A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 223
223: Traição 223: Traição Eve
Meu coração saltou da boca quando meus olhos pousaram em Hades. Sua expressão estava suave e aberta antes que seus olhos se estreitassem em mim.
“Amor?”
Sua voz era calma. Calma demais — enganosamente. O momento se estendeu entre nós, espesso com algo não dito, algo volátil. Eu podia ver isso na maneira como seus dedos se flexionavam, na subida e descida medida de seu peito.
Meu pulso trovejava, mas forcei um sorriso, ajustando a bainha das mangas. “Eu — Eu não esperava que você voltasse tão cedo.”
Seu olhar desceu, acompanhando a maneira como minhas mãos se enrolavam no tecido. Um piscar lento. Então outro. Ele deu um passo à frente, sua presença consumindo a sala como uma maré crescente.
“Eu percebi.”
As palavras enviaram um arrepio pela minha espinha. Não havia calor nelas, nem raiva — apenas um tipo perigoso de paciência. O tipo que significava que ele já tinha descoberto algo e estava esperando que eu confirmasse.
Eu engoli em seco. “Eu estava apenas —”
“Encobrindo.”
Eu estremeci.
O menor movimento, mas o suficiente. Sua expressão não mudou, ainda assim algo nele se alterou — seus olhos escurecendo, ombros se endireitando como se para se preparar. Ele estava observando, lendo, avaliando.
Eu estava perdendo essa batalha antes mesmo de ter a chance de lutar.
Hades inalou profundamente, seu olhar fixo no meu como um predador examinando uma presa ferida. Não com fome, não com raiva — mas com aquela paciência perturbadora que fazia minha pele se arrepiar.
“Eve,” ele disse novamente, mais devagar desta vez. “O que você está escondendo?”
Eu me mantive firme, embora meu aperto no tecido me traísse, dedos se torcendo mais firmemente como se a seda por si só pudesse me proteger de seu escrutínio.
“Nada,” eu disse, rápido demais.
Ele exalou, o som quase divertido mas longe de convencido. “Nada?”
Seus dedos se flexionaram ao lado antes que ele desse outro passo à frente. Dei um passo para trás, meu calcanhar batendo na borda da cama. Sem saída.
Seu olhar desceu mais uma vez, arrastando sobre o robe que agora pendia mais solto em torno de meus ombros. E então, antes que eu pudesse reagir, ele se moveu.
Com o tipo de graça fluida que o tornava tão perigosamente imprevisível, seus dedos agarraram meus pulsos.
Eu congelei.
Lentamente, deliberadamente, ele afastou minhas mãos. O tecido escorregou dos meus dedos, revelando o delicado e rendado pedaço de tecido que eu estava tão desesperadamente tentando esconder.
Silêncio.
Hades encarou.
Então suas sobrancelhas se elevaram, lentas e incrédulas.
“Eve,” ele murmurou, a voz densa de diversão. “Você está… segurando um cinto de liga?”
Meu estômago se contorceu. O calor subiu pelo meu pescoço como fogo. Cerrei a mandíbula, convocando toda a dignidade que me restava. “Sim.”
O silêncio se estendeu entre nós.
E então—
Uma risada.
Não uma risadinha. Não uma expiração suave. Mas uma risada profunda, rica, completamente encantada.
Eu franzi a testa. “Não é engraçado.”
“Ah, mas é.” Sua risada diminuiu para algo presunçoso, seus olhos brilhando com diversão irrestrita. “Você estava agindo como se tivesse sido pega cometendo traição — por causa disso?”
Eu funguei. “Eu queria causar uma impressão.”
Seus lábios tremeram. “E você achou que a melhor maneira de fazer isso era ficar no meio do nosso quarto, segurando um cinto de liga como se fosse contrabando?”
Cruzei os braços, apenas para perceber tarde demais que ainda estava segurando aquela maldita coisa. As tiras rendadas pendiam entre nós, me traindo completamente.
Hades estendeu a mão, retirando a delicada peça das minhas mãos com uma curiosidade quase reverente. Ele a virou entre os dedos, olhos escuros voltando para os meus, uma diversão maliciosa dançando por trás deles.
“Isso,” ele murmurou, dando um passo à frente, “é o grande segredo?”
Eu endireitei os ombros. “Era para ser uma surpresa.”
“É,” ele concordou, sorrindo. “Só que não do tipo que você pretendia.”
