A Luna Amaldiçoada de Hades - Capítulo 196
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196: Sem coração 196: Sem coração Eve
O hálito de Hades era quente contra minha têmpora, mas suas palavras eram gelo. Cortantes. Descascando-me camada por camada.
“Os pesadelos,” ele murmurou, seus lábios roçando minha pele como se para amenizar o impacto. “Eles não são apenas memórias. São ecos, não é? O passado se repetindo sem parar na sua mente, aprisionando você lá toda vez que fecha os olhos.”
Um arrepio violento e incontrolável percorreu meu corpo. Minhas mãos se fecharam em punhos, as unhas pressionando as palmas das mãos. O ar no quarto engrossou, pesando sobre mim.
Hades sentiu. Ele me sentiu. E ele não parou.
“Eu lembro de quando nos conhecemos, você se encolhia muito antes mesmo de perceber quem eu era. Seus olhos corriam pelo quarto,” ele continuou, sua voz baixando ainda mais. “Você estava com medo.”
Eu ofeguei, meu corpo estremecendo sob ele enquanto uma lembrança afiada e cegante me atravessava.
A mordida fria das amarras de metal no meu tornozelo.
Uma mão áspera agarrou meu queixo, me forçando a olhar para cima.
A ardência de algo cortando minha pele, seguida pela risada de um gama.
Rhea se contorcia dentro de mim, um gemido vibrando através dos meus ossos. Ela sentia também. A dor ecoava em nosso vaso compartilhado.
O aperto de Hades se intensificou — não de forma cruel.
“Você sempre verifica as saídas,” ele pressionou, sua respiração controlada, seu toque firme mas reverente. “Todo quarto, todo espaço, até mesmo em lugares onde você deveria se sentir segura.” Seus dedos roçaram sobre o ponto da minha pulsação, sentindo-a martelar sob minha pele. “Porque houve um tempo em que você não tinha nenhuma.”
Eu não conseguia respirar. Eu nunca tinha percebido que fazia isso.
Uma densa e sufocante escuridão arranhava as beiras da minha mente.
A cela não tinha janelas.
Nenhuma porta que eu pudesse abrir. Nenhuma saída.
Hades ainda falava, ainda se movendo pelas minhas fraturas.
“E o sangue…” Sua voz vacilou por um instante. “Ele te aterroriza. Não apenas porque você viu ele derramar. Mas porque você se afogou nele.”
Um grito dilacerado saiu da minha garganta, cru e quebrado.
Flashes de vermelho preenchiam minha visão.
O cheiro. O gosto.
O sentimento dele secando na minha pele, se infiltrando na pedra sob mim, não importa o quanto eu tentava esfregá-lo.
Os gritos, os rostos angustiados que eu nunca conseguia colocar. A viscosidade nas minhas mãos. Havia memórias que permaneciam desencarnadas até hoje.
Os sonhos que pareciam me escapar, fragmentos deles ficando comigo quando eu acordava, mas não o suficiente para pintar um quadro completo, mas talvez fosse melhor assim. Talvez minha mente ainda estivesse tentando me proteger.
No entanto, era tudo demais, a maneira como ele falava a verdade que havia sido enterrada no ar ao nosso redor.
Eu me debatia contra ele, desesperada para escapar da maré sufocante das memórias, mas Hades apenas me segurava mais perto.
“Eve.” Sua voz não era mais fria, não mais exigente.
Era gentil.
Estável.
Real.
Ele pressionou sua testa contra a minha, sua respiração se misturando com a minha, me estabilizando. “Você está segura.
Eu solucei, meu corpo tremendo incontrolavelmente. “Eu-eu não posso,” engasguei.
Sangue.
Gritos.
“Não machuquem meu bebê!” Uma voz desesperada de repente ressoou na minha cabeça, meu crânio zumbindo.
Isso era novo.
“Por favor, meu bebê!” A mesma voz.
Então os flashes começaram, imagem horrível atrás de imagem horrível de novas memórias que eu nunca soube que existiam nas escuras fendas da minha mente fraturada.
Eu estava me desfazendo.
As imagens não paravam.
Elas colidiam comigo, uma atrás da outra — corpos espalhados, o brilho do fogo refletindo em vidro quebrado, o cheiro metálico do sangue misturado com óleo queimado. E então — a voz.
“Por favor, meu bebê!”
Minha respiração engasgou violentamente, o desespero nas palavras se cravando em mim. Senti minha cabeça se dividindo, como se algo tivesse sido trancado por tanto tempo que forçá-lo a abrir estava me fraturando por dentro.
