A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 320
Capítulo 320: Nós Somos Iguais
Eve
A bile subiu pela minha garganta. Dei um passo mais perto, meus punhos cerrados tão firme que minhas unhas se enterraram nas palmas. Um lampejo de vermelho tingiu minha visão.
Essa vadia desgraçada…
“Não o chame assim,” falei, cada palavra baixa e afiada.
Seus olhos verdes piscilaram—e por um instante, houve medo. Medo real, piscante por trás daquela calma irritante.
Então ela sorriu. Lentamente. Torto. Como a decadência enroscando-se nas bordas de algo que já foi belo.
“Você me assustou,” murmurou, olhando para si mesma com admiração simulada.
“Quão baixo os poderosos caíram,” ela sussurrou, mais para si mesma. “Fui reduzida a isso… essa concha patética de uma mulher que deveria ter tido tudo.”
Seus olhos se ergueram para os meus novamente.
“Gosto do novo corte de cabelo, a propósito,” disse ela, com diversão seca no tom. “Realmente destaca suas maçãs do rosto.”
Ela inclinou a cabeça, me examinando como se estivesse catalogando uma cicatriz.
“Quem diria que eram tão afiadas? Acho que era só uma daquelas coisas que você escondia.”
Seu olhar subiu, traçando linhas invisíveis no teto da cela.
“Você e eu—somos iguais. Mas ao contrário de você, eu mostrei minhas garras. Um pouco de presa, de vez em quando. Você? Escondeu tudo. Até de si mesma.”
Ela riu entre os dentes, o som rachado e seco demais.
Eu travei o maxilar, dentes se chocando com força suficiente para doer. “Elliot—”
Ela ergueu uma mão algemada, me detendo com o gesto mais preguiçoso que já vi. Seu olhar caiu novamente, afiado e vazio.
“Não me fale do filho de Danielle.” Sua voz era vidro quebradiço. “Vamos falar de mim, uma vez por todas.”
Ela se inclinou para frente, olhos vidrados com algo tão fragmentado para ser raiva.
“Você sabia que quando eu contei a eles o que ele fez comigo… eles ignoraram?” Sua voz rachou, mal audível. “Quem faz isso?”
Então, seu foco escorregou de novo, como se não pudesse se agarrar a um único pensamento por muito tempo.
“Você concedeu misericórdia a Rook,” ela murmurou. “Apesar do que ele fez com você. Você podia ao menos me ouvir.”
Sentimentos mistos surgiram, densos e ferventes sob minhas costelas. Eu não disse nada, apenas encarei.
Seus olhos encontraram os meus de novo, turvos e cheios de pavor que espelhava o meu. “A história do meu pequeno rouxinol pode esperar, não acha?”
Novamente, não disse nada, mantendo aquele olhar que um dia me encheu de medo.
“Perfeito!” ela cantou como um passarinho feliz. “Pai jogou xadrez e venceu, mas nós—a filhas dele—perdemos. Especialmente eu.”
Meus olhos tremiam enquanto ela continuava sem um pingo de vergonha.
“Danielle passeava pela vida. Seu casamento era uma fantasia com a qual eu só podia sonhar.”
Uma expressão fantasiosa surgiu em suas feições.
“Aquele homem teria incendiado o mundo por ela. Ela simplesmente não deixava.
Olhos verdes como esmeraldas que sempre pareciam brilhar. Cabelo como castanha. Um sorriso atrevido para qualquer um que ela pudesse iluminar. Pai até tinha uma pequena rima para ela.”
Ela tocou seu cabelo, enrolando uma mecha distraidamente.
“Mas tínhamos o mesmo cabelo, os mesmos olhos… mas eu…” Seus lábios tremeram. “Nunca tive uma rima. Não de Pai,” ela acrescentou, sua expressão se tornando amarga, sua voz ácida.
