A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 217
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217: As Assombrações que Escolhemos 217: As Assombrações que Escolhemos Hades
A pergunta me atingiu como uma bola de demolição.
“Quem você escolheria?”
Eu não me movi. Não consegui respirar.
O ar entre nós estava fininho, carregado com o peso de cada coisa que eu nunca disse em voz alta. Minhas garras ainda estavam em sua garganta, mas eu não estava mais vendo Felícia.
Eu estava vendo Danielle.
Eu estava vendo o sangue em minhas mãos, o corpo que eu não enterrei, o fantasma que permaneceu dentro de mim por cinco malditos anos – envolto ao redor da minha caixa torácica como um laço, apertando toda vez que eu tentava respirar.
Os lábios de Felícia se curvaram, uma zombaria de sorriso, desafiando-me a responder.
“Você não consegue, consegue?” ela murmurou, a voz mais suave agora. Quase zombeteira, quase piedosa.
Meu peito ardia.
Minhas sombras se enrolavam mais apertadas, contorcendo-se contra minha pele como se elas também pudessem sentir o laço se aproximando.
“Diga, Hades.”
As palavras não eram reais, mas poderiam muito bem ter sido.
A voz de Danielle, um sussurro no fundo da minha mente.
Eu nunca disse isso. Nunca me permiti dizer.
Mas Felícia?
Felícia estava me obrigando a isso.
Eu a odiava por isso.
Odiava que ela soubesse exatamente onde torcer a faca.
Odiava que ela estivesse certa.
“Você acha que me conhece tão bem,” eu murmurei, minha voz rouca, meu aperto apertando apenas o suficiente para fazer sua respiração entrecortar. “Você acha que me tem todo decifrado, não é?”
A garganta de Felícia subiu e desceu, mas ela não desviou o olhar.
Ela não recuou.
Não agora.
Não quando ela me encurralou em um canto que eu passei anos evitando.
“Eu não tenho que te conhecer,” ela murmurou. “Eu só preciso conhecê-la. Nenhuma mulher na terra poderia te amar do jeito que ela amava. Você sentia o mesmo.”
Uma dor aguda e fria atravessou meu peito.
Eu não respondi.
Porque não havia resposta.
Porque no segundo em que eu falasse em voz alta, se tornaria real.
Danielle ou Eve.
Um fantasma, um futuro.
Uma que eu perdi, uma que eu ainda podia perder.
Os lábios de Felícia se entreabriram, como se ela estivesse prestes a dizer algo mais – prestes a pressionar mais, torcer mais –
– até que minhas garras bateram na parede ao lado dela.
Um estalo agudo dividiu o ar enquanto a madeira se despedaçava sob minha força.
Felícia se encolheu.
Pela primeira vez.
Ela se encolheu.
Uma respiração lenta e trêmula passou por mim, tremendo com a força do que eu não tinha feito – do que eu mal consegui parar de fazer.
Minhas mãos tremiam.
Minhas malditas mãos estavam tremendo.
Eu estive a segundos de despedaçá-la.
Não porque ela mentiu.
Mas porque ela disse a verdade.
Eu dei um passo para trás, dentes cerrados com tanta força que minha mandíbula doía.
Felícia engoliu em seco, seu pulso pulsando visivelmente em sua garganta.
Mas ela sorriu.
Porque ela sabia.
Ela tinha vencido.
“Você não pode dizer,” ela sussurrou. “Porque você já sabe a resposta. E essa resposta?”
Ela inclinou a cabeça, voz como veneno drapejado em seda.
“Isso te apavora.”
A escuridão em mim se quebrou.
Antes que eu pudesse pensar, antes que eu pudesse me impedir, agarrei-a pela garganta e a joguei do outro lado da sala.
Ela bateu na minha mesa, ofegando enquanto se segurava, as mãos agarrando a borda enquanto tossia e cuspia sangue no chão.
Mas ela riu.
Um som quieto, sem fôlego, amargo.
“Toquei um nervo, não foi?” ela ofegou, limpando o lábio com as costas da mão. “Você só pode me jogar porque sabe que iria machucar.”
Eu observei enquanto o corte em seu braço se recompunha.
