A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 498
Capítulo 498: Cipós Retorcidos
71:45:23
Alvorada
Os olhos de Gallinti estavam fixados na terra de ninguém, a poeira assentada, calma antes do caos. O inimigo estava do outro lado, a névoa vermelha que havia tomado o mundo não tinha consequência sobre nossa posição.
Simplesmente não estava lá.
Mas os gammas de Darius estavam, neste caso. Seus monstros criados; ferais.
Então aconteceu.
O primeiro selvagem rompeu a linha das árvores.
Não cautelosamente. Não com estratégia. Simplesmente investiu—uma massa enorme de músculos retorcidos e raiva, seus olhos queimando vermelhos na luz da Lua de Sangue. Seu rugido rasgou a noite, primitivo e bruto.
E atrás dele vieram os outros.
Dezenas.
Centenas.
Uma maré viva de dentes e garras e fome insaciável, saindo da escuridão como uma peste liberada. Eles não se moviam como soldados. Eles se moviam como um enxame—caótico, selvagem, implacável.
Gallinti não vacilou.
“Firme,” disse ele em seu comunicador, sua voz calma. Quase entediada. “Deixem eles fechar a distância.”
Ao redor dele, seus soldados mantinham suas posições ao longo da linha defensiva—uma série de barreiras reforçadas e trincheiras cavadas na terra queimada da terra de ninguém. Não havia floresta aqui. Sem cobertura. Sem armadilhas.
Apenas terreno aberto.
E era exatamente assim que Gallinti queria.
Os ferais avançaram pelo campo desolado, suas garras rasgando a terra, seus uivos ecoando pela extensão. Duzentos metros. Cento e cinquenta. Cem.
Gallinti levantou a mão.
Seus soldados se tensionaram, dedos nos gatilhos.
Setenta e cinco metros.
Cinquenta.
“Atirem,” Gallinti disse.
A linha irrompeu.
Tiros automáticos rasgaram a noite—um rugido contínuo e ensurdecedor de chumbo e fúria. Munições traçantes iluminaram a escuridão em faixas de verde e vermelho. A primeira onda de ferais foi abatida instantaneamente, corpos sacudindo e colapsando no meio da corrida enquanto balas rasgavam carne e osso.
Mas mais vinham.
Eles pisoteavam sobre seus caídos, movidos por instinto e raiva, fechando a distância mesmo enquanto seus números diminuíam. Trinta metros. Vinte.
“Granadas,” Gallinti ordenou.
Seus soldados puxaram os pinos e lançaram-nas em arcos sincronizados. Os explosivos aterrissaram em grupos—bum, bum, bum—e detonaram em rápida sucessão, enviando ondas de choque e estilhaços rasgando a horda.
Membros voaram. Sangue espalhou. Os ferais gritaram.
Mas ainda assim eles vinham.
Dez metros.
“Abrace!” Gallinti gritou.
O primeiro selvagem alcançou a barreira e pulou—a besta maciça e feroz que atravessou os sacos de areia em um único salto. Ele pousou na trincheira, mandíbulas estalando—
—e Gallinti disparou três tiros em seu crânio antes que pudesse dar um passo.
Ele desabou aos seus pés, tremendo.
Então o resto atingiu.
A linha se tornou uma luta corpo a corpo—próxima, brutal, desesperada. Ferals derramavam sobre as barreiras, arranhando e mordendo. Soldados os enfrentavam com baionetas e facas de combate, com coronhas de rifles e pura desesperação. A trincheira se tornou um matadouro, escorregadia de sangue e lama e os sons úmidos de carne sendo rasgada.
Gallinti se movia por isso como uma máquina. Ele disparava até seu carregador esvaziar, recarregava sem olhar, disparava novamente. Um selvagem avançou sobre ele pelo lado; ele desviou, enfiou sua faca em sua garganta, empurrou-o de volta para a horda. Outro veio por cima; ele atirou no meio do salto, e ele desabou sobre o soldado ao seu lado.
“Segurem a linha!” ele rugiu. “Não quebrem a formação!”
