A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 324
Capítulo 324: Ressonância
Este capítulo é bastante técnico no lore e pode ser confuso.
Eve
Kael não me respondeu de imediato.
Seus olhos estavam fixos no chão de pedra como se ele o tivesse traído. Sua boca abriu, fechou, abriu novamente. E então ele riu.
Um único, quebrado sopro de som.
“Deuses,” ele sussurrou. “Não foi apenas uma coincidência estranha.”
As palavras fizeram os pelos do meu pescoço se arrepiar.
“O que não foi?” perguntei, com o pulso acelerado. “Kael, do que você está falando?”
Ele passou a mão pelo rosto, então olhou para mim—olhou para Elliot—e o peso em seu olhar quase fez meus joelhos cederem.
“É o que ele disse enquanto dormia,” Kael disse baixinho. “Não era apenas o pedido. Era o nome.”
“Que nome?”
Ele hesitou.
Então: “Nox.”
O nome ecoou no ar como uma maldição.
Pisquei, confusa. “Quem—?”
“O vira-lata de Hades,” Kael disse. “De quando ele era menino. Antes do treinamento, antes dos rituais, antes de o Fluxo realmente despertar nele. Era a única coisa que ele amava.”
Senti algo frio deslizar pelas minhas veias.
“Nox era tudo o que ele tinha,” Kael disse. “E seu pai sabia disso. Então, quando Hades se recusou a seguir um de seus primeiros comandos—matar e comer Nox—seu pai fez isso por ele. Bem na frente dele. Disse que misericórdia era uma fraqueza, e que toda fraqueza devia ser consumida.”
Minha respiração parou.
“E Elliot… disse o nome dele?”
Kael assentiu.
“Isso não é tudo,” ele continuou, a voz ecoando. “Ele mencionou um teste. Que ele passou. Mas ainda não havia torta.”
Eu o encarei.
“Torta,” Kael repetiu, estremecendo. “Isso era a coisa favorita de Hades quando criança. Sua mãe fazia. Canela e ameixa. Antes de ela desaparecer. Antes de ela ser—” Ele se interrompeu. “Hades costumava dizer, quando era pequeno, ‘Se eu passar no teste, talvez eu ganhe torta.'”
Meu coração se partiu.
“Ele também falou sobre um lugar frio,” Kael acrescentou. “Disse que o chão era duro. Que ele não conseguia dormir porque as luzes não se apagavam.”
Meu estômago se revirou.
“Ele estava falando sobre a Sala Negra,” Kael sussurrou. “Onde Hades foi levado quando o Fluxo começou a se estabilizar. Onde ele foi levado à fome, testado, quebrado.”
Ele olhou novamente para Elliot.
“Isso não é apenas energia herdada. É memória. Ecos. O Fluxo não está dormente nele, Eve. Está ativo. Ouvindo. Estendendo-se para trás.”
Minhas pernas tremeram quando me deixei cair ao lado do catre.
O silêncio era espesso, sufocante.
Sentei ao lado do catre, minhas mãos ainda segurando as de Elliot, mas meus pensamentos pareciam desancorados—à deriva entre o luto e a descrença.
“Isso não pode estar acontecendo,” sussurrei. “Isso… isso é demais. Ele é uma criança.”
Kael não falou novamente. Ele apenas se apoiou na parede como se seus ossos estivessem tentando ceder.
A Delta deu um passo à frente lentamente, sua expressão sombria mas composta. “Está acontecendo,” ela disse gentilmente. “E acho que posso explicar por que.”
Olhei para ela, com os olhos queimando.
Ela ajoelhou ao lado do catre, seus dedos brilhando levemente enquanto os passava logo acima da pele de Elliot—sem tocar, apenas lendo.
“Há algo… sincronizando abaixo da superfície,” murmurou. “É tênue. Dormente, mas vivo. Como um fio preso em uma corrente.”
Ela me olhou rapidamente. “O Fluxo nele e o Fluxo em Hades… não é apenas a mesma energia. É a mesma frequência. A mesma ressonância.”
“O que isso significa?” perguntei, tentando me estabilizar.
Ela inspirou. “Pense como se fossem diapasões. Se você toca um, o outro vibra—mesmo do outro lado de uma sala—se compartilhar o mesmo tom. É isso que está acontecendo aqui. O Fluxo deles ressoa. Então mesmo que eles estejam separados, mesmo que estejam inconscientes… eles ecoam um ao outro.”
“Ecos?” Kael repetiu, a voz áspera.
A Delta assentiu. “Emoções. Memórias. Dor. Se um experimenta algo poderoso o suficiente, o outro pode sentir. E se um estiver fragmentado…”
Ela deixou o resto no ar.
Engoli em seco, olhando de volta para Elliot.
Ainda imóvel.
Ainda quieto.
Mas seus olhos—deuses, seus olhos estavam vidrados de uma forma que não parecia vazia. Estavam observando. Não o quarto. Não a nós.
Outra coisa.
“Então o que ele disse,” sussurrei, “o que ele sonhou… não era apenas uma memória.”
“Foi um rompimento,” a Delta disse. “Um momento em que a ressonância perfurou o véu entre eles. E se Hades está se desintegrando—se seu Fluxo está se desestabilizando—Elliot pode estar… capturando pedaços disso. Involuntariamente.”
Kael murmurou uma maldição, passando a mão pelo cabelo novamente.
“Mas ele é apenas uma criança,” eu disse. “Ele não deveria ter que suportar isso. Ele não deveria estar carregando nada disso.”