Eu o encarei, mas era impossível manter minha indignação quando seus olhos ardiam com algo mais suave, algo quente demais, sabendo demais.
Hades deixou o cinto de liga escorregar por seus dedos, deixando-o pendurado entre nós. Então, com um sorriso lento e deliberado, ele encontrou meu olhar.
“Bem,” ele disse, voz rouca, “não me faça esperar, amor. O que mais você está escondendo?”
Seus dedos flexionaram ao redor da delicada renda antes que ele a deixasse escorregar completamente de seu alcance, esquecida no momento em que sua atenção voltou para mim. Seu olhar, antes brincalhão e divertido, tornou-se ardente enquanto se arrastava pelo meu corpo.
E então — ele se moveu.
Com a mesma facilidade de sempre, ele alcançou as lapelas do meu robe, passando pela minha tentativa frágil de mantê-las fechadas. A seda deslizou dos meus ombros em um movimento suave, sussurrando contra a minha pele antes de se acumular aos meus pés.
Um suspiro agudo. Um momento suspenso no tempo.
Hades ficou imóvel.
Sua garganta subiu e desceu em uma deglutição lenta e deliberada, como se estivesse se obrigando fisicamente a respirar. Seu olhar me devorou, não com fome, mas com algo mais profundo — algo que enviou calor subindo pela minha espinha e transformou meu pulso em trovão. Ele absorveu cada centímetro, cada detalhe, olhos demorando-se sobre a renda intricada, as alças delicadas, os painéis transparentes insinuando o que se escondia por baixo.
Seus dedos se contraíram ao lado, contenção lutando com algo primitivo. Sua mandíbula se contraiu, um músculo ondulando sob sua pele. E então, depois do que pareceu uma eternidade, seus lábios se separaram, a voz rouca.
“Eve.”
Apenas meu nome. Um sussurro reverente. Uma rendição tranquila.
Seu olhar voltou ao meu, algo cru e sem defesa cintilando por trás de seus olhos. Como se ele tivesse sido completamente, totalmente destruído pela minha visão.
Eu exalei tremulante, dedos se curvando ao meu lado. “Diga algo.”
Hades piscou uma vez, como se se libertasse de qualquer transe em que eu o tinha envolvido. Mas quando falou, sua voz era diferente — baixa, reverente, como um homem vendo algo divino pela primeira vez.
“Você é deslumbrante.”
As palavras colidiram comigo com a força de uma onda, roubando o ar dos meus pulmões.
Um passo lento e medido à frente. Então outro.
Suas mãos se ergueram, dedos pairando logo acima da minha cintura, como se estivesse hesitante em tocar. Como se a realidade de mim pudesse escapar de seu alcance se ele não fosse cuidadoso.
Eu nunca o tinha visto assim antes.
Hades — o deus do submundo, o homem que comandava sombras e tempestades — estava diante de mim, desfeito. Olhos escuros de admiração, reverência gravada em cada linha de seu rosto.
“Eu—” Sua voz vacilou, algo raro, algo frágil. “Eu não acho que estava pronto para isso.”
Um sorriso ameaçou meus lábios, mas o momento era muito carregado, muito elétrico, para quebrar com algo menos do que honestidade.
“Eu queria te surpreender,” eu admiti.
Seu olhar caiu sobre meu corpo novamente, o canto de sua boca tremendo. “Você conseguiu.”
Ele me alcançou então — devagar, deliberadamente — suas mãos se posicionando na minha cintura, o calor de suas palmas queimando através do tecido delicado. Seu toque era leve, quase hesitante, como se ele ainda estivesse processando a realidade de eu estar diante dele assim.
Eu inclinei a cabeça, observando a maneira como sua garganta se movia ao engolir, a maneira como seus cílios baixavam enquanto ele traçava a curva dos meus quadris com os polegares. Um deus, completamente encantado.
“Você está encarando,” eu provoquei, a voz mais suave do que eu pretendia.
Seus olhos cintilaram para cima, trancando nos meus. O sorriso que ele me deu era preguiçoso, sabendo — mas sua voz era um sussurro rouco.
“Eu vou fazer muito mais do que isso.”
Sua cabeça desceu, justo quando meu nariz captou algo.
Queijo. Carne. Picles. Cebolas.
Eu o parei, olhando por trás dele. “São hambúrgueres?”
Ele riu. “Sim—”
Então eu estava correndo.