Seus soldados se reagruparam, formando uma parede mais firme de aço e balas. Eles lutavam em pares—um atirando, outro cobrindo, revezando conforme necessário. Era caos, mas era um caos controlado. Disciplinado. Treinado.
Um selvagem irrompeu pelo flanco esquerdo. Gallinti o viu de relance—rápido demais, perto demais. Ele atacou um jovem soldado, as mandíbulas indo em direção ao seu pescoço—
Gallinti estava lá num instante. Ele agarrou o selvagem pela nuca, puxou-o para fora, e esvaziou metade de um carregador em sua espinha. Ele ficou imóvel.
O soldado arfou, de olhos arregalados. “Senhor—”
“Levante-se,” Gallinti rebateu. “Você ainda não está morto.”
O soldado se levantou, reentrando na linha.
Gallinti examinou o campo de batalha. Os selvagens estavam diminuindo agora—a maioria deles mortos ou morrendo, seus corpos amontoados em pilhas grotescas pela terra de ninguém. Alguns retardatários ainda avançavam, mas eram facilmente eliminados por seus atiradores de elite.
O ataque estava sendo contido.
“Cessar fogo!” Gallinti ordenou. “Conservem munição! Médicos, triagem nos feridos!”
O tiroteio diminuiu, substituído pelos gemidos dos feridos e pela respiração molhada e trabalhosa dos selvagens moribundos.
Gallinti avaliou a carnificina.
Sua linha tinha resistido.
Por pouco.
“Baixas?” ele perguntou ao seu tenente.
O homem conferiu seu tablet, seu rosto sério. “Doze mortos. Vinte e três feridos, sete em estado crítico.”
A mandíbula de Gallinti se contraiu. Doze. Nos primeiros dez minutos.
E isso foi apenas o início.
Ele ativou sua comunicação. “Alvorada para Comando. Primeira onda repelida. Ataque dos selvagens neutralizado. Tivemos perdas.”
A voz de Hades surgiu, firme, mas tensa. “Entendido. Estado da linha de defesa?”
“Segurando,” disse Gallinti. “Mas gastamos um terço de nossa munição. Se Darius enviar outra onda assim—”
“Ele vai,” disse Hades. “Reforços estão a caminho. ETA vinte minutos.”
Vinte minutos.
Gallinti olhou para a terra de ninguém. Os corpos dos selvagens já começavam a apodrecer no calor da Lua de Sangue, o fedor subindo em ondas. Moscas estavam se juntando.
E além dos cadáveres, na escuridão do outro lado do campo, ele podia ver movimento.
Assinaturas de calor. Centenas delas.
Não eram selvagens desta vez.
Soldados.
“Comando,” Gallinti disse calmamente. “Temos aproximação. Assinaturas humanas. Parece que Darius está enviando seus regulares.”
Uma pausa.
“Você pode segurar?” Hades perguntou.
Gallinti olhou para seus soldados—exaustos, ensanguentados, recarregando suas armas com mãos trêmulas. Eles tinham acabado de sobreviver a um ataque selvagem. Agora tinham que enfrentar soldados treinados.
Em campo aberto.
Sem cobertura.
“Vamos segurar,” disse Gallinti. “Não temos escolha.”
“Bom. Alvorada, você está autorizado a recuar para posições secundárias se a linha for comprometida. Não os deixe passar para as cúpulas.”
“Entendido. Alvorada desligando.”
Gallinti abaixou sua comunicação e se virou para seus soldados.
“Ouçam!” ele gritou. “Aquilo foi o aquecimento. Darius está enviando soldados de verdade agora—treinados, armados e furiosos. Temos vinte minutos para reforçar, recarregar e nos preparar. Eu preciso de cada corpo apto na linha. Feridos ficam na trincheira de trás. Os mortos…” Ele pausou. “Vamos honrá-los quando isso acabar. Agora, nós lutamos.”
Um coro de afirmativas exaustas ecoou de volta.
Gallinti pegou uma pá e começou a reforçar os sacos de areia ele mesmo.
Porque em vinte minutos, a verdadeira batalha iria começar.