A Delta olhou para Elliot, depois lentamente voltou-se para mim. Sua expressão havia mudado—menos clínica agora. Mais reverente. Como se ela estivesse olhando para uma ferida sagrada.
“Há algo que você precisa entender sobre como o Fluxo se comporta,” ela disse gentilmente. “Não é apenas um poder. Não é apenas uma substância. É uma amarra.”
A testa de Kael franziu. “Uma amarra a quê?”
“À dor,” ela disse simplesmente. “À memória. À sobrevivência. Quando se integra a um hospedeiro, ele aprende com eles. Adapta-se. Mas quando é herdado…” Ela olhou para Elliot. “Vem bruto. Indomado. Como uma correnteza sem leito de rio.”
Pisquei, as palavras afundando devagar demais para parar a dor crescente no meu peito.
“No caso de Elliot,” ela continuou, “ele nasceu carregando a ressonância de outra pessoa. A ressonância de Hades. E as crianças…” Ela pausou, procurando a palavra certa. “As crianças sonham mais abertamente. Suas mentes ainda não aprenderam a selar as portas. Isso as torna vulneráveis—mas também singularmente receptivas.”
“Você está dizendo que Elliot… o quê? Acessa a mente de Hades durante o sono?”
“Não,” ela disse cuidadosamente. “Ele sente isso. Como uma febre. Como uma memória tentando reviver-se através dele. Especialmente quando Hades está fragmentado. Especialmente quando essa ressonância está gritando através do vínculo, procurando algo—alguém—que entenda.”
Meu pulso trovejou nos meus ouvidos.
Kael balançou a cabeça lentamente, a voz fraca. “Então ele não estava apenas sonhando. Ele estava se lembrando por ele.”
A Delta assentiu. “O Fluxo de Elliot está ecoando o de Hades. É assim que ele viu Nox. O teste. A Sala Negra. Seu sono o torna mais aberto a esses ecos porque seu corpo está em repouso… mas o Fluxo nunca dorme.”
Olhei para Elliot.
Seus cílios nem sequer tremularam.
“Mas ele não entende o que está vendo,” eu disse baixinho. “Ele está apenas… absorvendo.”
Recolhi Elliot nos meus braços novamente, segurando-o mais apertado desta vez. Seu pequeno corpo—tão quente, tão angustiantemente familiar—ficou mole nos meus. Não dormindo. Não inconsciente.
Apenas… flácido.
Um tipo de quietude nascida de um medo tão profundo, que se tornou silêncio. O tipo de silêncio que deforma uma criança de dentro para fora.
Seus dedos não se mexeram. Seu peito subiu, mas mal. E seus olhos—vidrados, desfocados—apenas olharam.
E então caiu a ficha.
Do jeito que a Delta descreveu—diapasões, ressonância, memórias sangrando—não era apenas metáfora. Era química. Física. Gravidade profunda da alma.
O Fluxo não era um poder. Era uma substância.
E como qualquer substância—se dois corpos contivessem a mesma forma dela, a mesma viscosidade—eles poderiam interagir. Fundir-se. Transportar som. Memória. Pensamento.
Como água na água.
Uma ondulação em uma maré.
E se Elliot herdou a ressonância de Hades…
Ele poderia alcançá-lo.
Enrijeci.
Meu olhar foi para Kael, que ainda estava perto da parede de quartzo, olhos enevoados como se não tivesse emergido do pensamento da Sala Negra. De Nox. De uma torta nunca servida.
“Você disse que ele está perdido,” eu disse, a respiração travando.
Kael piscou, lentamente. “O quê?”
“Você disse que Hades estava perdido em sua própria mente. Que o Fluxo o enterrou sob suas próprias memórias. Que está usando-as—repetindo-as—incapacitando-o.”
Suas sobrancelhas se uniram.
Engoli em seco e olhei para Elliot. Meu polegar roçou sua têmpora. Nenhuma reação.
“Mas Elliot… se tudo isso for verdade—se a ressonância que ele carrega é forte o suficiente para puxar os ecos de Hades para seus sonhos—então talvez… talvez possa ir para o outro lado também.”
Kael se endireitou, tensão faiscando.
“Você acha—”
“Eu sei,” interrompi, minha voz agora mais firme. “Ele é o único que compartilha aquela mesma frequência. O único que pode caminhar por aqueles corredores e não ser consumido por eles. Porque eles não são estranhos para ele. Ele nasceu com eles dentro dele.”
Kael não respondeu, mas eu vi a verdade atingir seus olhos como um amanhecer lento.
Elliot não era um espectador.
Ele era uma chave.
“E se ele puder encontrar Hades,” continuei, os olhos ardendo, “eu posso ancorar ambos. Posso me vincular a Hades—alma a alma—e quando Elliot encontrá-lo nesse lugar escuro, vou puxá-lo de volta.”
Olhei para Kael como se fosse a única verdade que importava agora.
“Juntos,” eu disse. “Podemos trazê-lo à superfície.”
A garganta de Kael trabalhou como se ele quisesse argumentar. Mas ele não o fez.
Porque ele viu o que eu vi:
Os deuses não haviam enviado Elliot como uma arma.
Eles o enviaram como um farol.
E Hades—não importa o quão longe ele tenha afundado—ainda poderia seguir aquele lampejo de luz para casa.
Mas isso era se… Elliot pudesse fazer isso sem se machucar.
Mesmo com o desabrochar de uma nova esperança, o temor permanecia insuperável ao olhar para ele.
Ele era uma criança… como eu poderia fazer isso com ele?