Eu deveria ter sentido triunfo. Poder.
Mas tudo o que eu senti foi raiva.
Raiva que ela me desarmou.
Raiva que ela encontrou a ferida que eu me recusava a reconhecer.
Raiva que eu a deixei fazer isso.
Felícia se levantou lentamente, seu corpo tenso, mas vitorioso.
“Você não precisa responder, Hades,” ela murmurou. “Você já respondeu.”
A sala parecia pequena demais.
Apertada demais.
Maldita sufocante demais.
“Você nem ama aquela garota,” ela continuou, voz baixa mas cheia de veneno. “Você está apenas tentando preencher o vazio.”
“Eu a amo!”
As palavras saíram de mim antes que eu pudesse detê-las.
Eles reverberaram na sala, cruas e inegáveis, carregadas com uma fúria que eu nem mesmo percebi que estava fervendo sob a superfície.
Felícia parou.
Seu sorriso vacilou.
Eu dei um passo à frente, meu peito subindo e descendo com respirações ofegantes e irregulares, minhas mãos ainda tremendo com o peso do que eu acabara de admitir.
“Eu a amo,” repeti, minha voz mais baixa agora, mas não menos perigosa. “Você vai deixar esta torre, e a Deusa sabe que se você sequer respirar perto dela de novo, eu vou te acabar, Felícia.”
Eu quis dizer isso. Cada palavra.
Felícia passou anos jogando seus jogos, manipulando cada situação a seu favor. Mas desta vez? Desta vez, ela perdeu.
Seu sorriso vacilou ainda mais, algo indecifrável piscando em sua expressão – como se ela não esperasse que eu admitisse tão facilmente. Como se ela esperasse que eu hesitasse.
Mas eu não hesitei.
Dei um passo mais perto, observando a forma como seu pulso saltou em sua garganta, a maneira como seu corpo se tencionou, mesmo quando ela tentava segurar aquela máscara irritante de indiferença.
“Você queria ouvir isso?” eu continuei, a voz uma coisa quieta e mortal. “Tudo bem. Eu a amo. Eu a amo de uma maneira que não é sobre substituir o passado. Eu a amo porque ela é tudo o que eu nunca me permiti ter. E você?” Eu inclinei, minhas sombras se enrolando como coisas vivas ao meu redor. “Você tentou tirar isso de mim.”
Felícia não se moveu, mas eu vi seus lábios se apertarem, um pouco.
Ela sentiu. A mudança.
O peso da minha raiva se transformando em outra coisa.
Algo final.
“Eu deveria te matar,” murmurei, minha voz suave, fria. “Eu deveria terminar essa desculpa patética de conversa com seu sangue em minhas mãos.”
Felícia inalou, rasa mas controlada.
“E ainda assim…” Deixei que as palavras pairassem, inclinando a cabeça. “Eu não vou.”
Suas sobrancelhas se contraíram, quase imperceptíveis.
Deixei um sorriso – um verdadeiro – puxar o canto dos meus lábios.
“Porque, apesar de toda a sua porcaria, apesar de cada palavra venenosa que você cuspe em mim, eu sei uma coisa.”
Felícia se enrijeceu.
“Você teme a mim,” eu sussurrei, deixando a verdade assentar entre nós. “Você tem medo do que acontece quando eu decido que você não vale mais a pena manter viva. E agora? Você está balançando sobre essa linha.”
O silêncio se estendeu, espesso com algo que não estava mais sob seu controle.
Pela primeira vez, Felícia não estava vencendo.
Pela primeira vez, ela foi longe demais.
“Você vai sair desta torre,” repeti, minha voz inflexível. “E vai ficar longe dela. Se eu sequer sentir que você está tramando – se eu sequer sentir seu cheiro a uma milha dela – eu não hesitarei da próxima vez.”
Felícia exalou lentamente, rolando os ombros como se estivesse se desvencilhando da tensão.
“Você…”
“Hades…”
A voz de Eve ressoou pela porta, leve e cantada. Ela entrou, com um salto em seu passo, uma criança em seu quadril.
“Elliot está—”
Ela congelou quando seus olhos encontraram os nossos, suas palavras morrendo em seus lábios.