A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 251
Capítulo 251: Sua Única Esperança
Hades
“Nós poderíamos fazer isso, Hades,” Kael murmurou, seu tom hesitante.
Eu parei e deixei o silêncio nos envolver. “O quê?” perguntei suavemente.
Ele deu um passo em minha direção, sua pisada insegura. “Devíamos deixar Elliot fazer um teste de paternidade como… ela disse. Isso iria esclarecer—”
Minha cabeça se virou para ele, silenciando-o. “Você acredita na porcaria dela, Beta?”
O uso daquele título oficial fez seus ombros ficarem tensos. Ele engoliu, desviando o olhar brevemente antes de seus olhos voltarem a encontrar os meus, cheios de incerteza. “As evidências contra ela são imensas, mas é…”
“Eve?” Eu o interrompi, tirando o nome diretamente da sua boca. “Porque é Eve, não é?” perguntei.
Ele não disse nada. A tensão do corredor era como um nó em nossas gargantas.
“Você não me respondeu. Você quer que eu jogue fora as evidências porque ela é… Eve?”
“Não…” Ele engoliu novamente. “Mas eu… você a conhece…”
“Eu não a conheço. Algumas semanas atrás, eu nem sabia que ela era Eve. Algumas semanas atrás, eu nem sabia que ela era a gêmea amaldiçoada—ou um Lycan, para falar a verdade.”
“Jules tentou te contar…”
Meu olhar ficou bastante escuro para ele parar de falar. “Mas ela não me contou. Vez após vez, sua desonestidade foi destacada.”
“Mas você a perdoou—porque ela tinha seus motivos. Afinal, tudo o que ela passou. Você empatizou com ela porque as ações da sua família a deixaram paranoica…”
“Eu nunca a perdoei,” eu o interrompi, a afirmação alimentando a escuridão que começou a se espalhar por baixo do sofrimento.
Ele se assustou, sua expressão se transformando em confusão. “Mas você…”
“Eu simplesmente deixei pra lá porque não importava quem ela era, o tipo de criatura que ela era, ou qual era seu maldito nome. No final, ela se encaixou perfeitamente em meus planos. Não mudou o fato de que ela seria útil. O marcador no sangue dela ainda permanecia. Seu nome não mudou isso.”
Kael ficou pálido. “Você não quis dizer isso. Você queria que ela fosse A Luna.”
“Uma coroa na cabeça dela não apagaria o marcador em seu sangue.”
“Não, Hades, eu sei que você está magoado…”
Magoado. Essa palavra era um eufemismo grosseiro.
“Eu sei o que ela fez. Ela mesma disse que não estava no controle.”
“Provavelmente outra mentira,” eu descartei.
“Provavelmente…” ele repetiu. “Ainda há uma possibilidade de que ela não tenha mentido.”
“Ainda assim, sua credibilidade está no inferno. Eu não sou o líder que deixa seus sentimentos o guiarem. As evidências são gritantes, e as implicações são claras como cristal. Só um tolo descartaria isso.”
“Ainda assim… você não faria isso com ela. Você não extrairia tudo…”
Então eu sorri e me afastei dele. “Veja, Beta. Veja.”
Eu me afastei, dando-lhe a escolha de seguir ou se afastar.
Os Montegues estavam mais adiante no corredor, esperando por mim.
Logo, chegamos a eles.
Lucinda estava composta, suas mãos cruzadas como se isso fosse uma formalidade. A pele de Felícia ainda estava pálida, mesmo depois de ter sido limpa. Montegue em si estava no meio, imóvel.
“Hades,” Montegue cumprimentou, voz áspera. “Queremos que a Princesa seja entregue. Para nós.”
A postura de Kael mudou atrás de mim, ficando mais rígida.
Felícia avançou, tom muito suave. “Ela assassinou nossos parentes. Ela me atacou. A punição deve ser nossa para aplicar.”