Eu tremia sob Hades, meu corpo mal se mantendo. Minhas mãos se agarravam aos ombros dele como se ele fosse a única coisa me prendendo à realidade.
Mas ele ainda falava. Ainda desenterrando verdades que eu não estava pronta para enfrentar.
“Você precisa lembrar,” a voz de Rhea tecia através da minha mente, suave mas insistente. “Mesmo que seja difícil, querida.”
Eu engasguei com um soluço, meu peito subindo e descendo enquanto eu balançava a cabeça furiosamente. “Não,” eu suspirei. “Não mais.”
Mas Hades não parava. Sua voz era calma, estável, desvendando tudo.
“Você nunca dorme na cama a menos que não tenha escolha.”
Eu estremeci, meus dedos tremendo contra a pele dele.
“Porque por anos, não havia uma.”
Eu não conseguia respirar.
Ele continuava, sua voz baixando. “Você costumava congelar quando alguém elevava a voz. Mesmo quando não era dirigida a você. Porque você aprendeu que gritos sempre vinham antes da dor. Você tentou esconder isso com desafio mas eu vi, Eve.”
O quarto girava violentamente.
Eu coloquei as mãos sobre os ouvidos, fechando os olhos com força enquanto me balançava sob ele. “Pare,” eu sussurrei.
Mas ele não parava.
“Você estava magra quando eu te trouxe aqui, pálida, mal comendo não porque não tinha fome, mas porque alguém outrora controlava quando você tinha permissão para isso.”
Um grito agudo saiu da minha garganta. A sensação fantasma de fome roendo, esperando pela pouca comida que sempre me ofereciam.
As paredes dentro de mim racharam.
Hades viu demais. Sabia demais.
Ele não devia entender.
Ele devia estar zangado.
Inspirei um arfar desordenado, e antes que pudesse me conter, alcancei seu rosto e o agarrei, meus dedos pressionando sua pele. Meus olhos ardiam de desespero enquanto eu o forçava a olhar para mim, minhas lágrimas caindo livremente.
“Por que você não grita comigo?” Eu soluçava. “Por que você não me odeia?”
Seus olhos prateados brilharam, mas ele nada disse.
“Você deveria estar furioso!” Minha voz quebrou, rouca e crua. “Eu menti para você por meses. Deixei você acreditar que eu era outra pessoa. Eu te enganei. Então por que você não está gritando? Por que não está me expulsando?” Eu tremia, meu aperto em seu rosto se intensificando. “Bata em mim, me chame de mentirosa, diga que eu te enojo! Faça qualquer coisa—só não diga essas coisas. Não as torne reais. Eu não suporto.”
Um soluço interrompido me rompeu. “Dói demais,” sussurrei quebradamente. “Estou sangrando por dentro, Hades. Já fui quebrada o suficiente.”
Busquei desesperadamente seu rosto, minha visão turva. “Você deveria me odiar por isso. Você foi iludido. Manipulado.” Minha voz caiu até um sussurro, as palavras com gosto de cinza. “Você não deveria querer nada comigo.”
Mas Hades não desviou o olhar. Ele não vacilou.
Seu silêncio era pesado, sufocante.
Eu me preparei para a rejeição. Para a raiva.
Mas não para isso.
Não para a maneira como ele olhava para mim—como se ele soubesse, mesmo antes de eu ter falado as palavras em voz alta. Como se ele já tivesse tomado sua decisão.
“Não faça isso comigo, por favor,” eu sussurrei. “Não me dê esperança só para…”
“Para quê, Eve?” Ele perguntou suavemente, seu nome verdadeiro em seus lábios enviando um calafrio agradável através de mim.
“Hades…”
Eve
“Para quê, Eve?” Sua voz era imensamente suave, mas carregava o peso de algo inabalável.
Eu tremia, meu sopro tremendo enquanto eu o segurava, meu aperto em seu rosto se intensificando como se eu pudesse forçá-lo a dizer as palavras que eu precisava. As palavras que encerrariam este tormento. As palavras que me cortariam limpa.
“Para me machucar,” eu sussurrei quebrantada. “Para me abandonar. Para fazer o que todos os outros fizeram.”
Hades inspirou profundamente, seus olhos prateados estáveis, inabaláveis. “É isso o que você pensa que eu vou fazer?”
“Eu não sei,” eu engasguei, minha voz crua. “Eu não sei mais no que acreditar.”