“Certamente não de Leon. Nunca dele. Eu o salvei de uma vida com minha irmã chata, e então ele me retribuiu com nada além de dor.” Ela cuspiu as palavras—cada sílaba parecia queimar em sua garganta.
“Eu tentei de tudo para agradá-lo, mas ele era insaciável. Ele desejava meu sofrimento. Desejava minha destruição total como um sádico. No primeiro dia que ele levantou a mão para mim, eu soube… eu soube… eu simplesmente soube que o inferno havia apenas começado. Não havia limite para sua crueldade. Não havia nada que pudesse pará-lo. Ninguém que pudesse impedi-lo de me destruir.” Seus olhos vidraram, mas suas lágrimas recusavam-se a cair.
“Posso ser uma psicopata, mas encontrei meu par nele. Da pior forma possível. Me levei a me cortar… e então ele descobriu.” Sua garganta se moveu enquanto ela engolia. “Eu sabia que havia conjurado o diabo. Ele me trancou como um animal comum e me deixou com fome. Disse que eu estava apenas buscando atenção e arruinando sua reputação. Eu estava grávida na época.”
A voz de Felícia se quebrou na última palavra, mas ainda assim nenhuma lágrima caiu. Sua garganta tremia. Sua boca tremia.
“Eu o perdi,” ela sussurrou novamente. “E adivinha quem ele culpou.”
Ela encostou a cabeça na parede de pedra, as algemas gemendo levemente com a mudança.
“Ele disse que eu fiz de propósito. Disse que eu queria arruinar seu legado. Me chamou de parasita. Disse que eu não tinha útero—apenas um poço.”
Eu permaneci em silêncio, mas meus pulmões queimavam.
Ela puxou uma respiração trêmula.
“Eu fiquei grávida mais duas vezes depois disso,” ela continuou, vazia. “Eu pensei que, se eu os mantivesse, talvez… talvez ele me perdoasse. Que ele parasse.”
Seus lábios se curvaram, mas o sorriso não alcançou seus olhos.
“Mas eles também morreram. Ambos. E toda vez, eu recebia o inferno por isso. Ele disse que meu corpo era um túmulo. Que eu era amaldiçoada.”
Ela riu, seca e desequilibrada. “Ele até me fez enterrar um. Com minhas mãos.”
Minha coluna se endureceu. Eu me sentia enjoado.
Os olhos de Felícia encontraram os meus novamente e, por um breve momento, eu vi algo quase infantil por baixo dos destroços. Algo buscante.
“Eu não comecei assim, sabe.”
Eu travei a mandíbula, o gosto de ferro subindo atrás dos meus dentes.
“Você rouba uma cascavel,” eu disse friamente, “e acha que ela não vai te morder?”
O silêncio que se seguiu foi cortante.
Então—
Felícia riu.
Não uma risada falsa. Não maníaca.
Uma risada genuína, escancarada, que soou humana demais para tudo o que ela acabara de dizer.
Ela riu tanto que chia, jogando a cabeça para trás, despreocupada com as algemas ou a pedra ou o veneno na minha voz.
“Oh deuses,” ela ofegou. “Isso foi bom. Isso foi realmente bom.”
Eu olhei para ela, com a fúria borbulhando como um vulcão sob minha pele.
Ela recuperou o fôlego, limpando uma lágrima do canto do olho com a borda do punho.
“Vê?” ela disse, sorrindo para mim como se fôssemos apenas duas mulheres se reencontrando após anos de separação. “Você tem coragem, afinal. Disse que éramos parecidas.”
“Eu não sou nada como você,” eu rebati.
Mas mesmo enquanto as palavras saíam de mim, eu não tinha certeza se eram totalmente verdadeiras.
Porque eu tinha visto o que monstros podiam fazer das mulheres.
E eu estava começando a entender que Felícia não nasceu uma serpente.
Ela fora feita uma.
E agora ela era veneno, por inteiro.
A risada de Felícia se dissipou como fumaça—permanente, acre.
