A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 318
Capítulo 318: Nox
Eve
Elliot continuava se revirando na cama. O sono parecia escapar dele, não importava quantas xícaras de leite ele tomasse. Estávamos no mesmo barco. O sono era tão distante para mim quanto a lua.
Ele choramingou suavemente em seu sono—preso em outro sonho. Ou uma memória. Eu já não conseguia mais distinguir a diferença. Nem para ele. Nem para mim.
Estendi a mão e alisei seu cabelo para trás. Estava ficando mais comprido novamente. Eu teria que apará-lo em breve.
Meus dedos permaneceram contra sua têmpora. Ele se acalmou. Só um pouco.
Lá fora, a Torre Obsidiana estava silenciosa.
Mas aquele tipo de silêncio nunca era seguro.
Era o tipo de silêncio que vinha antes de uma tempestade.
O tipo que se assentava sobre um túmulo antes do grito.
Virei-me de lado, afastando-me de Elliot e pressionando as palmas sobre os meus olhos até a dor surda atrás deles se aguçar. Eu não tinha chorado. Não propriamente. Não sabia se isso era força ou covardia.
Houve uma batida suave.
Eu não me movi.
Então a porta se abriu de qualquer jeito.
Kael entrou.
Ainda pálido. Ainda se recuperando. Mas havia algo diferente em sua expressão agora. Menos angústia. Mais propósito.
Ele olhou primeiro para Elliot, depois para mim.
Então ele estendeu um único datapad.
“O rito está pronto”, ele disse. “Eles terminaram de estabilizar as linhas de campo. Montegue reforçou o perímetro do glifo esta manhã.”
Assenti lentamente, pegando o pad. Meus dedos sentiam-se dormentes ao redor da borda.
Kael ficou ao lado da porta, com a mão apoiada na moldura. “Você não precisa fazer isso, sabe. Não sabemos o que poderia acontecer.
Olhei para Elliot, que havia começado a se encolher novamente—seu polegar perto da boca, mas nunca tocando-a de fato. Ele não o chupava, apenas o mantinha ali, como um conforto esquecido.
“Sim, eu tenho”, sussurrei. “Ele está escapando. A cada dia que esperamos, Vassir se enraíza mais fundo. Se há alguma coisa de Hades ainda lá e injetar o marcador de Fenrir diretamente não fez nem um arranhão na… coisa.” Algo doloroso floresceu em meu peito. Hades havia se tornado uma coisa.
Kael não terminou a frase. Ele apenas assentiu.
“Você acha que vai funcionar?” perguntei.
Ele hesitou. “Acho que… se alguém pode alcançá-lo, é você.”
Kael exalou pelo nariz, aproximando-se. Sua voz agora estava baixa, quase reverente. “Montegue ordenou que o portão fosse desobstruído. A rota foi santificada, mapeada e ancorada à luz do pôr do sol. Partimos duas horas antes da meia-noite. Se os ventos aguentarem, chegamos aos terrenos funerários no limiar da Eterna Noctis.”
Eu me imobilizei.
O nome pesava na sala. Eterna Noctis. A noite eterna. O túmulo do primeiro lunar. O local de descanso de Elysia.
Meu passado.
E de alguma forma—eu.
Agarrei o datapad com mais força. “Certo. Claro.”
Mas Kael estava observando. Ele não perdeu a hesitação na minha voz.
“Você não precisa enfrentar essa parte esta noite,” ele ofereceu gentilmente. “Você só precisa chegar até ele.”
Engoli em seco. “Eu sei.”
Mas não consegui parar o eco atrás das minhas costelas. O grito que eu não tinha soltado.
Chegar até ele.
Não trazê-lo de volta.
Não era a mesma coisa.
Kael esfregou o lado do pescoço—o tecido cicatricial ainda vívido através de sua clavícula. Não cicatrizou. Meu temor só crescia. “Apenas Stravos pode entrar no limite. É por isso que tem que ser você. Cain está preparando as oferendas agora. Só você, ele e… Hades.”
