A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 490
Capítulo 490: Proteção
Eve
Ellen estava tremendo violentamente agora. Sangue escorria de seu nariz, descendo pelo queixo, pingando sobre sua roupa. Seus olhos queimavam dourados, desumanos.
“Setenta por cento,” Thea disse, sua voz mal audível.
Eu não conseguia assistir isso. Eu não conseguia—
Mas eu não conseguia desviar o olhar também.
A radiação era um furacão agora. A câmara tremia. Alarmes soavam. A barreira oscilava, ondulando como água sob pressão.
Ellen caiu de joelhos.
“PAREM!” Eu gritei. “PAREM O TESTE!”
“Eve—” Hades tentou me segurar.
“PAREM AGORA!”
“Luna, ela não apertou o botão—” Thea começou.
“NÃO ME IMPORTO! TERMINEM!”
A voz de Ellen cortou o caos, transmitida pelos alto-falantes. Rouca. Quebrada. Mas feroz.
“Não.”
Eu congelei.
“Não se atreva a parar,” Ellen ofegou, agora o sangue escorrendo de seu nariz, manchando seu vestido. “Eu posso—eu posso fazer isso—”
“Ellen, por favor—”
“Oitenta por cento,” Ellen disse, olhando para mim através do vidro. Seus olhos ainda brilhavam, ainda dourados, ainda desumanos. “Faça.”
Thea olhou para mim.
Eu estava chorando. Quando comecei a chorar?
“Faça,” Ellen repetiu.
A mão de Thea pairava sobre os controles.
“Faça,” eu sussurrei, me odiando.
Thea entrou com o comando.
A câmara explodiu com luz.
A radiação era uma coisa senciente agora, uma besta tentando devorar tudo em seu caminho. Ela se chocou contra a barreira novamente e novamente e novamente—
E Ellen a segurou.
Seu grito era contínuo agora, um som interminável de agonia e vontade. Sangue escorria de seu nariz, seus ouvidos, seus olhos. Seu corpo convulsionava.
Mas a barreira resistia.
“Noventa por cento,” Maya sussurrou.
“Não—” Eu disse, sem fôlego.
“Teste final,” Thea disse, sua voz tremendo. “Cem por cento. 200% da intensidade natural calculada da Lua de Sangue.”
“Não—”
O comando já tinha sido inserido.
O mundo ficou vermelho.
A radiação encheu cada centímetro da câmara, uma parede sólida de morte. Deveria tê-la matado instantaneamente. Deveria tê-la despedaçado ao nível celular.
Ellen estava brilhando agora—seu corpo inteiro impregnado de luz dourada, igualando a tempestade carmesim. Ela se ergueu, de alguma forma, levantando-se dos joelhos. Sua mão restante se abriu diante dela. Sua boca aberta em um grito silencioso.
E a barreira resplandeceu.
“Intensidade total repelida,” Maya disse, sua voz se quebrando. “Cem por cento. Ela está fazendo isso. Ela realmente está fazendo isso.”
O deque de observação irrompeu.
Mas tudo o que eu podia ver era minha irmã, queimando-se viva para provar que poderia salvar setenta mil vidas.
O cronômetro na parede avançava.
Um minuto.
Cinco minutos.
Dez minutos.
Ellen estava no centro daquele inferno, imóvel, inquebrável.
Quinze minutos.
Vinte minutos.
O nariz dela ainda estava sangrando. Os ouvidos ainda estavam sangrando. Mas a barreira nunca vacilou.
Vinte e cinco minutos.
“Quase lá,” Thea sussurrou.
Vinte e oito minutos.
Vinte e nove.
Trinta.
“Desligando a simulação,” Maya disse, e suas mãos tremiam enquanto digitava o comando.
A radiação desapareceu.
A câmara ficou escura.
Ellen desabou.
“ELLEN!” Eu estava correndo antes de poder pensar, Hades logo atrás de mim, disparando para o acesso à câmara.
As portas se abriram. Equipes médicas correram para dentro.
Eu cheguei a ela primeiro.
