A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 503
Capítulo 503: Canisters
(65 horas e cinquenta minutos)
65:50:00
Alvorada
O helicóptero à distância captou a atenção de Eve instantaneamente. Depois de esperar por quase quatro horas—coordenando a cura dos feridos com base na prioridade, registrando mortes, coletando corpos, marcando-os, e claro, reestrategizando com Victoriana sobre como iriam administrar o herbicida infundido com platina para máxima eficácia—eles finalmente haviam chegado.
Ela havia se tornado imune ao odor atroz da seiva que ainda cobria a terra de ninguém. Ela trocou um olhar sem palavras com Victoriana. Elas saíram do posto de comando, o relatório de baixas ainda pesando uma tonelada em sua mão.
O som ensurdecedor do helicóptero que se aproximava abafou os gemidos e uivos dos gamas feridos à medida que se aproximava.
Eve protegeu os olhos contra o vento descendente, observando o pássaro descer—cuidadosamente, precisamente, evitando as manchas de seiva que ainda borbulhavam e escorriam pela terra queimada. O piloto era bom. Tinha que ser, para pousar neste inferno.
Os esquis tocaram o chão a cinquenta metros de distância, e antes que os rotores parassem completamente, a porta lateral deslizou aberta.
Soldados emergiram—duas equipes de reforços frescos, armas prontas, olhos examinando a carnificina com horror mal disfarçado. Eles tinham ouvido falar sobre as vinhas de Morrison. Ouvir e ver eram coisas diferentes.
Atrás deles, carregados com cuidado, estavam as caixas.
O Verdantin.
Victoriana foi a primeira a se mover, caminhando em direção ao helicóptero com a eficiência de alguém que já fez isso milhares de vezes. Eve seguiu, o relatório de baixas ainda agarrado em sua mão.
Um dos soldados—um gamma sênior—deu um passo à frente e saudou. “Luna. Alto Gama. Trinta canisters como solicitado. Vinte em forma líquida, dez vaporizados para dispersão aérea.”
“Aéreo não é uma opção,” Victoriana disse friamente, apontando para os restos de um drone meio derretido em vinhas enegrecidas na borda do campo. “As vinhas destroem qualquer coisa que voe baixo o suficiente.”
“Entendido, senhora. Os canisters líquidos podem ser implantados manualmente ou através de lançadores terrestres.”
Eve assentiu, examinando as caixas. Cada canister tinha o tamanho de um extintor de incêndio, cinza fosco, com rótulos de advertência amarelos brilhantes: VERDANTIN – TÓXICO PARA MATÉRIA ORGÂNICA – MANUSEIE COM CUIDADO EXTREMO.
“Distribuam-nos,” Eve ordenou. “Prioridade para aqueles na linha de frente. Certifiquem-se de que entendam—rompam o lacre, miram nas vinhas, e fiquem contra o vento.”
“Sim, senhora.”
Os soldados se moveram rapidamente, levando caixas em direção à área de preparação onde as forças desgastadas da Alvorada estavam se reagrupando.
Eve virou-se em direção à tenda Delta—uma grande estrutura de lona perto da retaguarda, brilhando levemente com as barreiras de cura bioluminescentes dentro.
E lá, saindo para a luz vermelha da Lua de Sangue, estava Gallinti.
Ele parecia estranho. Pálido. Movendo-se rigidamente. Mas vivo.
O alívio atingiu Eve como um soco no peito.
Gallinti a viu e se endireitou, tentando disfarçar a careta. “Luna.”
“Gallinti.” Eve diminuiu a distância entre eles, seus olhos examinando-o. “Você ainda deveria estar descansando.”
“Estou bem,” ele disse, sua voz áspera. “Os Deltas me liberaram. Disseram que a seiva saiu do meu sistema.”
“Isso não significa que você está pronto para lutar.”
Seu maxilar se contraiu. “Com todo o respeito, senhora, minha divisão está mal se segurando. Eu não vou ficar deitado em uma tenda enquanto—”
Um estalo rachou o ar.
A cabeça de Eve se virou.
A cúpula de vinhas—a estrutura maciça e contorcida na qual Morrison havia se retirado horas atrás—estava se movendo.
