A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 239
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239: Suspiros Que Murcham 239: Suspiros Que Murcham Hades
Eu me aconcheguei ao lado dela, exausto e… com medo. Inspirei seu cheiro — o mesmo de lavanda e mel que havia se tornado meu porto seguro. Ela estava dormindo… ou pelo menos foi o que pensei, até que se enrijeceu.
“Desculpe, não quis te acordar,” murmurei, enterrando o rosto em seu pescoço — apenas para eu me enrijecer também. Seu pulso batia forte, tão alto quanto tambores de guerra.
“Eve?” sussurrei, levantando minha cabeça.
Mas ela não me olhou no rosto, seu corpo rígido e virado para longe de mim.
Deixei o silêncio tomar conta do ar completamente, esperando para ver se ela olharia para mim por conta própria.
“Amor?” chamei novamente, colocando seu cabelo atrás da orelha para poder ver alguma parte de seu rosto. “O que aconteceu?”
Quando pensei que não conseguiria chegar até ela, ela finalmente se moveu, virando-se para mim. Mas não respondeu à minha pergunta.
Engoli seco, ainda mais inquieto com seu comportamento estranho, somado a tudo o que havia acabado de acontecer. Tudo o que Felícia havia dito. O cartão de memória que agora estava com a equipe forense — para verificar se ela tinha mesmo mexido nele, como Felícia havia afirmado.
A suspeita floresceu como uma flor envenenada em meu peito, distorcendo e se espalhando até que mal conseguia respirar.
“Eve,” falei novamente, mais gentil desta vez. “Fale comigo. Por favor.”
Seus olhos finalmente encontraram os meus, brilhando com lágrimas não derramadas, seus lábios entreabertos como se palavras estivessem na ponta de sua língua, mas se recusassem a sair. Eu podia ver a guerra em seu olhar — medo, culpa e algo mais. Algo que eu não conseguia nomear.
“Eu apenas…” ela começou, então parou. Suas mãos mexiam inquietas nos lençóis, torcendo o tecido entre os dedos.
Eu segurei sua mão na minha, acalmando-a. “Seja o que for, você pode me contar.”
Ela balançou a cabeça devagar, depois piscou, deixando uma única lágrima escorrer pelo rosto. “Hades…” Então seus olhos se fixaram em minha orelha, e sua boca se fechou abruptamente.
Instintivamente, meus dedos foram para minha orelha, onde o brinco de esmeralda ainda estava, pendurado como havia estado nos últimos cinco anos.
Eu percebi o modo como seu rosto caiu, mas ela disfarçou sua dor com um sorriso nervoso. Enxugou as lágrimas. “Não é nada. Apenas um pesadelo,” ela sussurrou.
Mas, por algum motivo, cada célula do meu corpo recuou diante da mentira. Eu já a tinha visto depois de seus pesadelos — os piores deles. Os que vieram depois da morte de Jules. Aqueles em que a morte ainda a assombrava. Eu tinha sido testemunha de todos eles. Mas isso…
Isso era diferente.
O modo como ela quase não conseguia me olhar nos olhos por mais de um minuto antes de desviá-los. O modo como ela estava inconscientemente se afastando e não se aconchegando em mim em busca de calor.
Me lembrava de como ela agia no passado sempre que surgiam perguntas sobre mentiras que havia contado, segredos que havia escondido — apenas para depois confessar sua verdadeira identidade.
Sinos começaram a soar — ensurdecedores e terríveis — ecoando nos cantos mais profundos da minha mente.
Mesmo assim, não deixei isso transparecer. Eu exalei devagar, afastando o cabelo dela do rosto novamente, como sempre fazia. Como se tudo estivesse bem. Como se eu não sentisse o chão sob nós silenciosamente se abrindo.
“Tudo bem,” eu falei suavemente, forçando um sorriso do qual eu não tinha certeza se alcançou meus olhos. “Apenas um pesadelo.”
Ela assentiu — rápido demais. Ansiosa demais.
Eu a puxei para mais perto, envolvendo meu braço ao redor de sua cintura, tentando ignorar o quão tensa ela estava, o quão estranho aquilo parecia. Por um momento, nós apenas ficamos ali em silêncio. Mas não era o tipo de silêncio que costumávamos compartilhar. Não era paz. Era evitação.