Meu corpo era um campo de batalha de feridas passadas, antigas e novas, algumas ainda sangrando, algumas costuradas em cicatrizes irregulares. Minha alma se sentia igualmente rasgada, fragmentada entre a vida que eu tinha roubado e a que eu tinha sobrevivido. E Hades—Hades tinha visto através de tudo isso, descascado as camadas que eu havia tão cuidadosamente costurado, revelando a verdade que eu havia enterrado tão profundamente, até de mim mesma.
“Você está esperando que eu te afaste,” ele murmurou, enxugando uma lágrima errante da minha bochecha. “Você acha que eu vou virar as costas para você agora que eu sei.”
Um riso quebrado escapou de mim, meu peito arfando. “Você não faria? Você não deveria?” Eu balancei a cabeça, minha visão turva com lágrimas. “Você se apaixonou por uma mentira. Você amou alguém que nunca existiu.”
Os olhos de Hades escureceram, seu aperto se estreitando apenas o suficiente para me lembrar que ele ainda me segurava, ainda estava aqui.
“Eu não me apaixonei por uma mentira,” ele disse, sua voz baixa, firme. “Eu me apaixonei por você.”
Inspirei um ar rápido e acentuado, meu estômago torcendo.
“Não, você—”
“Eu me apaixonei,” ele interrompeu, seu polegar acariciando ao longo da minha mandíbula, me anchoring. “Você pode ter usado um nome diferente, mas você sempre foi você. O fogo em seu espírito, a forma como você lutou mesmo estando com medo, a maneira como você me olhou como se quisesse me odiar, mas não conseguia—nada disso foi uma mentira.”
Balancei a cabeça, minhas mãos se fechando em punho contra seu peito. “Você não entende—”
“Então me faça entender,” ele insistiu, sua voz calma mas firme. “Conte-me o que eles fizeram com você, Eve.” Ele beijou o topo da minha cabeça. “Expele o horror que você enfrentou em mim. Eu aguentarei.”
Virei o rosto.
Mas ele pegou meu queixo. “Eles permanecem, assombrando as fendas de sua mente. Eu sei disso muito bem.”
Ele se levantou, já que estava ajoelhado entre minhas pernas, “Até eu, um homem sem coração sabe disso.”
Eu congelei.
Meu respiro prendeu enquanto o peso de suas palavras afundava, mas algo não estava certo.
O ar engrossou, pesando sobre mim como um torno. Uma estranha energia crepitava ao redor de nós, tangível, elétrica, errada.
O aperto de Hades em mim se soltou enquanto ele recuava um pouco, sua expressão mudando para algo que eu não conseguia definir. Seus olhos prateados—aquelas lindos, penetrantes olhos—escureceram.
Não.
Não escureceram.
Tornaram-se negros.
Um profundo, sem fim vazio engoliu suas íris, o branco de seus olhos desaparecendo até não haver nada além de escuridão.
Meu estômago revirou.
Veias negras irromperam em seu pescoço, rastejando por baixo de sua pele como sombras vivas, torcendo e se contorcendo até seus braços, suas mãos, desaparecendo sob seu peito.
Eu recuei, mas meu corpo recusou-se a se mover.
“Hades?” Minha voz era apenas um sussurro, tremendo, incerta.
Ele não respondeu.
Seus lábios se entreabriram ligeiramente, sua respiração ainda constante—demasiadamente constante. Suas mãos se fecharam em punhos ao seu lado como se estivesse se preparando, seu corpo inteiro tensionando.
Então—seu peito se abriu.
Um estalo repugnante ecoou pelo quarto enquanto sua pele e costelas se separavam por conta própria, partindo como o lento, deliberado desabrochar de uma ferida monstruosa.
Inspirei um ar rápido e agudo, o horror abrindo caminho em minha garganta.
Onde deveria estar seu coração, não havia carne, nenhum músculo pulsante.
Havia apenas uma massa negra girando, pulsando de energia negra, se contorcendo como um vazio vivo.
Ela sangrava sombra. Pulsava com algo antigo, algo errado. A própria visão disso enviou uma onda de náusea passando por mim.
Eu tinha visto coisas monstruosas antes. Haviam sofrido horrores que nem podia nomear.
Mas isso?
Isso era algo completamente diferente.
Minhas mãos tremiam enquanto eu as esticava instintivamente em direção a ele—e então parei.
“O quê—” Eu ofeguei.
“Nós somos iguais, você e eu, seu pai pediu pelo seu tormento e o meu arrancou meu coração.”