.
Ela enrugou o nariz, fungando. “Estou bem.”
“Você está sangrando.”
“Um detalhe menor.”
Apesar de si mesmo, a boca de Caín se contraiu enquanto limpava o suor de sua testa. “A maioria das pessoas considera a perda de sangue um tanto significativa.”
“A maioria das pessoas não está segurando um inverno nuclear.” Ellen conseguiu algo que poderia ter sido um sorriso se seu rosto não estivesse tão pálido. “Eu sou especial.”
“Essa é uma palavra para isso.”
“Qual é outra?”
“Teimosa.” Ele dobrou o pano. “Imprudente. Insuportável.”
Ellen soltou uma risada fraca. “Você sabe como lisonjear uma mulher.”
“Dizem que é uma das minhas melhores qualidades.” Caín a estudou—o tremor nos braços dela, o jeito como seu maxilar continuava a se tensionar, o brilho de suor em sua testa apesar do frio. “Quão ruim está?”
“Não está.”
“Ellen.”
“Eu disse que estou bem.” Mas sua voz falhou na última palavra, e ela teve que cerrar os dentes para não gritar enquanto outra onda de dor percorria seu corpo.
Caín não disse nada por um momento. Apenas a observou—a maneira como ela se mantinha unida como vidro, como se uma palavra errada pudesse quebrá-la completamente.
“Você é bom nisso,” ele disse finalmente.
Os olhos de Ellen se voltaram para os dele, ainda turvos de dor. “Em quê?”
“Mentir. Fingir que está tudo sob controle quando não está.” Ele fez uma pausa, alcançando para limpar o sangue fresco escorrendo do nariz dela. “Eu reconheço isso porque faço a mesma coisa. Fazer uma piada. Desviar. Manter todos longe para que não vejam o quão perto você está de se quebrar.” Ele não sabia por que estava se abrindo agora, talvez houvesse algo no silêncio enquanto o mundo além das fronteiras da matilha lutava por sobrevivência.
Parecia o epílogo de um livro, sem mais presságios e segredos a serem revelados. Apenas sinceridade, tudo antes das cortinas finalmente caírem.
Talvez caíssem sobre eles sobrevivendo ou o oposto. Ele não tinha certeza. Mas, olhando para ela, não tinha certeza de que ela chegaria ao próximo volume da história. Ele não sabia por que uma pequena pressão insuportável havia começado a se acumular atrás de suas costelas.
Ellen o encarou, seus braços tremendo contra o prato, mesmo enquanto as garras de metal os mantinham ali.
Então sua boca se contorceu em algo amargo. “Bem. Pelo menos somos consistentes.”
“Consistentemente estúpidos, talvez.”
“Fale por você mesmo.”
“Estou falando.” Cain se aproximou, ainda segurando o pano no nariz dela. “Eu também sei como é quando alguém está prestes a desmoronar. E você está perto, Ellen. Está muito perto.”
Ela deu um leve solavanco.
“Então deixa acontecer,’ Cain disse calmamente. ‘Deixa você se desmoronar. Está tudo bem.”
Ellen franziu o nariz. “Eu não estou desmoronando.”
“Você está.”
“Eu não posso estar.” Sua voz quebrou, lágrimas escorrendo por suas bochechas mesmo enquanto seus braços permaneciam presos. “Se eu desmoronar, se eu—Cain, há milhares de pessoas lá embaixo. Milhares. E se eu deixar ir, se eu parar por um segundo sequer—”
“Eles vão morrer.”
Levou dez horas para ela desmoronar. Ela havia estado dissociando para manter sua sanidade — levando sua mente a outro lugar, um lugar onde ela não carregava a lua como Atlas. Tudo estava começando a amanhecer, ou talvez tivesse amanhecido há muito tempo, mas ela havia se mantido.
“Sim.” A palavra saiu estrangulada, e mais lágrimas caíram. “E eu não posso—eu não posso fazer isso. Eu não posso falhar com eles. Falhar com eles é pior do que morrer. É—” Ela interrompeu, seu corpo inteiro tremendo agora. “Deuses, eu não quero morrer.”
O peito de Cain apertou.
“Estou tão assustada,” Ellen sussurrou, sua voz quebrando enquanto lágrimas desciam por seu rosto. “Estou apavorada. Eu não quero morrer, mas se eu parar, se deixar pensar demais sobre isso, eu vou—eu vou perder. E eu não posso. Eu não posso perder. Eu tenho que segurar. Eu tenho que—”
“Ellen.” Cain se aproximou, suas mãos subindo para segurar o rosto dela — cuidadoso, gentil, sem puxá-la para longe do prato. “Olhe para mim.”
Seus olhos encontraram os dele, grandes e desesperados, lágrimas escorrendo livremente agora.
“Você não está falhando com ninguém,” ele disse calmamente, seus polegares limpando as lágrimas mesmo enquanto mais caíam. “Você me ouviu? Você está segurando. Você tem segurado por dez horas. Isso é mais do que qualquer um poderia pedir.”
“Não é suficiente—”
“É suficiente.” Sua voz era firme, sólida. “Você tem permissão para ter medo. Você tem permissão para chorar. Mas você não tem que carregar isso sozinha.”