Eu descansei meu queixo contra sua cabeça, fechei os olhos. Fingi.
Mas por dentro, meus pensamentos estavam em turbilhão. Cada palavra que Felícia havia dito estava se repetindo em loop. O cartão de memória. O sangue. O jeito estranho e trêmulo com que Eve agora olhava para mim.
Eu queria — precisava — acreditar nela. Que era apenas um pesadelo. Que nada havia mudado.
Mas algo havia mudado.
Havia uma mudança no ar entre nós — sutil, mas sufocante. Como se o inverno tivesse invadido o quarto sem que percebêssemos, congelando o calor que lutamos tanto para construir.
Ela não estava me segurando do mesmo jeito.
Ela não estava respirando do mesmo jeito.
E eu não estava acreditando do mesmo jeito.
Eu mantive meu toque gentil, minha voz baixa enquanto sussurrei, “Estou aqui com você, Eve. Estou bem aqui.”
Mesmo que tudo em mim gritasse que a verdade nos rasgaria.
Ou talvez eu estivesse apenas projetando. Eu também havia escondido coisas — coisas que estava começando a acreditar que eram melhor deixar não ditas até ter certeza de que Eve não tinha mais segredos.
“Sobre Felícia…” eu sussurrei em seus cabelos cor de cobre.
Antes que eu pudesse continuar, senti seu coração acelerar. Ela estava com medo…
Ou seria outra coisa?
“O que tem ela?” Eve tentou soar calma, mas sua voz estava tão alta que falhou.
“O que aconteceu entre vocês?” perguntei, lembrando-me de como ela estava levitando, sugando tudo para um vazio do qual mal consegui sair.
Isso me fazia questionar as coisas agora. Por que as acusações de Felícia — que deveriam ser apenas delírios sem sentido de uma narcisista — tiveram um impacto tão profundo nela?
Para Eve acordar e começar a agir de forma estranha.
A cor de rosa do meu mundo estava desaparecendo lentamente, não importava o quanto eu tentasse segurá-la.
Eu continuava dizendo a mim mesmo que não era nada.
Tinha que ser nada.
A verdade seria revelada em breve — mas Eve não sabia disso. Então isso era só eu, testando…
O nó em minha garganta endureceu enquanto eu esperava que ela me contasse a verdade.
Que me contasse sobre o que Felícia a havia acusado, momentos antes de sua reação bizarra.
O silêncio que se seguiu puxou dolorosamente algo profundo em meu peito.
O silêncio não era passivo. Era estratégico. Calculado.
Eve estava pensando — medindo.
Não em como compartilhar a verdade, mas em como gerenciá-la.
Em como me navegar.
E essa percepção me esmagou mais do que qualquer confissão poderia.
Me trouxe de volta à noite em que perguntei por que ela se havia chamado de amaldiçoada quando o Fluxo tomou conta.
A imagem de seus olhos arregalados enquanto ela despejava mentira após mentira de uma história elaborada se repetia em minha mente como um réquiem.
“Eu—” ela começou, sua respiração falhando na garganta. “Você sabe como ela é. Provavelmente são seus velhos truques.”
Sua voz era leve como uma pluma, tremendo nas bordas como se ela mesma não acreditasse nas palavras que saíam de sua boca.
“Provavelmente seus velhos truques,” ela repetiu, mais fraca desta vez. “Sempre tentando machucar o que temos com perguntas e enigmas.”
Mas o que tínhamos já não era mais a verdade inabalável que eu antes agarrava como evangelho. Era algo delicado agora. Frágil. Fraturado.
“Foi só isso?” perguntei, minha voz calma — calma demais — o tipo de calma que precede uma tempestade. “Só Felícia… brincando?”
Eve assentiu, ainda evitando meus olhos. “Sim.”
Outra mentira. Eu senti isso como uma contusão pressionada com muita força.
“O que exatamente ela disse?” O martelo estava erguido, apontando para o último prego no caixão. “Você não lembra?”
Esperei com a respiração suspensa.
Ela deu de ombros. “Está um pouco confuso. Eu não me lembro direito.”
O martelo fez seu trabalho.
E algo em mim que havia começado a viver novamente… murchou.