E Alvorada iria resistir.
Ou morrer tentando.
—-
69:32:17
Alvorada
Duas horas.
Duas horas de silêncio tenso, quebrado apenas pelos gemidos dos feridos e os comandos silenciosos dos Deltas enquanto se moviam pelas trincheiras, mãos brilhando com energia de cura. Duas horas verificando munição, reforçando barreiras e tentando não olhar para a fila de corpos colocados atrás da linha—doze soldados, seus rostos cobertos com lonas, placas de identificação coletadas.
Doze nomes que Gallinti teria que lembrar.
Ele estava na posição avançada, escaneando a terra de ninguém através de sua luneta. Os corpos selvagens ainda estavam lá, apodrecendo sob o calor da Lua de Sangue. Moscas deram lugar a aves de rapina, circulando preguiçosamente acima.
Mas além dos corpos, a escuridão estava imóvel.
Imóvel demais.
Os instintos de Gallinti arrepiaram.
“Movimento,” disse um de seus observadores em voz baixa. “Lado oposto. Múltiplos contatos.”
Gallinti ajustou sua luneta.
Lá.
Uma linha de figuras emergindo da linha de árvores—não avançando desta vez, mas caminhando. Devagar. Deliberadamente. Confidentemente.
Soldados.
“Todas as unidades,” disse Gallinti em seu comunicador, sua voz firme. “Forças inimigas se aproximando. Mantenham o fogo até meu sinal.”
Seus soldados se tencionaram, armas apontadas para a linha avançando.
As figuras se aproximaram—cinquenta metros, quarenta, trinta—e Gallinti podia distinguir os detalhes agora. Equipamento tático de Silverpine. Rifles padrão. Movendo-se em formação.
Profissionais.
Mas algo estava errado.
Seus olhos se estreitaram.
Na frente da formação caminhava uma única figura—alta, de ombros largos, usando uma máscara de combate preta. Flanqueando ele de cada lado estavam outros dois, mas se moviam… estranhamente. Rigidamente. Como marionetes em cordas.
Gallinti deslocou sua luneta para as figuras flanqueadoras e sua respiração prendeu.
Que diabos—
Eles não eram mais bem humanos.
Sua pele tinha um tom esverdeado, manchada e áspera como casca. Seus cabelos não eram cabelos, eram cipós, grossos e torcidos, caindo por suas costas. Seus dedos terminavam não em unhas, mas em pontas afiadas, de madeira, que pareciam mais espinhos do que qualquer coisa real.
E seus olhos.
Deuses, seus olhos.
Vazios. Ausentes. Perdidos.
Gammas. Tinha de ser. Mas distorcidos. Transformados em algo diferente. Algo antinatural.
O estômago de Gallinti virou.
“Mantenham posição,” disse ele calmamente, forçando sua voz a permanecer calma mesmo enquanto o desconforto subia por sua espinha. “Esperem por meu comando.”
O líder mascarado parou a vinte metros da linha.
Seus soldados pararam atrás dele em perfeita sincronização.
O silêncio caiu sobre o campo de batalha.
Então o líder ergueu a mão e tirou sua máscara.
O sangue de Gallinti gelou.
Morrison.
Embaixador Morrison—o homem que havia sentado nas mesas de conselho deles, que havia sorrindo e apertado mãos e jurado lealdade. O homem que havia vendido os segredos de Obsidian para Darius. O traidor.
Ele parecia diferente agora. Mais magro. Mais duro. Seus traços aristocráticos outrora suaves haviam se tornado algo cruel. Mas era inconfundivelmente ele.
Morrison sorriu—amplo e presunçoso, como um homem que já havia vencido.
“Gallinti,” ele chamou, sua voz se propagando facilmente pela distância. “Faz tempo.”
Gallinti não disse nada, seu rifle treinado no peito de Morrison.
Morrison abriu os braços numa paródia de boas-vindas. “Ainda o soldado silencioso, vejo. Tudo bem. Eu falo. Você escuta.” Ele gesticulou para a carnificina ao redor deles—os corpos selvagens, as trincheiras ensanguentadas, os soldados exaustos. “Olhe para isso. Toda essa morte. Todo esse sofrimento. E para quê?”