O nome ficou preso como farpas na minha garganta.
Assenti novamente, mais para encerrar a conversa do que para concordar.
E foi quando aconteceu.
Um som—pequeno, agudo, quase inaudível—cortou o ar.
Elliot.
Virei-me, o coração disparando.
Ele ainda estava encolhido na cama, seu polegar tremendo na borda da boca. Mas agora seus lábios estavam se movendo.
Seus olhos estavam bem fechados. Seus cílios úmidos.
E então—
“Não vá.”
As palavras eram finas como papel.
Tão suaves que quase se quebraram no ar.
Mas elas eram reais.
Kael congelou.
Eu não conseguia respirar.
Elliot gemeu de novo, enterrando o rosto ainda mais no travesseiro. “Por favor…”
Era a primeira vez que eu ouvia sua voz.
A primeira vez que qualquer um ouvia.
Kael avançou instintivamente, atordoado.
O ar da sala ficou frágil.
Nem Kael nem eu nos movemos.
Não nos atrevemos.
A voz de Elliot—frágil, como algo roubado de um lugar ao qual não pertencia—não era apenas um som. Era um milagre e uma ruptura ao mesmo tempo.
Minha coluna se endireitou.
A respiração de Kael ficou audível.
Nós encaramos.
“Não vá…”
As palavras escaparam de Elliot como um fio se desfazendo de um tecido há muito esquecido. Fracas. Tremendo. Reais.
Reais.
Minha mente lutava por significado, por lógica—ele não fala, pensei, quase frenética. Ele nunca falou.
Eu nem tinha ouvido seu choro quando ele foi levado.
Kael deu um passo à frente, lento e atordoado, como se estivesse se aproximando de um fantasma.
Elliot não se mexeu.
Ainda enrolado nos cobertores, o polegar pairando perto da boca. Mas as palavras não paravam.
“Frio…” ele murmurou. “Está muito frio…”
Kael olhou para mim, olhos arregalados. Eu pude ver—sua mente correndo, buscando explicação, contexto. Eu não tinha nenhuma. Meu pulso martelava na garganta.
“O chão dói,” Elliot continuou, a voz vacilando daquele jeito interrompido que as crianças têm quando choram demais. “Sem torta… disseram que teria torta…”
Eu pressionei uma mão trêmula sobre meus lábios.
Ele não estava apenas falando. Ele estava lembrando.
Mas lembrando de quê?
Kael se agachou perto da cama, cuidadosamente, reverentemente. “Elliot?” ele sussurrou, como se tivesse medo de acordá-lo, ou quebrar o que quer que tivesse se rompido dentro dele.
“Fiz bem,” Elliot murmurou. “Passei… ainda com fome…”
Minha garganta se apertou.
Essa não era a voz de um garoto falando durante o sono.
Essa era a voz de alguém revivendo algo.
Alguém pequeno demais, assustado demais, e muito, muito distante.
Eu o alcancei, passando meus dedos pela sua têmpora.
Ele não reagiu ao toque.
Então—
“…Nox.”
O nome foi quase um sussurro.
Mas Kael estremeceu.
Não piscou. Estremeceu.
Eu me virei para ele bruscamente, surpresa. “Kael?”
Ele não respondeu imediatamente.
Seus olhos estavam fixos em Elliot. Mas não com medo.
Com reconhecimento.
Reconhecimento real, abalado.
Finalmente, sua voz veio, baixa e incerta. “Esse nome. Eu… conheci alguém uma vez. Muito tempo atrás.”
Eu esperei.
Ele não continuou.
E eu não pressionei. Ainda não.
Porque Elliot havia silenciado novamente, as palavras desaparecendo como fumaça, a respiração uniforme e superficial, voltando ao silêncio como se nada tivesse acontecido.
Como se ele nunca tivesse falado.
Mas ele falou.
Ele falou.