O rosto de Ellen se contorceu, um soluço rasgando de sua garganta. “Eu não sei como não carregar isso sozinha.”
“Então deixe-me ajudar.” Cain manteve as mãos no rosto dela, ancorando-a, sua testa quase tocando a dela. “Você não precisa fingir comigo. Você não precisa ser forte a cada segundo. Chore se precisar. Quebre se precisar. Estou aqui. Não vou embora.”
Então Ellen quebrou.
Ela não podia enterrar o rosto no ombro dele. Não podia se afastar do prato. Não podia fazer nada além de ficar ali, braços travados acima dela, e soluçar — sons ásperos e dilacerantes que rasgavam seu peito.
Cain ficou perto, suas mãos ainda acariciando o rosto dela, seus polegares ainda limpando as lágrimas que continuavam caindo.
“Estou com você,” ele murmurou. “Estou aqui. Você não está sozinha.”
Ela chorou — um choro feio e desesperado — e ele apenas segurou seu rosto e a deixou chorar, limpando as lágrimas, mantendo-a conectada à realidade, mantendo-a ali.
“Estou tão cansada,” ela soluçou. “Estou tão cansada, Cain.”
“Eu sei.”
“Eu não posso — eu não posso continuar fazendo isso —”
“Sim, você pode.” A voz dele era firme. Certa. “Você pode. Porque você é mais forte do que pensa. E porque eu não vou deixar você cair.”
Os olhos de Ellen se apertaram, mais lágrimas escorrendo. “E se eu não puder?”
“Então eu estarei aqui para te segurar.” Cain encostou sua testa na dela — gentilmente, tomando cuidado para não perturbar sua posição. “Você não está mais fazendo isso sozinha. Você me ouviu? Você não está sozinha.”
A respiração de Ellen se interrompeu, e por um longo momento ela apenas ficou ali, chorando, com as mãos de Cain em seu rosto e sua testa pressionada contra a dela.
Lentamente, lentamente, os soluços se acalmaram.
Sua respiração se estabilizou.
E quando ela finalmente abriu os olhos, eles estavam vermelhos e inchados, mas mais claros do que antes.
“Melhor?” Cain perguntou suavemente.
A risada de Ellen foi molhada e quebrada. “Não. Mas… menos horrível.”
“Eu aceito.” Ele recuou apenas o suficiente para olhá-la propriamente, suas mãos ainda segurando o rosto dela. “Você está comigo?”
“Estou com você.”
“Bom.” Ele limpou o restante das lágrimas dela com os polegares. “Porque vamos superar isso. Você e eu. Juntos.”
Ellen o encarou por um longo momento, algo frágil e esperançoso cintilando em sua expressão.
“Ok,” ela sussurrou.
“Ok?”
“Ok.” Ela respirou fundo, os braços ainda travados acima dela. “Eu vou tentar não morrer. Por teimosia, se nada mais.”
“Teimosia funciona.”
“Bom. Porque é tudo o que me resta.”
Cain sorriu — pequeno, cansado, mas genuíno. “Então é com isso que vamos trabalhar.”
Ellen assentiu, e pela primeira vez em horas, ela parecia realmente acreditar nisso.
Cain ficou perto por mais um momento, então finalmente se afastou e tirou outro pano.
“Você está com sangue,” ele disse, apontando para o nariz dela.
Ellen franzia o nariz. “De novo?”
“De novo.”
“Fantástico.”
Cain estendeu a mão e limpou, seu toque cuidadoso. “Tente não sangrar demais, certo? Tenho uma reputação a manter.”
“Qual reputação?”
“Competente e devastadoramente charmoso.”
“Você está meio certo.”
“Eu aceito.” Ele se afastou, dobrando o pano. “Agora. Vamos falar de logística. Porque se vamos manter você viva e esta cidade intacta, precisamos de um plano.”
Ellen se endireitou ligeiramente, alguma de sua força retornando. “Que tipo de plano?”
“Do tipo onde você não morre e eu não tenho que explicar para sua irmã por que deixei isso acontecer.”
“Eve te mataria.” A maneira como ela disse isso fez Cain acreditar que ela não tinha certeza se sua irmã se importava a esse ponto.
Mas Cain sabia que se alguém pudesse amar Ellen apesar de tudo, seria Eve.
Eve havia amado Hades quando ele dividia seu corpo com uma entidade maligna.
“Devagar.” Ele disse.
“Muito devagar.”
“Então está decidido.” A expressão de Cain ficou séria. “Nós mantemos você viva. Não importa o que aconteça.”
Ellen o olhou — realmente o olhou — e assentiu.
“Não importa o que aconteça,” ela repetiu.
E ali, de pé, com os braços erguidos como uma espécie estranha de crucificação, lágrimas secando em suas bochechas, Ellen acreditou nele.
De muitas maneiras, ele se via em Ellen. O irmão mau, que era egoísta e astuto, mas se ao menos a história fosse assim tão simples.
Ellen tinha sido a mesma, a astuta mestra do caos, apenas para ser revelada como uma simples peão. Ela o intrigava, isso partia seu coração de uma maneira que apenas mulheres à beira da morte pareciam conseguir fazer.