“Não.” Minha voz cortou o espaço, firme.
Os olhos de Montegue se levantaram. “Você a protegeria?”
“Eu não disse isso.” Mantive meu olhar fixo nele. “Mas ela não é sua para punir.”
“E por que isso?” A voz de Lucinda quebrou como gelo.
“Ela matou meu pai e irmão—vocês parecem ter esquecido esse pequeno detalhe—e porque o marcador de Fenrir ainda está ativo em seu sangue,” eu disse friamente. “E ele será colhido.”
O ar ficou mais fino.
O sorriso de Felícia rachou.
“Você quer profaná-la, então?” ela disse asperamente, sua voz subindo com um verniz de horror justo. “Como se isso justificasse poupá-la de uma punição que ela merece?”
“Ela matou minha família também,” eu disse, baixo e inabalável. “Leon. Danielle. Meu filho não nascido. Não me fale de justiça como se você carregasse mais dor do que eu.”
Felícia cambaleou como se eu a tivesse golpeado, mas foi Montegue quem deu um passo à frente, seus olhos queimando com o fogo de um homem que já havia enterrado demais.
“Ela tirou nosso sangue,” ele rosnou. “Despedaçou nossa linhagem. Você fala de valor, mas que valor resta quando a honra se perde? Quando nossos mortos não são nada além de… amostras a serem dissecadas?”
“Ela ainda está ligada a algo antigo,” eu respondi. “O marcador em seu sangue é raro—talvez um dos últimos. Sua extração pode servir para proteger as vidas que restam. Para garantir que nenhum outro reino sofra o destino do nosso.”
“Você a transformaria em um recurso,” Lucinda sussurrou, horrorizada. “Depois de mantê-la como sua Luna?”
“Ela nunca foi Luna,” eu disse abruptamente. “Uma coroa nunca adornou sua cabeça. E qualquer ligação que compartilhávamos—qualquer ilusão que permiti-me acreditar—termina hoje.”
Kael desviou o olhar, mandíbula apertada, o pesar lutando com a incredulidade.
“Você sequer se ouve?” Felícia resmungou. “Você fala como se ela fosse uma coisa. Uma arma. Não uma pessoa.”
“Ela se tornou uma arma no momento em que os massacrou,” eu disse, endurecendo a voz. “Você quer que ela seja punida. Eu quero justiça. Mas eu não vou entregá-la a uma casa de luto com vinganças. Ela será desmontada ao que a torna perigosa. E ao que a torna útil.”
Montegue me encarou, sua expressão ilegível.
Então, lentamente, ele deu um passo à frente—até que sua respiração quase tocasse a minha.
“É melhor que você signifique isso,” ele disse, sua voz baixa e trêmula. “Porque se você vacilar—se você hesitar quando chegar a hora—você não apenas perderá seu título, Vossa Majestade. Você perderá tudo.”
Meus olhos não deixaram os dele. “Eu não vou.”
Ele se inclinou, quase um sussurro agora. “Não decepcione Dani duas vezes.”
Aquele nome.
Aquele nome era uma lâmina nas costelas cada vez.
Fiquei parado muito depois de terem ido embora, seus passos desaparecendo atrás de mim.
Kael pairava por perto, observando. Esperando. Mas eu não disse nada.
Porque já havia tomado minha decisão.
As portas gemeram ao abrir enquanto eu passava. A iluminação estava baixa—fluorescente, clínica e fria. O silêncio aqui era diferente. Não como os corredores da Torre Obsidiana, onde segredos esperavam em cada esquina. Não—aqui não havia segredos.
Apenas a verdade.
E o monstro que sempre persistia por trás dela.
Um punhado de cientistas olhou para cima, assustado. Eles não me viam nesta ala há anos.
Dr. Tavin foi o mais rápido a se levantar. “Vossa Majestade…?”
“Eu quero mais da Veia do Vassir,” eu disse, calmo e brutal.