Não afundando.
Expandindo.
“Abaixem-se!” Victoriana gritou.
Uma videira chicoteou — grossa como um tronco de árvore, coberta de espinhos do tamanho de adagas — e avançou em direção à tenda Delta.
Em direção aos feridos.
Em direção a Gallinti.
Eve não pensou.
Ela se transformou.
A mudança percorreu seu corpo em um instante — ossos estalando, músculos se expandindo, pele coberta de pelos negros. O mundo ficou mais nítido. Desacelerou.
E ela se moveu.
Sua enorme forma de lobo se lançou entre a videira e a tenda, as mandíbulas se fechando sobre um dos canisters de Verdantin no meio do salto. O metal do canister rangiu entre seus dentes—
—e ela colidiu com a videira.
O canister estourou como uma bolha, espalhando um líquido verde espesso sobre o tentáculo contorcido.
O efeito foi instantâneo.
A videira gritou, assim como as que estavam ao seu redor — um som que não deveria ser possível, agudo e agonizante — e começou a murchar. O verde ficou preto. Os espinhos se desfizeram. A carne encolheu, colapsando em si mesma como papel no fogo.
Em três segundos, as videiras estavam mortas, era como se uma das videiras espalhasse o Verdantin como uma doença.
Eve pousou em um agachamento, o canister destruído caindo de suas mandíbulas, ela se sentiu tonta por um segundo.
Atrás dela, os soldados encaravam.
“Funciona,” Victoriana respirou.
Então a cúpula explodiu.
Videiras irromperam em todas as direções — dezenas delas, centenas, uma floresta contorcida de morte espinhosa. E, em pé no centro, atravessando a carnificina como um rei inspecionando seu domínio, estava Morrison.
Mas ele não estava sozinho.
Os dois gamas distorcidos o flanqueavam — coisas monstruosas e deformadas que quase não pareciam humanas. Sua pele tinha um tom esverdeado, veias inchadas de preto sob a superfície. Seus olhos estavam vazios. Mortos. Completamente.
Seja o que for que aconteceu quando eles foram protegidos naquela cúpula…
Eles estavam crescendo.
Videiras brotavam de suas costas, de seus braços, de suas bocas, transformando-os em pesadelos ambulantes.
“Verdantin!” Eve rugiu — ou tentou. Saiu como um uivo que sacudiu o ar.
Soldados se agitaram, pegando canisters, quebrando selos. Líquido espirrou. Videiras murcharam. O campo de batalha virou caos — gamas se esquivando, cortando, afogando videiras em herbicida enquanto os soldados distorcidos de Morrison avançavam.
Eve voltou à forma humana, pegou dois canisters e correu.
Victoriana já estava em combate, transformando apenas as mãos e se movendo entre as videiras, pulverizando Verdantin como havia sido treinada para fazer. Um dos gamas distorcidos avançou sobre ela — ela se esquivou, cortou sua garganta e o cobriu com herbicida.
Ele desabou, convulsionando, videiras murchando de seu corpo enquanto morria.
“Foco de fogo nas plantas!” Victoriana gritou. “Os gamas são secundários!”
Mas as videiras continuavam vindo.
E então Morrison se moveu.
Ele não avançou. Não atacou.
Ele levantou a mão — e as videiras responderam.
Elas convergiram para ele, enrolando-se em seus braços, suas pernas, seu torso. Ele gritou — não de dor, mas de êxtase — enquanto sua pele começava a mudar.
Tornando-se verde.
“Não,” Eve sussurrou.
O corpo de Morrison convulsionou. Seus músculos inchavam. Espinhos surgiram de seus ombros, sua coluna. Seus olhos ficaram negros, depois verdes, brilhando com uma luz doentia.
Ele estava se tornando as vinhas.
“Matem-no!” Gallinti rugiu, disparando tiro após tiro no corpo em transformação de Morrison.
As balas acertaram. Afundaram na carne verde.
Morrison riu.
E então ele atacou.
Vinhas explodiram de seu corpo — mais espessas, mais rápidas, mais fortes do que antes. Elas se moviam com inteligência, desviando dos sprays de Verdantin, esmagando soldados, caçando.