“Bastardo traidor,” alguém murmurou atrás de Gallinti.
O sorriso de Morrison se alargou. “Traição? Não, não. Eu prefiro o termo pragmatismo. Obsidian está morrendo. Será esmagado sob o calcanhar de Malrik, Gallinti. Você sabe disso. Eu sei disso. Hades sabe disso. Esta guerra? Não se trata de território ou orgulho. É sobre sobrevivência. E Darius? Ele está oferecendo algo que Hades nunca poderia.”
“Paraíso,” Morrison continuou, seu tom quase conversacional. “Segurança. Prosperidade. Um futuro sem derramamento de sangue. Tudo o que você precisa fazer é se submeter. Depor suas armas. Jurar fidelidade a Darius. Ele é magnânimo, Gallinti. Ele perdoará. Ele te receberá.”
A expressão de Gallinti não mudou.
“Não?” Morrison inclinou a cabeça. “Ainda leal ao lado perdedor? Quão nobre. Quão estúpido.”
O dedo de Gallinti se moveu para o gatilho.
“Mudança,” ele disse baixinho em seu comunicador. “Prepare-se para engajar no meu…”
Morrison levantou uma mão de forma preguiçosa.
O chão explodiu.
Vines—grossas, espinhosas, vivas—irromperam do solo como serpentes, rasgando através da terra e rocha. Elas se moveram com velocidade impossível, atacando em todas as direções. Soldados gritaram alarmados, tentando desviar, mas as vinhas estavam em todo lugar.
Uma se enrolou em torno da garganta de Gallinti.
Ele engasgou, deixando cair seu rifle enquanto a vinha o puxava do chão, erguendo-o no ar. Os espinhos cravaram em sua pele, causando sangramento. Ele tentou arrancá-la, mas era como tentar rasgar um cabo de aço.
“Não adianta,” Morrison disse, se aproximando. Sua voz estava calma. Quase entediada. “Você não pode lutar contra o que não entende.”
Gallinti lutava, sua visão começando a ficar borrada nas bordas. Ao seu redor, seus soldados estavam embaraçados nas vinhas, presos, incapazes de se mover. Os dois gammas retorcidos flanqueando Morrison estavam imóveis, seus olhos vazios mirando o nada.
Morrison parou a alguns pés de distância, olhando para cima em direção a Gallinti com aquele mesmo sorriso irritante.
“Isto é o que Darius oferece,” ele disse. “Poder. Poder real. Não as palavras ocas de reis e conselhos, mas a habilidade de remodelar o mundo.” Ele gesticulou para os gammas. “Esses dois? Eles foram soldados de Obsidian uma vez. Leais. Corajosos. Estúpidos. Agora são meus. Extensões da minha vontade. E em breve—” ele olhou fixamente para os soldados lutando de Gallinti, “—você será também.”
A mão de Gallinti procurava em seu cinto, dedos buscando, encontrando—
—a faca de combate presa à sua coxa.
Morrison não percebeu.
“Última chance, Gallinti,” Morrison disse. “Submeta-se. Sirva a Darius. Viva. Ou resista—” seu sorriso ficou frio, “—e torne-se fertilizante para o meu jardim.”
Os dedos de Gallinti se fecharam em torno do cabo da faca.
Ele olhou Morrison diretamente nos olhos.
E com o último de sua força, ele arrancou a faca livre e golpeou para cima, cortando a vinha enrolada em sua garganta.
Ele caiu no chão, ofegante, sangue escorrendo dos cortes em seu pescoço.
O sorriso de Morrison desapareceu.
“Mate-o,” ele disse friamente.
Os dois gammas retorcidos se moveram, grandes vinhas se separando de seus corpos, correndo em direção a Gallinti e seus homens.
O lobo de Gallinti rasgou sua frágil carne, pele escura explodindo nas costuras da pele, unhas se transformando em garras até que ele ficou inteiro como um lobo pronto para lutar contra criaturas que ele não entendia.