O movimento da sala parou.
“Meu senhor,” Tavin disse lentamente, “você não usa a Veia há anos. Os efeitos colaterais—”
“Eu estou ciente.”
“Isso te mudou. Da última vez, levou semanas para estabilizar. Seu corpo—sua mente—”
“E agora você me diz que acredita que eu estabilizei?” eu rebati, uma risada amarga na minha garganta. Eu a deixei entrar. Eu a deixei mentir. Eu a deixei me fazer acreditar em um futuro que nunca existiu. Então, não— “Eu não preciso de estabilização. Eu disse o que eu precisava.”
Um dos assistentes deixou cair um frasco atrás do balcão. O vidro se quebrou.
“Preparem,” eu ordenei. “Eu quero uma dose dupla.”
Dr. Tavin hesitou. “Hades, por favor… vamos pensar nisso—”
“Eu já pensei nisso.” Eu me aproximei, olhos em chamas. “E na próxima vez que eu enfrentar ela, eu não hesitarei. Eu não vou me quebrar. Então me tragam a maldita Veia.”
Ninguém se moveu.
Até que eu rosnei, baixo e selvagem.
“Agora.”
E enquanto eles se movimentavam freneticamente, eu fiquei parado, coração batendo forte, sentindo o calor da dor que ela deixou em mim crescer abaixo da pele.
Ela me fez fraco.
E eu queimaria essa fraqueza de mim se fosse a última coisa que eu fizesse.
Kael não me seguiu. Era melhor do que ele me ver fazendo isso.
O laboratório entrou em ação como um cemitério despertando.
Assistentes se apressaram, destravando gavetas que não foram tocadas em anos, colocando luvas reforçadas e óculos de proteção de alto risco. As luzes diminuíram ainda mais enquanto uma faixa vermelha piscava acima da porta, marcando o laboratório como uma zona restrita.
Um contêiner de aço foi levado da câmara do cofre—seus bloqueios soltando um chiado ao se desprenderem. Névoa fria derramou de dentro quando a tampa foi levantada, revelando uma massa escura e pulsante suspensa em um campo magnético.
O Coração de Vassir.
O coração de um príncipe vampiro que foi afogado, queimado, empalado, e ainda não apodreceu.
Ele pulsava fracamente. Vivo na morte.
O ambiente ficou mais frio com sua presença. Não pela temperatura, mas por algo mais antigo. Algo primitivo. O tipo de poder sombrio que dobra mundos.
“Não faça isso,” veio a voz dentro de mim.
Cérbero.
O tom do meu lobo estava mais profundo que o usual—baixo, lamentoso.
“Ela já tirou o suficiente de nós,” eu disse a ele em silêncio. “Isso garantirá que ela nunca tire mais.”
“Ou garantirá que nós percamos as últimas peças de nós que ela não tocou,” Cérbero rosnou.
Uma agulha, grossa como o dedo de uma criança, foi conectada à câmara de extração. Tubos conectados. O fluido negro começou a encher o frasco—lento, viscoso, letal.
“Juramos nunca tomar outra dose completa,” Cérbero sussurrou. “Você se lembra do que isso nos fez fazer. De quem isso nos fez nos tornar.”
“Eu lembro,” eu disse em voz alta, surpreendendo os cientistas que pausaram no meio da preparação. Eu encarei o coração. “E eu lembro de quem eu perdi.”
Dr. Tavin olhou para mim, quase suplicando agora. “No momento em que isso tocar sua corrente sanguínea, sua empatia irá embotar. Seus instintos se aguçarão, sim, mas sua contenção—seu controle—sofrerá.”
“Eu não preciso de contenção,” eu disse. “Não para o que está por vir.”
Cérbero rosnou em protesto. “Você não quis dizer isso.”
“Eu quis.” Minha voz foi um chicote através da minha própria alma. “Eu preciso parar de amá-la.”