Eve desviou, rolou, levantou borrifando. Uma vinha murchou. Outra ocupou seu lugar.
“Estamos acabando!” alguém gritou.
O coração de Eve afundou.
Ela olhou para a área de preparação. As caixas estavam quase vazias.
Quatro cilindros restantes.
De trinta.
“Recuar!” Victoriana gritou. “Reagrupar na linha secundária!”
Soldados recuaram, arrastando feridos, cobrindo uns aos outros. Eve e Victoriana seguravam a retaguarda, borrifando o resto de seu Verdantin para manter as vinhas afastadas.
Morrison avançava lentamente, sua forma verde imponente, vinhas serpentando ao seu redor como uma coroa.
“Vocês não podem vencer,” ele disse, sua voz distorcida, ecoando. “Eu sou a floresta agora. Eu sou inevitável.”
Eve levantou seu último cilindro.
Morrison sorriu.
E então ele parou.
As vinhas recuaram, se enrolando ao redor dele, formando uma nova cúpula — mais espessa desta vez, em camadas, impenetrável.
“Outra vez, Luna,” sua voz ecoou de dentro. “Outra vez.”
A cúpula se solidificou.
E ficou imóvel.
—
63:20:00
O silêncio caiu sobre o campo de batalha.
Eve estava ofegante, coberta de seiva e sangue, o cilindro vazio em sua mão.
Ao seu redor, soldados desabavam, exaustos. Alguns choravam. Alguns apenas olhavam.
Victoriana apareceu ao seu lado, respirando com dificuldade. “Nós seguramos.”
“Mal,” Eve disse.
“Ainda é uma resistência.”
Eve olhou para a cúpula de vinhas. Estava menor desta vez — Morrison havia recuado, conservado suas forças.
Inteligente.
“Ele vai voltar,” Eve disse em voz baixa.
“Eu sei.”
“E estamos quase sem Verdantin.”
A mandíbula de Victoriana se apertou. “Vamos pensar em algo. Sempre pensamos.”
Eve queria acreditar nisso.
Mas sua cabeça estava girando. O mundo inclinou ligeiramente, apenas por um momento.
Ela se firmou, forçou suas pernas a se estabilizarem.
Adrenalina. Apenas adrenalina esgotando.
“Eve?” A mão de Victoriana estava em seu braço. “Você está bem?”
“Estou,” Eve disse rapidamente. “Só cansada.”
Victoriana não parecia convencida.
Mas antes que ela pudesse insistir, Gallinti se aproximou, mancando, seu rosto pálido. “Baixas?”
“Ainda não sei,” Eve disse. “Mas não tantas quanto antes. O Verdantin nivelou o jogo.
Gallinti assentiu, sua expressão ainda sombria. “Precisamos nos reagrupar. Estabelecer um novo perímetro. Estabilizar os feridos.”
“Concordo.” Eve se forçou a focar. “Victoriana, coordene com os Deltas. Gallinti, retire quem está na linha há mais de quatro horas. Vamos rodar agora, antes que ele volte.”
Ambos assentiram e se afastaram.
Eve ficou sozinha por um momento, balançando ligeiramente.
A tontura estava piorando.
Ela pressionou uma mão contra sua têmpora, forçou-se a respirar.
Não agora. Ainda não.
Ela acionou seu comunicador. “Alvorada para Comando. Segundo confronto com Morrison. Seguramos, mas a um custo. Verdantin efetivo, mas quase esgotado. Mas vamos encontrar um jeito.” Ela observou a divisão de Morrison através da terra de ninguém.
A voz de Hades crepitou em resposta. “Entendido. Quão ruim?”
Eve olhou para os corpos. O sangue. Os soldados mal se mantendo em pé. Poderia ter sido pior.
“Ruim,” ela disse em voz baixa. “Mas conseguimos segurar.”
“Mantenham a linha, Vermelho. Reforços estão a caminho.”
“Cópia. Alvorada desligando.”
Eve abaixou a mão.
O mundo inclinou novamente.
Ela rangeu os dentes e caminhou em direção ao posto de comando.
Um pé na frente do outro.
Ela poderia descansar depois.
Depois que Morrison estivesse morto.