“Somos parecidas,” ela disse suavemente, aquele sorriso frágil ainda esticado em seus lábios. “Você roubou o marido de uma mulher não enterrada e esperava não se queimar.”
Não era a mesma coisa.
Mas eu não disse isso.
Porque mesmo que não fosse a mesma coisa, ainda queimava.
Ela observou meu silêncio como um falcão. Como se fosse uma vitória.
“Então,” ela continuou, inclinando a cabeça, “quando fiquei grávida pela quarta vez, achei que talvez a maldição tivesse passado. Talvez os deuses estivessem cansados de me punir.”
Seu olhar escureceu.
“E então encontrei o quarto.”
Eu não me movi.
Felícia não olhou para mim ao dizer isso.
“Ele tinha fotografias. Dela. Danielle. Em um quarto atrás de uma parede falsa no escritório. Como um altar. Velas. Diários. Recortes. Seus frascos de perfume.” Sua risada ficou cortante como vidro. “Ele era obcecado.”
Ela levantou os olhos novamente, e desta vez, era veneno.
“Ele a deixou por mim. Eu. E ainda assim—ele adorava o fantasma dela como se eu não fosse nada além de sua sombra. Ele queria tudo o que Hades tinha, sabe. O poder. O nome. Mas mais do que tudo… ele queria Danielle.”
Meus lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu.
“Oh, você está chocada?” Felícia zombou. “Imagine como eu me senti. Saber que minha irmã podia roubar algo sem nem tentar. Sem nem saber. Que tudo o que eu tinha para oferecer—meu corpo, meu sangue, minha alma—não era nada comparado à sua presença em um quarto.”
Sua voz quebrou.
“Ele me fez jurar silêncio. Mas ele parou de esconder. Ele parou de fingir. Quando fazia ódio comigo, ele gemia o nome dela. Em público, ele era educado comigo, mas para ela—deuses, ele a tratava como realeza. Como uma relíquia. Melhor do que Hades fazia, até. Dizia que ela era graciosa. Dizia que ela era brilhante. Que ela podia encantar sem tentar.”
Eu estava congelada. Respirar parecia engolir agulhas.
“Ele dizia que ela não usava muita maquiagem. Não tingia o cabelo. Dizia que ela não precisava. Ela era pura.” A boca de Felícia se retorceu em um rosnado. “Dizia que ela havia domesticado a fera que Hades era. Transformado-o em um cachorro de marido. Que ela era um enigma adorável.”
Sua voz tremeu.
“Então ela ficou grávida. E mais uma rodada de inferno começou.”
Eu já sabia aonde isso ia dar.
“Minha filha,” ela sussurrou. “A menina que havia sobrevivido a tudo… ela não pôde sobreviver a isso. Não ao ciúme dele. Não à sua ira. Eu a perdi.”
Felícia fechou os olhos.
“Quando o pai dele o encontrou—me machucando—ele o fez parar. Mas apenas porque ele não queria o escândalo. Ele me constrangeu a manter silêncio.
“Você acha que é a primeira mulher que ele machucou? Você é apenas a primeira a reclamar. Da próxima vez, sangre em silêncio. Você está carregando o futuro desta casa, não o seu próprio.” Ele tinha dito.
Mas por que eu ficaria surpresa? Tudo o que eu tinha que lembrar era o que ele fez a Hades.
“Eu não podia nem dizer a ele que tinha perdido o bebê. De novo.”
Seus olhos se abriram. Calmos. Parados.
“Eu queria me salvar.”
Então ela olhou para mim. E pela primeira vez, eu a vi com uma clareza assustadora.
“Se ele podia tramar para matar o próprio irmão para conseguir sua ex-noiva,” ela disse, “quem eu era?”
Eu disse isso antes mesmo de pensar.
“Então você deu o primeiro tiro.”
Seu sorriso retornou—lento, selvagem.
“Exatamente.”