Ela estava inconsciente, sangue cobrindo seu rosto, seu vestido encharcado. Mas seu peito subia e descia. Ela estava respirando.
“Ellen,” eu soluçava, apoiando sua cabeça no meu colo. “Ellen, por favor—”
Os olhos dela piscaram. O dourado estava voltando ao azul.
“Eu—” ela engasgou. “Eu consegui?”
“Sim,” eu engasguei. “Sim, você conseguiu. Você segurou por trinta minutos. Você conseguiu.”
Ellen sorriu—fraca, exausta, triunfante.
“Bom,” ela sussurrou. “Então eu posso salvá-los.”
E ela desmaiou nos meus braços.
—-
Setenta e dois por cento das nossas forças haviam recebido a vacina, e mais estavam recebendo nesse exato momento. Até o final da semana, todos seriam injetados — incluindo os patrulheiros da Rebelião Eclipse que estavam se juntando à luta.
Do que discutimos após o teste de escudo de Ellen, a estratégia elaborada pela Alta Gama Victoriana era que a própria Ellen precisaria de escudos e espadas. Isso tomaria a forma de uma brigada posicionada ao redor do centro do escudo, onde Ellen estaria fazendo a parte difícil — mantendo a radiação afastada e longe dos civis.
A brigada seria liderada por um coronel cujo trabalho seria garantir que Ellen não fosse atacada e defender a torre de assaltos. A missão final era garantir que Darius, frustrado por seu povo não estar sendo morto pela radiação como planejado, não pudesse enviar gammas para começar um genocídio atacando os civis que Ellen estava tentando salvar.
Cain se voluntariou para ser o coronel no comando. Victoriana propôs três camadas: O anel interno, eles seriam a proteção direta dela, um pouco estacionários com uma equipe médica. O anel externo, eles seriam a espada, na ofensiva para interceptar ameaças ao redor de Ellen. E, finalmente, as forças móveis, que neutralizariam qualquer ataque das forças de Darius que pudessem tentar neutralizar os civis dentro da zona de escudo.
Todos eles seriam coordenados pelo Coronel Cain e seu segundo no comando, Tenente-Coronel Freddie, como o próprio Cain propôs. Era o melhor plano possível que poderia ter sido elaborado para a missão em Silverpine.
Nome de código: Égide. Significava escudo.
Um escudo para Ellen e o povo.
Ellen finalmente despertou, os lábios se abrindo. Quando ela viu meu rosto, sorriu — apenas para seu rosto desmoronar.
“Funcionou,” ela disse suavemente, se sentando. “Podemos salvá-los.”
Eu assenti. Isso foi tudo que eu fiz.
Olhos turquesas como os meus, cabelo vermelho e uma boca teimosa. Eu queria memorizar seu rosto, mesmo se fôssemos gêmeas idênticas.
Ela falou novamente, incerta. “Você algum dia me perdoará?”
Minhas lágrimas instantaneamente me cegaram, mas minha resposta veio rápida e afiada como um chicote.
“NÃO. Eu não vou te perdoar.”
Os olhos dela se arregalaram, lábios tremendo enquanto suas lágrimas caíam.
Eu alcancei e as enxuguei.
“Eu não vou te perdoar,” eu reiterei. “A menos que você volte para mim. A menos que você lute por sua vida como luta pelos outros. Você manterá os olhos abertos. Você forçará seu coração a continuar batendo, não importa o quanto queira desistir. Você não vai morrer e chamar isso de redenção. Você vai viver — e merecer isso. Você voltará para mim. E então eu prometo a você, eu juro pelas vidas de tudo que eu amo e valorizo, que eu vou te perdoar.”
“Eve…” ela choramingou.
Mas eu a interrompi. “Essa é minha condição, Ellen. Tudo que você precisa fazer é voltar para mim.”
Os olhos dela procuraram os meus, desesperadamente procurando a mentira — o truque — mas quando não encontrou nenhum, ela assentiu.
Eu sorri então, triste e pesado com o peso do meu egoísmo e minha incapacidade de deixá-la ir.
Inclinei minha cabeça e depositei um beijo em sua testa.